Sexta-feira 8 de novembro de 2019

À procura de uma explicação para o aumento de peso devido ao tratamento para o VIH

Andrew Hill apresentando na EACS 2019. Imagem: @andreaantinori

Só havia lugares em pé na sessão sobre ganho de peso em pessoas sobre tratamento para o VIH na 17ª Conferência Europeia sobre SIDA (EACS 2019), ontem em Basileia, Suíça.

O aumento de peso associado ao dolutegravir foi notado nos últimos dois anos, mas esta questão parece estar associada com um espectro maior de antirretrovirais. O acréscimo de peso com os antirretrovirais modernos consiste no ganho geral de gordura – tanto gordura subcutânea como central – associado a um aumento do perímetro abdominal. Não é a mesma coisa que a síndroma de redistribuição de gordura (lipodistrofia) que foi observado há algumas décadas.

O Dr. Andrew Hill da Universidade de Liverpool afirmou durante a conferência que o aumento de peso depois de iniciar o tratamento antirretroviral é, em parte, um efeito “saudável” nas pessoas que iniciam tratamento com contagens de CD4 baixas e/ou carga viral alta, mas parece estar mais associado com fármacos específicos. Adicionalmente, parece haver um efeito cumulativo com combinações específicas de medicamentos.

Os inibidores da integrasse dolutegravir e bictegravir estão associados com o maior ganho de peso. A antiga versão do tenofovir (tenofovir disoproxil fumarate; TDF) é associada de forma consistentes a um ganho menor de peso que a nova formulação do tenofovir (tenofovir alafenamida; TAF) ou o abacavir. O acréscimo de peso foi também observado com o INNTR rilpivirina.

Para complicar a busca de uma causa, os maiores ganhos de peso foram observados em mulheres e pessoas de etnia africana, que estavam sub-representados nos ensaios clínicos dos novos fármacos. O impacto da genética no metabolismo dos fármacos pode explicar as diferenças no ganho de peso. Apesar de alguns estudos demonstrarem pouco aumento de peso depois de mudar para um regime que contenha um inibidor da integrasse, os homens caucasianos estavam sobre representados nestes estudos.

Apesar da formulação TAF do tenofovir estar associada com um menor risco de fratura óssea e falha renal que a anterior formulação TDF, isto precisa de ser avaliado em relação ao aumento de risco da obesidade clínica observada com o TAF – e o potencial impacto nas doenças cardiovasculares, cancro, doença de Alzheimer, problemas na gravidez diabetes, segundo Hill.

Síndrome metabólico e aumento de peso

Michelle Moorhouse apresentando na EACS 2019. Imagem: @andreaantinori

Um dos principais estudos que destacou o aumento de peso foi o ADVANCE, um ensaio clínico randomizado desenhado para avaliar a segurança e eficácia do dolutegravir e do tenofovir alafenamida (TAF) na África do Sul. Na EACS, a Dra. Michelle Moorhouse do Ezintsha apresentou resultados detalhados das 96 semanas do estudo.

Os aumentos de peso mais pronunciados ocorreram naqueles que receberam a combinação de dolutegravir, TAF e emtricitabina – um ganho médio de 6kg nos homens e 9kg nas mulheres. A maioria desta gordura estava dividida de forma igual pelos membros e tronco. Mais de 20% das mulheres randomizadas para esta combinação eram recém-obesas na semana 96.

Adicionalmente, foi observado com mais frequência o síndrome metabólico nos indivíduos que receberam esta combinação. O síndrome metabólico foi definido através da obesidade e mais dois dos seguintes fatores associados: triglicerídeos elevados, colesterol HDL reduzido, pressão arterial aumentada, glucose elevada, ou tratamento para qualquer um destes. Foi observado em 9% daqueles em dolutegravir/TAF/emtricitabina, quando comparado com 5% que estavam a tomar dolutegravir/TDF (tenofovir disoproxil fumerato)/emtricitabina ou com os 3% a tomar efavirenz/TDF/emtricitabina.

Alguns investigadores sugeriram que a razão para o maior aumento de peso com os novos regimes se deve à menor quantidade de efeitos secundários gastrointestinais, conduzindo a uma melhor absorção da comida e apetite. Porém, uma análise, que exclui as pessoas que tinham declarado esses efeitos secundários, demonstrou que a tolerabilidade não explica a diferença no aumento do peso.

Jogador de rúgbi a viver com VIH desafia o estigma

Gareth Thomas no EACS 2019. Imagem: Sven Huebner

No seu primeiro discurso público desde que anunciou, em setembro, que vive com VIH, a estrela galesa de rúgbi, Gareth Thomas, sublinhou na conferência a necessidade de confrontar o estigma associado ao VIH.

Falou da vergonha e culpa que sentiu depois de ter sabido do diagnóstico de VIH e “de uma sensação horrível de isolamento – o sentimento de vergonha crescia de dia para dia”, afirmou, enquanto percebia que não podia ser honesto com a família, amigos e colegas.

Decidiu fazer um documentário televiso na BBC para educar o público. “Eu queria desafiar o estigma de cabeça erguida”, disse. “Eu queria que as pessoas percebessem que eu sou capaz de nadar 4000 metros no mar, pedalar 180km e correr a maratona, com VIH. Se eu consigo fazer isto, conseguimos fazer qualquer coisa.”

 “Nesse dia demos um pequeno passo na educação e no quebrar do estigma. Além disso, nesse dia, segui por um caminho que passei muitos anos a evitar percebendo, entretanto, que era provavelmente o rumo para o meu destino.”

O Professor Chloe Orkin, da British HIV Association disse: “Ele teve um impacto enorme nos meus pacientes. Estão sempre a dizer-me como se sentem empoderados a falar sobre o VIH.”

Progresso nos 90-90-90, mas com uma forte diferença entre o oeste e o leste

Anastasia Pharris do ECDC na EACS 2019. Imagem: Gus Cairns

As metas da ONUSIDA dos 90-90-90 para o diagnóstico, tratamento e supressão viral do VIH não serão atingidas na maioria da europa do Leste devido ao reduzido acesso ao tratamento para o VIH, segundo o apresentado na conferência.

No que diz respeito à primeira meta (90% das pessoas com VIH diagnosticadas), cerca de 80% das pessoas que vive com VIH na região europeia sabem do seu estatuto. Mais de metade dos países europeus já atingiram, ou estão prestes a atingir, esta meta. Contudo, o diagnóstico tardio é um problema na região, com metade das pessoas a ser diagnosticadas mais de três anos depois de terem sido infetadas pelo VIH.

Na segunda meta (90% das pessoas diagnosticadas sob tratamento), somente 65% das pessoas diagnosticadas com VIH estão sob tratamento antirretroviral. Aproximadamente um milhão de pessoas que vivem com VIH não estão a receber tratamento. Um grade hiato fica assim aberto entre a europa ocidental e oriental, com a ligação aos cuidados de saúde depois do diagnóstico particularmente lenta no Leste.

Na terceira meta (90% das pessoas sobre tratamento com carga viral indetetável), apesar  de 86% das pessoas em tratamento na região estar em supressão viral, devido às falhas de tratamento, 1,2 milhões de pessoas vivem ainda com carga viral detetável.

Existem disparidades grandes nas populações-chave. Apesar de 90% das pessoas que usam drogas injetáveis que vivem com VIH estarem diagnosticadas, somente 50% estão sob tratamento e apenas 39% estão em supressão viral.

Anastasia Pharris do European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC) afirmou que a Europa não atingirá as metas a menos que aborde os problemas na prevenção (incluindo a redução de danos, PrEP e preservativos), rastreio e tratamento.