Estudo britânico sobre PrEP termina recrutamento

A fase piloto do estudo PROUD – um estudo sobre profilaxia pré-exposição para a infeção pelo VIH em homens gay no Reino Unido – está agora terminada, tendo atingido a meta de 550 participantes no final de abril. Os investigadores candidataram-se a financiamento com o objetivo de aumentarem a eficácia do PROUD, aumentando a escala para 2 300 participantes. Aguarda-se a decisão final em novembro, não existindo por isso qualquer recrutamento antes da primavera de 2015.

O PROUD é um estudo de dois anos com participantes randomizados por grupos para tomar Truvada® diariamente ao longo de dois anos ou apenas no segundo ano. O objetivo de adiar o tratamento de metade dos participantes por um ano, porque este não é um ensaio controlado com placebos e todos os que tomarem a PrEP saberão que estão sob tratamento, passa por poder compreender se as pessoas alteram as práticas sexuais de risco quando sabem estar sob PrEP.

Os primeiros dados – com base nas características dos participantes – foram apresentados na Terceira Conferência Conjunta da BHIVA (British HIV Association) e BASHH (British Association for Sexual Health and HIV) em abril. A média de idades dos 443 participantes sobre os quais existiam dados era de 35,5 anos, tendo um quarto destes, 29 anos ou menos. Oitenta por cento dos participantes eram caucasianos e quase 60% licenciados. Reportaram uma média de dez parceiros com os quais praticaram sexo anal nos últimos três meses, tendo usado preservativo com cerca de metade a três quartos dos parceiros. Um terço dos parceiros dos participantes assumiram ser positivos para a infeção pelo VIH, mas pelo menos 80% destes estava sob tratamento.

Os participantes foram questionados sobre os motivos pelos quais não usaram preservativo em algumas ocasiões. Foram dados motivos diferentes, mas a resposta mais comum era “É muito mais agradável sem preservativo” (uma resposta dada por dois terços dos participantes). Pelo menos 40% usaram profilaxia pós-exposição (PPE) nos 12 meses antes de aderirem ao estudo e 21% tinham recorrido à mesma mais de uma vez.

Os participantes no PROUD reportaram elevados níveis de consumo de drogas: metade tinha consumido mefedrona ou uma substância semelhante, 43% GHB, 35% cocaína e 24% metanfetaminas.

Expandir o rastreio poderá encontrar mais infeções agudas e tardias

Alargar o rastreio da infeção pelo VIH para hospitais locais e cuidados de saúde primários poderá não só ajudar a identificar mais pessoas que há muito vivem com a infeção sem o saberem, mas também pessoas recentemente infetadas, concluiu um estudo piloto realizado em Vancouver, no Canadá.

Um projeto piloto de avaliação de um programa de expansão do rastreio da infeção pelo VIH teve lugar entre outubro de 2011 e junho de 2013. Envolveu a implementação de rastreios de rotina em todas as admissões nos três serviços de urgência em Vancouver e também aos doentes dos cuidados primários: neste último caso, inscreveram-se no projeto piloto mais de 500 médicos.

Este esquema resultou na expansão dos testes em contexto hospitalar de cerca de 500 mensais antes de outubro de 2011 para 2 500 mensais em outubro de 2012 e um aumento dos testes de rastreio nos cuidados primários de 650 por mês em 2011 para 2 000 na primeira metade de 2013. Foram realizados mais de 73 000 testes nos seis meses finais do projeto piloto quando comparados com os 38 000 em qualquer período de seis meses entre 2008 e 2010.

O número de novos diagnósticos em hospitais duplicou durante o projeto piloto, de 11 em 2010 para 30 em 2012 e 27 em 2013. Embora os 0,02% de pessoas diagnosticadas nos cuidados primários e em consultas externas, igualem sensivelmente a prevalência de VIH na população geral na Colômbia Britânica, a proporção de pessoas diagnosticadas em hospitais era de 0,5%.

Tal como esperado, o projeto piloto em hospitais deparou-se com alguns diagnósticos tardios: a proporção de pessoas diagnosticadas com uma contagem de células CD4 inferior a 200 células/mm3 foi de 35% quando comparada com os 12% noutros centros. Contudo, e de forma inesperada, diagnosticou também mais pessoas na fase de primo infeção: estes compunham 25% do total, comparados aos 15%.

Isto pode dever-se ao facto de as pessoas com primo infeção não suspeitarem que os sintomas estejam relacionados com o VIH, sobretudo se o mais recente teste de rastreio tiver um resultado não reativo.

“Chemsex” não é comum entre os homens gay em Londres, mais popular em homens que vivem com VIH

Um recente relatório de Londres concluiu que o consumo de drogas, como metanfetaminas, mefedrona e GHB/GBL, durante o sexo (designado por “chemsex”) ainda era um comportamento minoritário, à exceção dos bairros londrinos como Lambeth, Southwark e Lewisham, onde existe a maior concentração de homens gay e de homens que vivem com VIH de todo o Reino Unido.

Uma análise recente dos números do maior estudo EMIS (European MSM Survey) concluiu que 1 142 homens destes bairros londrinos tinham respondido ao inquérito. Aproximadamente 10% desses homens tinham consumido mefedrona ou GHB/GBL no último mês e 5% tinham consumido metanfetaminas – estes números sobre consumo de drogas eram cerca do dobro dos de outros homens gay de outras zonas da cidade.

Apenas 3,5% dos homens tinha consumido drogas por via injetada no último ano. Contudo, dois terços dos que tinham injetado eram homens a viver com a infeção pelo VIH, bem como mais de dois terços dos que consumiram metanfetaminas, significando isto que, naquela zona, cerca de um em cada cinco homens seropositivos para o VIH pode consumir drogas por via injetada e um em quatro consome metanfetaminas.

Um em cada dez homens estava preocupado com o seu consumo. A contrastar, 93% consumiam álcool – a substância mais popular – e 25% estavam preocupados com esse consumo.

Em entrevistas qualitativas a 30 homens que praticaram “chemsex” no passado ano, um terço vivia com a infeção pelo VIH, 30% (9 homens) reportaram consumir substâncias por via injetada, contudo, todos reportaram práticas de injeção seguras. Estes dividiam-se sensivelmente em três grupos: homens a viver com VIH que decidiram ter sexo sem preservativo com outros homens seropositivos (serosorting), embora por vezes presumissem qual o estatuto serológico dos seus parceiros ao invés de o explicitarem, um grupo de homens na sua maioria seronegativos que mantinham sobretudo práticas sexuais não de risco apesar de consumirem drogas e um grupo de homens que sentia não ter controlo sobre as suas práticas de risco quando estava sob o efeito dessas substâncias.

Embora os números indiquem que o “chemsex” é ainda minoritário entre os homens gay, está associado a significativos impactos na saúde. Outro relatório recente de Londres, refere que os casos britânicos de infeção intestinal por Shigella aumentaram em 8 vezes desde 2005, maioritariamente entre os homens gay e concluiu que um terço de um grupo de 42 homens gay recentemente diagnosticados com o vírus reportaram consumir drogas por via injetada e três quartos reportaram consumo recreativo. Quase 60% vivia com VIH e 88% não tinham ouvido falar desta infeção até a contraírem.

A shigella pode causar diarreia grave e 30% das pessoas diagnosticadas tinha dado entrada na urgência hospitalar devido aos sintomas. Quatro pessoas foram internadas. A shigella pode ser tratada com antibióticos.

Diagnósticos de infeção pelo VIH em homens gay franceses sobem 14% sobretudo devido ao maior rastreio

Dados recentes de França indicam que 2 600 homens gay foram diagnosticados com infeção pelo VIH em 2012. Este aumento de 14% no ano anterior é superior à taxa de aumento de diagnósticos a longo prazo que tem vindo a situar-se em 3% ao ano, desde 2003.

Os diagnósticos não têm aumentado entre pessoas heterossexuais; foram diagnosticados 3 500 casos de infeção pelo VIH em pessoas heterossexuais em 2012, metade destes em pessoas nascidas na África subsariana.

Embora a atual transmissão entre homens gay seja uma realidade, uma grande parte do aumento dos diagnósticos deve-se a um aumento do número de rastreios, afirmou a autoridade de saúde pública. Uma análise à incidência demonstrou que 47% dos homens gay foram diagnosticados alguns meses após contraírem a infeção em 2012 e 42% em 2011 – um sinal de frequência no rastreio. Estima-se que em França 29% das pessoas a viver com VIH sem estarem diagnosticadas tenham contraído a infeção no último ano.

Um outro estudo estima que em França 83 000 pessoas contraíram a infeção entre o ano 2000 e 2010 e que 29 000 dessas (35%) continuam por diagnosticar. Estima-se que quase 3% dos homens gay, 0,6% das pessoas que usam drogas injetáveis, 0,4% heterossexuais de origem não-francesa e 0,03% dos heterossexuais franceses vivem com VIH.

Carga viral genital: indetetável em mulheres sob tratamento, pode variar de hora em hora entre os homens

Uma questão por solucionar na prevenção do VIH prende-se com qual o nível de carga viral nos fluidos genitais que indica infecciosidade e se a carga viral detetável mas baixa nos fluidos genitais pode ser indicador de transmissão.

Dois estudos recentes vieram contribuir para a complexidade dos dados nesta área. Estudos anteriores sugeriram que a carga viral nas secreções genitais das mulheres pode ter uma maior probabilidade de se manter detetável, mesmo que o VIH seja indetetável na corrente sanguínea, algo que com os homens não é tão provável. Um estudo nos E.U.A. concluiu o contrário: num estudo com 20 mulheres não grávidas e em pré-menopausa sob uma terapêutica concreta (tenofovir, emtricitabina e atazanavir potenciado: Truvada® e Reyataz® com Norvir®) enquanto a carga viral acima de 50 cópias/ml se media em 10,6% em 123 amostras sanguíneas, esta não estava detetável em nenhuma das amostras de fluido cérvico-vaginal.

Os investigadores usaram um teste sensível que conseguia detetar níveis muito inferiores de material genético de VIH e enquanto detetaram o vírus em 59% das amostras sanguíneas este só foi encontrado em 16% das amostras vaginais.

Um outro estudo com homens obteve resultados bastante diferentes. Neste, cientistas franceses concluíram que o VIH estava detetável em 7,5% das amostras de esperma de homens sem VIH detetável no sangue. A média de carga viral no sémen era de 705 cópias/ml e superior a 1000 cópias/ml em 3,6% das amostras.

Já existiam diferenças significativas na probabilidade de se detetar a infeção pelo VIH no esperma de acordo com a terapêutica que se tomava. Entre homens sob terapêutica à base de inibidores da protéase, o VIH era detetável em 29% das amostras comparado com 7,7% em regimes baseados noutras classes de medicamentos. Alguns homens conseguiram disponibilizar duas amostras de sémen em uma hora. Em 9% destes pares de amostras foi possível detetar o vírus numa (média de carga viral de 918 cópias/ml) mas não na outra.

Os autores apontam para uma probabilidade de transmissão de 0,03% (uma transmissão em 3 333 práticas sexuais) num homem com uma carga viral no esperma de 1 000 cópias/ml, embora o recente estudo PARTNER não tenha encontrado transmissões da infeção de pessoas seropositivas sob terapêutica antirretroviral em 44 000 episódios de sexo anal e vaginal.

Programa de redução de riscos em Taiwan reduz em 80% a infeção pelo VIH entre pessoas que usam drogas

A implementação de um abrangente programa de redução de riscos conseguiu conter a epidemia de VIH entre pessoas que utilizam drogas por via injetada em Taiwan.

Em 2004, estimava-se que a incidência de VIH entre reclusos com historial de consumo de drogas era de 6,44%. Esta subiu para 18% em 2005. A introdução de um programa de redução de riscos de larga escala foi acompanhada por uma forte queda da incidência. Em 2007 tinha descido para 2%, sendo apenas de 0,27% em 2010.

A carga viral da comunidade diminuiu entre reclusos, de 93 000 cópias/ml em 2006 para 77 710 cópias em 2010. A proporção de pessoas com carga viral abaixo de 1 000 cópias/ml subiu de 21% em 2006 para 40% em 2010.

A taxa de incidência anual entre ex-reclusos que estavam sob terapêutica de substituição opiácea era de 0,165% comparada com os 1,33% anuais entre ex-reclusos que não estavam sob esta terapêutica. Após se terem controlado os hipotéticos fatores de confusão, os investigadores concluíram que os programas de substituição opiácea reduziam o risco de infeção pelo VIH em 80% e que a incidência da infeção entre utilizadores frequentes dos programas de troca de seringas era nula. Isto é comparável a uma taxa de incidência de 0,5% entre pessoas que usam drogas por via injetada que não recorriam a este serviço.

A prevalência total de VIH entre pessoas que consomem drogas por via injetada em Taiwan aumentou substancialmente entre 2004 e 2006. Este aumento veio a diminuir entre 2007 e 2009 e caiu ligeiramente em 2010.

Ruanda reduz incidência em 90% após garantir tratamento universal

As elevadas taxas de tratamento antirretroviral num país africano, o Ruanda, resultou numa redução para metade nos diagnósticos de infeção pelo VIH e numa queda de 90% na incidência anual, ouviu-se no workshop Treatment as Prevention – 2014 em Vancouver no passado mês.

Estima-se que no Ruanda, até este ano, 93% das pessoas diagnosticadas com a infeção pelo VIH e com contagem de células CD4 inferiores a 350 células/mm3 estejam sob terapêutica antirretroviral (TARV), 59% de todas as pessoas diagnosticadas com a infeção e cerca de 40% de todas as pessoas com VIH, diagnosticadas e não diagnosticadas. A média de contagem de células CD4 no momento do diagnóstico é agora de 300/mm3.

A cobertura do tratamento antirretroviral não é ainda uniforme, com alguns centros reportando 80% da cobertura de todas as pessoas diagnosticadas e outros apenas 20%; uma área particularmente difícil são os bairros degradados nos subúrbios da capital, Kigali.

Cerca de 37 000 pessoas tiveram resultados reativos no rastreio do VIH em 2007: em 2011 os diagnósticos tinham descido para 23 000 e no ano passado desceram para 13 000. Isto apesar do número de testes do VIH ter aumentado e seria mais drástico se se refletisse na real incidência: a incidência anual do VIH reduziu em quase dez vezes, de 0,25% anuais em 2004 para 0,03% em 2012.

Outras notícias recentes

Disponibilizar o tratamento a grupos mais vulneráveis pode reduzir mais depressa a infeção

O número de pessoas que uma pessoa com VIH infeta ao longo da vida pode variar em cinco ordens de grandeza, segundo se ouviu no workshop Treatment as Prevention – 2014 no passado mês. Este valor, a que se chama número reprodutivo ou R0, determina se uma epidemia aumenta ou diminuiu: se for superior a 1, a epidemia irá aumentar. Uma análise detalhada da epidemia de uma província do Vietname, na qual a infeção pelo VIH é transmitida de modo uniforme nos grupos em situação de maior vulnerabilidade (mulheres trabalhadoras do sexo, pessoas que usam drogas por via injetada e homens gay) bem como em mulheres que geralmente contraem a infeção através dos seus parceiros que são clientes de trabalhadoras do sexo. O R0 em diferentes grupos populacionais varia de 99 entre trabalhadores do sexo que também consomem drogas por via injetada a 0,06 em clientes de trabalhadores do sexo. Concluiu-se que se o fornecimento de tratamento antirretroviral era limitado, a estratégia de tratamento como prevenção mais eficaz seria a de dar preferência a pessoas que usam drogas injetáveis visto estarem associadas à maior parte dos grupos mais vulneráveis.

Podemos disponibilizar testes de carga viral em locais informais de prestação de cuidados de saúde nos países com menos recursos?

Nos próximos dois anos pode tornar-se possível a disponibilização de testes de carga viral rápidos e não baseados em laboratórios em países com menos recursos, com um custo ligeiramente superior ao teste de contagem de células CD4, informação dada durante o workshop Treatment as Prevention – 2014. Com mais pessoas a serem tratadas precocemente, mesmo em países com menos recursos, é cada vez mais importante saber se o tratamento está a suprimir o vírus. Os custos de produção de teste rápidos de carga viral são atualmente 67% superiores aos dos testes de laboratório por não poderem usar componentes descartáveis, como grandes volumes de reagentes. O preço dos testes de carga viral atualmente cobrado nos países africanos incluindo, todo o equipamento, é em média 25 dólares americanos por teste laboratorial e seria de pelo menos 33 dólares americanos por testes rápidos, mas podia ser reduzido para 12 dólares americanos por teste se as amostras fossem agrupadas. Este valor não é muito maior que o custo por teste de contagem CD4 – cerca de 7,50 USD.

Testes anuais de VIH em grupos mais vulneráveis podem ter grande impacto na epidemia do Reino Unido

Um programa de rastreio dirigido a grupos em situação de maior vulnerabilidade que foi combinado com um rastreio único a outros adultos, iria prevenir entre 4 a 15% de futuras infeções pelo VIH no Reino Unido, concluiu um estudo. O modelo previu que sem o aumento do rastreio de VIH, a incidência anual no Reino Unido permaneceria inalterada com cerca de 3 500 infeções por ano. Se o rastreio anual a grupos em situação de maior vulnerabilidade fosse instituído com um rastreio único a nível nacional para a população geral, conseguiria prevenir até 23% de futuras infeções. Existiriam 15 000 novos diagnósticos de infeção pelo VIH no primeiro ano, tendo em 2013 existido 6 100 diagnósticos. Este tipo de abordagem, direcionada a determinados públicos e com testes únicos para a restante população, iria proporcionar 80% dos benefícios de um rastreio universal de VIH para toda a população, mas com apenas 14% dos custos ao longo de dez anos.