Teste em casa

Os resultados de um estudo de modelagem matemática sugerem que se as pessoas substituírem o teste do VIH realizado em clínicas por testes com menor sensibilidade feitos em casa, a prevalência e incidência da infeção pelo VIH pode aumentar.

Como comprovado por um estudo recente que compara diferentes testes do VIH, os testes laboratoriais de quarta geração usados em clínicas detetam quase 100% das infeções e têm períodos janela curtos. Contudo, os testes OraQuick, aprovados para o rastreio domiciliar nos Estados Unidos da América, são menos precisos quando utilizados com amostra de fluido oral – falha a deteção de sensivelmente uma em cada dez infeções e tem um período janela mais longo (até doze semanas).

A modelagem comparou os resultados caso as pessoas deixassem de recorrer às clínicas e optassem por fazer o teste em casa com o OraQuick. Os resultados poderiam não se aplicar se estivesse disponível um teste doméstico com maior sensibilidade. Também não se aplicaria caso a amostra recolhida em casa fosse usada em combinação com um teste mais sensível – tal como é o caso do esquema de testes por correio utilizado pelo Terrence Higgins Trust no Reino Unido, que utiliza um teste com um período janela de quatro semanas. Um outro projeto de rastreio doméstico no Reino Unido, o Dean Street at Home, oferece um teste de punção digital com um período janela de quatro semanas ou um teste de fluido oral com um período janela de catorze semanas.

O estudo concluiu que o maior período janela do OraQuick pode significar que pessoas com uma infeção pelo VIH recente não são diagnosticadas.

Tal será particularmente provável se uma pessoa que já faz o rastreio a cada seis meses deixar de frequentar uma clínica e passar a fazer o teste em casa. Se essa pessoa estiver infetada pelo VIH, é altamente provável que tenha uma infeção recente – que pode não ser detetada.

Pelo contrário, se o teste doméstico for usado por pessoas que fazem o rastreio com menos frequência (por exemplo, menos de uma vez por ano) ou se nunca o fizeram antes, é mais provável que estejam infetadas há mais tempo. Os autotestes conseguem detetar a maior parte destas infeções.

Além disso, se o teste feito em casa levar a que as pessoas façam o rastreio com mais frequência ou a evitar práticas sexuais desprotegidas com pessoas de estatuto serológico diferente, é possível que tal ajude a reduzir a prevalência.

Comentário: O autoteste (também chamado por teste doméstico) será legalizado no Reino Unido e em França este ano. Este estudo salienta a importância das especificações técnicas dos testes usados e também a frequência com que as pessoas fazem o rastreio. De momento não se sabe quem fará o teste doméstico e se o seu uso será mais comum ou se substituirá outras formas de rastreio do VIH e IST. Embora se possa esperar que o teste doméstico ajude a reduzir o número de pessoas com infeção pelo VIH por diagnosticar e conduza a menos infeções, este modelo demonstra que pode ter um efeito negativo em algumas circunstâncias.

Identificados fatores de risco para o LGV

Um estudo de caso controlado publicado este mês traz alguma luz aos fatores de risco para o linfogranuloma venéreo (LGV), uma infeção bacteriana sexualmente transmissível causada por estirpes da clamídia. Os seus sintomas podem ser extremamente desagradáveis mas os tratamentos com antibiótico são eficazes.

Na passada década têm sido relatados surtos de LGV na Holanda, Reino Unido, Espanha, França, Alemanha e outros países. Muitas das pessoas que contraíram a infeção são homens gay seropositivos para o VIH.

O atual estudo comparou homens gay com LGV (casos) a homens gay que frequentavam clínicas de saúde sexual e que não tinham LGV (controlos). O estudo concluiu que o principal fator de risco para a infeção com LGV era o sexo anal recetivo e sem proteção. A infeção está também associada a sexo com pessoa desconhecidas, ao consumo das drogas GHB/GBL e fisting.

Os investigadores acreditam que numa situação de sexo em grupo, a infeção pode ser transmitida de um reto para o outro através da mão ou do pénis de um homem que não tem necessariamente de estar infetado com LGV.

Comentário: A informação disponibilizada sobre LGV e sintomas aos homens gay é reduzida. A mensagem chave a respeito da prevenção é a de que os preservativos protegem contra o LGV; para além disso, é necessária precaução em contextos de sexo em grupo. As clínicas de saúde sexual devem identificar os homens em situações de maior vulnerabilidade, encorajá-los a fazer o teste regularmente, disponibilizando tratamento, acompanhamento e oferecendo apoio comportamental.

Saúde mental dos homens gay

Uma investigação qualitativa em Amsterdão explorou as questões por trás de uma fraca saúde mental nos homens gay – vários estudos concluíram que os homens gay têm taxas mais elevadas de distúrbios de humor, problemas de ansiedade e pensamentos suicidas se comparados com os homens heterossexuais.

Os investigadores concluíram que, embora a maioria tivesse crescido num ambiente que aceitava a igualdade legal e social das pessoas homossexuais, estavam conscientes de que a homossexualidade não era gewoon (um termo holandês para normal, usual ou habitual). Na adolescência não temiam a rejeição direta mas sentiam ansiedade por serem diferentes e não estarem ao nível das expectativas da família.

Alguns dos respondedores consideraram difícil formar e manter relacionamentos sexuais de longa duração. Alguns atribuíram esta dificuldade ao facto de não terem adquirido experiência em namoros quando eram mais jovens, enquanto os investigadores apontaram também para a forma como os homens interagem uns com os outros. Descreveram os participantes como estando “às compras” do homem ideal, perdendo interesse quando se torna claro que o parceiro não é perfeito. A experiência de alguns homens no meio gay diminui a autoestima.

“Os comportamentos e histórias de muitos dos respondedores testemunharam as fortes práticas de autorregulação enquanto se esforçavam para atingir e manter os ideias associados a gewoon e à masculinidade heteronormativa”, afirmaram os investigadores.

Comentário: O estudo salienta a persistência de uma fraca saúde mental nos homens gay, mesmo numa sociedade onde a igualdade legal e social é avançada. É provável que existam ligações entre problemas de saúde mental e dificuldades na negociação de práticas de sexo seguro, comportamentos sexuais compulsivos e consumo de drogas.

Desgaste na cascata do tratamento

Dados relativos a um período de quinze anos demonstram que se estão a perder doentes em cada uma das etapas da “cascata” do tratamento para a infeção pelo VIH na British Columbia, no Canadá. Embora as conclusões demonstrem que a situação vem a melhorar desde 1996, mantem-se um atrito significativo – em 2011, apenas 35% das pessoas seropositivas para o VIH tinham carga viral indetetável.

Os esforços para reduzir a taxa de infeções não diagnosticadas e melhorar a ligação com os cuidados de saúde são fatores chave na estratégia de maximizar os benefícios de saúde a nível individual e público no tratamento do VIH.

Ao longo dos quinze anos do estudo, a proporção de pessoas a viver com VIH e que estavam diagnosticadas aumentou de 51 para 71%. Mas nem todos foram encaminhados para tratamento e cerca de 20% não aderiram ou não conseguiram aderir ao mesmo. As melhorias mais fortes observadas durante o estudo estavam relacionadas com a supressão viral, que aumentou de 5% entre as pessoas sob tratamento em 1995 para 78% em 2011.

Comentário: A British Columbia é apontada frequentemente por manter o potencial de uma abordagem de “procura, teste e tratamento”. Ao contrário de outras províncias canadianas, o tratamento e cuidados de saúde para a infeção pelo VIH são gratuitos, havendo relativamente poucas barreiras financeiras no acesso ao tratamento. Mas embora estes dados demonstrem que a infeção pelo VIH não diagnosticada possa reduzir ao longo do tempo, indicam também quão difícil é encaminhar as pessoas para tratamento e mantê-las no sistema de saúde ao longo do tempo. É necessária uma melhor compreensão sobre as barreiras na retenção do tratamento, as características dos indivíduos que abandonam os cuidados de saúde e as intervenções para melhorar a retenção.

Os limites da responsabilidade individual

Os investigadores canadianos que convidaram homens gay seropositivos e seronegativos para o VIH para uma discussão sobre o estigma anti-VIH e comportamentos sexuais de risco concluíram que as ideias de “responsabilidade individual” e o “cuidar da saúde” falham tal como os modelos para lidar com a maior vulnerabilidade da infeção pelo VIH na comunidade gay.

Os investigadores afirmam que a ideia de que “todos são responsáveis pela sua própria saúde” cria muitas vezes uma situação em que, num encontro sexual, a responsabilidade é passada para o outro. Embora alguns respondedores usassem a metáfora “são precisos dois para dançar o tango”, não mencionaram a discussão ou partilha de decisões com os parceiros sexuais – a metáfora parecia sugerir que ambos os parceiros eram responsáveis individualmente, na qualidade de pessoas isoladas e com autodeterminação.

Além disso, a ideia de responsabilidade individual parecia estar associada à exclusão de certas pessoas, tais como homens seropositivos para o VIH. Os investigadores afirmam que estas estratégias podem manter as pessoas livres da infeção pelo VIH e outras IST mas, paradoxalmente, aumentar o risco e reforçar o estigma dentro da comunidade gay.

Os investigadores apelam ao reavivar de uma abordagem do VIH mais centrada na comunidade, mútua e baseada no diálogo, que não deixe os indivíduos sozinhos para lidar com o VIH, ou incapazes de o fazer, e que envolva honestidade e diálogo respeitoso sobre os comportamentos de risco e o VIH, quer entre parceiros, quer na comunidade.

Conferência de imprensa online: Declaração comunitária de consenso sobre o uso de tratamento antirretroviral como prevenção da transmissão da infeção pelo VIH

No dia 27 de fevereiro de 2014, quinta-feira, a NAM e o EATG, grupo comunitário europeu de pessoas que vivem com VIH, lançam uma declaração de consenso e de apoio por parte da comunidade de pessoas seropositivas para o VIH, sobre o tratamento como prevenção da transmissão da infeção pelo VIH.

A declaração de consenso foi desenvolvida através de uma consulta aberta online, uma reunião comunitária em setembro de 2013 e consultas a pessoas chave na comunidade de pessoas infetadas pelo VIH.

Está convidado para uma conferência de imprensa online sobre a declaração, na quinta-feira, 27 de fevereiro, das 2 – 2h30 GMT (3 – 3h30pm CET, 8 – 8h30 am CST).

Pode inscrever-se na conferência de imprensa online ou obter mais informações no blog da NAM.

Serão enviados lembretes no dia anterior à conferência de imprensa com instruções sobre como fazer o login através do seu computador. O briefing combinará diapositivos online com uma apresentação áudio ao vivo e a oportunidade de colocar questões em tempo real. O briefing decorrerá em inglês.

Outras notícias recentes

Pessoas de etnia africana têm baixos níveis de envolvimento e de retenção nos cuidados de saúde para a infeção pelo VIH nos E.U.A.

É necessária a intensificação dos esforços para melhorar o envolvimento das pessoas de etnia africana na continuidade dos cuidados de saúde para o VIH nos Estados Unidos da América, de acordo com os dados publicados na edição de sete de fevereiro do Morbidity and Mortality Weekly Report.

Intervenções de rastreio do VIH devem desafiar os receios de um resultado positivo

Entre os homens gay e bissexuais de Glasgow, a ausência de um teste do VIH recente está associada a idades inferiores a 25 anos, superiores a 45 anos, ao receio de receber um resultado positivo e à ideia de que o teste do VIH não é comum entre os amigos gay. As intervenções de promoção do rastreio do VIH devem abordar sempre estas questões, sugeriram os investigadores na edição de março da AIDS Care.