Níveis elevados de bilirrubina podem ser mais frequentes em adolescentes a fazer atazanavir

Michael Carter
Published: 15 February 2011

De acordo com um estudo espanhol publicado no Journal of Adolescent Health, a presença de níveis elevados de bilirrubina pode ser mais frequente em adolescentes a tomar o inibidor da protease atazanavir (Reyataz®) do que em adultos.

Esta hiperbilirrubinémia pode manifestar-se pelo aparecimento de sinais como a pele e escleróticas (olhos) amareladas. Não se trata de uma condição perigosa, mas o seu impacto na aparência deve fazer com que seja levada a sério, em particular quando ocorre nos adolescentes.

“A aparência física tem um peso importante na auto-estima de um adolescente, de modo que um sintoma como a icterícia pode acarretar uma sensação de mal-estar consigo próprio e conduzir a problemas de adaptação social devido às diferenças físicas visíveis”.

O atazanavir é amplamente usado no tratamento de adultos seropositivos para o VIH. A sua dose padrão é de 300 mg, tomada com 100 mg do fármaco potenciador ritonavir (Norvir®). O uso do atazanavir em doentes tanto com experiência, como sem experiência de tratamentos, tem tido bons resultados.

Entretanto, em 2010, as autoridades europeias aprovaram a sua utilização em crianças e adolescentes. Porém, os dados sobre o seu uso nesta população são ainda escassos. Entre 2002 e 2008, um grupo de investigação de Madrid, levou a cabo um estudo sobre as concentrações plasmáticas dos medicamentos ARVs em crianças e adolescentes. Como parte da sua investigação, monitorizaram as concentrações no sangue de atazanavir e bilirrubina.

O estudo incluiu 129 doentes, cinco dos quais se encontravam a tomar atazanavir potenciado com ritonavir. Eram todos do sexo feminino e estavam a ser tratados com uma dose de atazanavir/ritonavir de 300/100mg. A sua idade média era de 16 anos. Embora os investigadores afirmem ser “notável” que todos os doentes tratados com atazanavir fossem mulheres, também fazem notar não haver evidência de que o género afecte a resposta ao medicamento.

No decorrer do estudo, foram obtidas 16 amostras de sangue com o objectivo de monitorizar os níveis de atazanavir e bilirrubina. As amostras de sangue foram colhidas em média 13 horas após a administração de atazanavir.

Tal como se esperava, as concentrações de bilirrubina foram significativamente mais elevadas nos adolescentes a tomar atazanavir do que nos adolescentes a fazer outros medicamentos ARVs (2 mg/dl vs. 0.47 mg/dl, p = 0.001).

Também se verificaram variações nos níveis de bilirrubina entre os cinco adolescentes a tomar atazanavir: o nível médio de bilirrubina era de 1,5 mg/dl nos participantes com uma concentração inferior a 2 000 ng/ml, mas significativamente mais alto no caso dos participantes com concentrações do medicamento superior a este valor (média, 3.1 mg/dl, diferença, p = 0.018).

A análise estatística mostrou haver uma correlação significativa entre as concentrações de bilirrubina e níveis sanguíneos mais altos de atazanavir (p = 0.006).

Contudo, os investigadores notaram que a hiperbilirrubinémia estava associada a icterícia apenas ligeira, sublinhando que nenhum doente interrompeu a toma de atazanavir devido a este efeito secundário.

“Os dados preliminares deste estudo mostram que os adolescentes em regimes com atazanavir apresentam níveis mais elevados de bilirrubina mais frequentemente do que outros doentes”, comentam os investigadores.

Que acreditam que os seus achados podem ter implicações na prestação de cuidados e na monitorização dos jovens que tomam o medicamento: “A medição dos níveis de atazanavir no plasma pode ser útil na monitorização da toxicidade do atazanavir em doentes seleccionados, com bilirrubina não-conjugada elevada ou icterícia”.

Referência

Nso AP et al. HIV-infected adolescents: relationship between atazanavir plasma levels and bilirubin concentrations. Journal of Adolescent Health, 48: 100-02, 2011 (clique aqui para obter o abstract gratuito).