Revisão sistemática conclui que a transmissão do VIH no sexo oral é baixa, mas possível

Roger Pebody
Published: 05 January 2009

Num trabalho publicado na edição de Dezembro de 2008 da revista International Journal of Epidemiology investigadores do Imperial College e do London School of Hygiene and Tropical Medicine concluíram que o risco de transmissão do VIH durante a prática de sexo oral é muito baixo mas existente. Os investigadores tentaram identificar todos os estudos relevantes sobre o tema, mas descobriram que devido à falta de dados, seria inapropriado fazer estimativas sumárias sob os riscos de transmissão através do sexo oral.

Os autores conduziram uma revisão sistemática (uma análise de todas as investigações médicas sobre um assunto que fosse de encontro aos requisitos pré-definidos). Estudos de coorte e outros estudos observacionais foram incluídos, enquanto os casos baseados em relatos (estudo de casos) e comentários/revisões foram excluídos.

Os estudos revistos incluíram dados referentes a casais heterossexuais, homossexuais e lésbicos, abrangendo a prática dos dois tipos de sexo oral (fellatio e cunnilingus).

Apenas dez estudos foram considerados relevantes para serem incluídos na revisão. Todos eram provenientes da Europa ou da América do Norte e apenas três tiveram os seus dados recolhidos após a introdução generalizada da terapêutica combinada.

Os investigadores comentaram sobre uma série de desafios com que se depararam ao pesquisar sobre o tema.

**Poucas pessoas afirmaram ter apenas sexo oral como único comportamento de risco.

**Se uma pessoa pratica sexo sem protecção, seja oral, vaginal ou anal e descobre que está infectada pelo VIH, automaticamente atribui a infecção ao comportamento de risco mais elevado.

**Os dados sobre os indivíduos que auto-reportam o seu comportamento sexual são difíceis de recolher com precisão, especialmente quando estes preferem dar respostas socialmente mais aceitáveis (ou seja, não revelando a prática de sexo vaginal ou anal sem protecção).

**Com frequência os estudos agrupam todas as práticas de sexo oral em conjunto sem distinguir se este foi receptivo ou insertivo, se ocorreu ejaculação na boca, etc.

**Estudos efectuados com casais serodiscordantes (quando uma pessoa é seropositiva para o VIH e o outra não) são susceptíveis de incluir pessoas com carga viral controlada, o que significa que são muito menos infecciosas do que durante o período da infecção primária.

**Os estudos que identificam haver risco através do sexo oral são mais passíveis de ser publicados e divulgados do que aqueles que não identificam risco devido ao interesse e à relativa novidade de tal constatação.

Estimativas do risco de transmissão da infecção por parceiro

Cinco dos estudos forneceram estimativas sobre o risco representado pela prática de sexo oral durante o relacionamento de um casal serodiscordante.

Três destes estudos estimaram que este risco é zero - nenhuma transmissão foi notificada.

O quarto estudo apresentou o valor de 1% para a prática de sexo oral receptivo (felação).

O quinto estudo, feito na Suécia, estimou um valor muito mais elevado de 20%. Contudo, a amostra era muito pequena (dez casais que relataram sexo oral como o único comportamento de risco) e os autores comentaram que a estimativa pode ser elevada devido à sub-notificação de actividades de maior risco, ou simplesmente devido ao acaso. Além disto, este é o único estudo revisto que identificou uma transmissão de infecção pelo VIH entre heterossexuais que pode ser atribuída ao sexo oral.

Estimativas de incidência por parceiro, por 100 pessoas/ano

Três dos estudos citados na última secção também relataram estimativas que calculavam o risco de transmissão de múltiplos actos de sexo oral mas de acordo com a duração do relacionamento. Em cada um dos casos, a estimativa foi zero.

Estimativas do risco de transmissão por cada participante no estudo

Outros três estudos acompanharam pessoas com estatuto serológico negativo para o VIH que reportaram o sexo oral desprotegido como único comportamento de risco. No entanto, os autores observam que estes estudos têm limitações metodológicas complementares: o número de parceiros sexuais e o seu estatuto serológico para o VIH é desconhecido. Isto implica que as conclusões não podem ser transferidas para outras populações em que o número de parceiros e a prevalência do VIH são diferentes.

Dois estudos americanos estimaram o risco em 0% e 0,4% respectivamente e o mais recente estudo canadiano, a coorte Omega, forneceu um valor de 0,5%. Em cada estudo participaram homossexuais e bissexuais.

Estimativas do risco de transmissão por acto

Três estudos tentaram calcular o risco de transmissão do VIH durante uma única “performance” de sexo oral.

Dois destes estudos forneceram uma estimativa de zero - nenhuma transmissão foi notificada.

O terceiro estudo, é o estudo Vittinghoff, citado frequentemente, que utilizou dados de homossexuais ou bissexuais norte-americanos que relataram vários comportamentos de risco. Modelos matemáticos foram aplicados para estimar o risco das diferentes práticas sexuais e a taxa de risco de transmissão do VIH referente ao sexo oral desprotegido receptivo com ejaculação foi calculada em 0,04%. Contudo, os autores observam que esta estimativa é baseada na prática de sexo com homens, infectados ou não - se os investigadores tivessem sido capazes de excluir as relações sexuais com parceiros seronegativos para o VIH, o valor teria sido superior.

Conclusões

Os autores referem a escassez de dados disponíveis para esta revisão. Estimativas fiáveis seriam importantes para os técnicos de saúde que trabalham na área da prevenção e para os médicos que fazem aconselhamento sobre os riscos de transmissão. Para além disto, devido ao baixo risco de transmissão, "estudos maiores e mais dispendiosos" seriam necessários para fornecer estimativas mais precisas.

Comentam ainda: “O facto de continuar a ser difícil identificar participantes infectados devido unicamente a este tipo de exposição pode sugerir que a contribuição do sexo oral para a transmissão do VIH permanece baixa.

Ainda assim, recomendam que "as pessoas devem proteger-se e usar o preservativo ou dental dams (quadrados de látex utilizados para a prática de sexo oral) para minimizar este pequeno risco”.

Referência:

Baggaley RF et al. Systematic review of orogenital HIV-1 transmission probabilities. International Journal of Epidemiology 37 : 1255-65, 2008.