Os sintomas podem predizer o aumento da carga viral em doentes sob terapêutica anti-retroviral

Michael Carter
Published: 17 August 2010

Os sintomas físicos e psicológicos podem predizer o aumento da carga viral em doentes sob terapêutica anti-retroviral (TARc) com carga viral indetectável, segundo reportam investigadores londrinos na 15ª edição do Journal of Acquired Immune Deficiency Syndromes.

Os sintomas individuais, especialmente associados a um recrudescimento da carga viral incluem preocupação, tristeza e diarreia.

 

“O mecanismo mais provável que relaciona os sintomas com a subida da carga viral é a não adesão à TARc (combinação anti-retroviral), que inclui a interrupção ou a descontinuação do tratamento”, comentam os investigadores. Acrescentam: “é possível que a avaliação dos sintomas recolha informação adicional sobre a não adesão, que não é detectável no inquérito directo sobre as doses não tomadas de terapêutica.”.

Investigações anteriores demonstraram que a depressão pode antever a progressão de doença em pessoas que vivem com VIH, contudo, os investigadores do Royal Free Hospital, em Londres, pretendiam observar se os sintomas físicos e psicológicos poderiam antever o aumento da carga viral em doentes sob TARc.

Assim, desenharam um estudo que envolveu 188 doentes, todos sob TARc e com carga viral indetectável.

Em 2005, estes doentes preencheram um questionário onde lhes era perguntado se tinham tido algum dos 32 sintomas físicos e psicológicos listados, na semana anterior. Depois, foram seguidos para se observar se estes sintomas estavam associados a mudanças na carga viral.

Os sintomas foram agrupados em seis categorias:

·  Queixas físicas. Incluem sintomas como dor, falta de energia, náusea e perda de peso.

·  Queixas psicológicas. Este item incluiu sintomas tais como preocupação, ansiedade, dificuldade em dormir ou de concentração.

·  Mal-estar geral. Uma avaliação constituída por dez sintomas incluindo dor, perda de apetite, cansaço, boca seca, tristeza, nervosismo e irritabilidade.

·  Número total de sintomas. Outros sintomas, tais como diarreia, foram acrescentados a esta avaliação.

·  Ansiedade e depressão.

·  Pensamentos suicidas.

Os sintomas das três primeiras categorias eram pontuados de acordo com a intensidade da perturbação que causavam (0,8 “nenhuma”) até 4 (“muita”). A pontuação zero era atribuída caso o sintoma não se manifestasse.

No geral, os sintomas causaram uma perturbação moderada. A pontuação média do desconforto físico foi de 0,7; a pontuação média de desconforto psicológico foi de 1,2 e o mal-estar geral obteve uma pontuação de 1,0. Contudo, houve uma elevada prevalência de sintomas. Os sintomas mais comuns reportados pelos doentes foram cansaço (25%), preocupação (25%), problemas de sono (22%), falta de energia (21%) e irritabilidade (20%).

Quase metade (48%) dos doentes reportou depressão e um quinto afirmou ter pensado em suicídio na semana anterior.

Durante uma média de 2,2 anos de acompanhamento, 22 doentes tiveram um aumento de carga viral acima das 200 cópias/ml, sendo que 46 doentes apresentaram valores de carga viral acima das 50 cópias/ml. Em cada caso, sete doentes tinham feito uma pausa na toma da terapêutica.

Uma pontuação mais elevada dos sintomas físicos (1 valor ou acima) foi associada com o aumento do risco de oscilação da carga viral acima das 200 cópias/ml (p = 0,05) e das 50 cópias/ml (p = 0,20). Contudo, após ajustar os relatos de fraca adesão, a associação com um aumento acima das 200 cópias/ml teve um significado limítrofe (p = 0,072).

De modo semelhante, em comparação com os doentes com os resultados mais baixos de dor psicológica, aqueles com resultados superiores tinham maior probabilidade de experimentar oscilação na carga viral (200 cópias/ml = p = 0,034); 50 cópias/ml = p = 0,023). Mas, após o ajuste da adesão, estas associações foram significativamente reduzidas.

Um padrão similar foi observado quando o impacto geral foi medido.

Os investigadores exploraram também a associação entre o número reportado de sintomas e o aumento da carga viral. Mesmo após o ajuste da adesão, quanto maior o número de sintomas, mais probabilidade o doente tinha de apresentar carga viral acima das 200 cópias/ml (p = 0,042) e 50 cópias/ml (p = 0,019).

A ansiedade e depressão foram significativamente associadas com a oscilação da carga viral após ter em conta a adesão (200 cópias/ml, p = 0,011); 50 cópias/ml, p = 0,043). Após o controlo da adesão, os investigadores concluíram que havia também uma forte relação entre a ansiedade e a depressão e duas medições consecutivas da carga viral acima das 50 cópias/ml (p = 0,04).

 “Entre...os doentes que vivem com VIH sob terapêutica anti-retroviral com êxito, os sintomas físicos e psicológicos eram comuns e representavam os indicativos mais fortes de oscilação viral”, escrevem os investigadores.

Observam que é o primeiro estudo que demonstra uma associação entre sintomas físicos e aumento da carga viral. Sugerem que “os sintomas físicos podem resultar em ansiedade e depressão ou serem manifestações de perturbação psicológica”.

Os investigadores acreditam que as suas conclusões podem ter implicações no tipo de cuidados disponibilizados aos doentes sob TARc. Declaram que uma avaliação sobre “o risco de falência virológica baseado apenas em resultados de testes laboratoriais, historial do tratamento e adesão pode não estar a abranger uma importante dimensão do problema – a informação sob a perspectiva do doente”.

Sugerem que uma simples avaliação dos sintomas poderá identificar doentes em risco de falência terapêutica, “não apenas uma oportunidade de trabalhar a adesão, mas também pode providenciar intervenções médicas e psicológicas apropriadas para tratar sintomas físicos e de desconforto psicológico”.

Referência

Lampe FC et al. Physical and psychological symptoms and risk of virologic rebound among patients with virologic suppression on antiretroviral therapy. J Acuir Immune Defic Syndr 54: 500-505, 2010.