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Em Londres, perdem-se 1 em cada 5 doentes durante o follow-up e não comparecem em nenhum outro serviço de saúde no Reino Unido
Roger Pebody, Thursday, August 28, 2008
De acordo com o estudo apresentado por Sarah Gerver no dia 5 de Agosto, durante a Conferência Internacional SIDA na Cidade do México, o número de doentes, numa clínica de tratamento do VIH muito movimentada em Londres, que não volta às consultas nem para levantar as suas receitas, é comparável às taxas relatadas na África Sub-Sahariana.

Quatro em cada dez doentes desaparecem durante o follow-up e não mudam para outras clínicas no Reino Unido.

O contacto regular com os médicos é importante para permitir o controlo da contagem de células CD4 e da carga viral, para renovação das receitas para o tratamentos do VIH, identificação de outras necessidades relacionadas com a saúde e para a discussão de assuntos sobre a prevenção do VIH. No entanto o fenómeno de “loss to follow-up” (doentes que não comparecem nas clínicas e que não se conseguem contactar) é pouco estudado na Europa e na América do Norte.

No estudo conduzido pela professora Philippa Easterbrook, investigadores do King’s College Hospital in London e da Health Protection Agency examinaram todos os doentes que se dirigiram à clínica de VIH no King’s College Hospital, pelo menos uma vez entre 1995 e 2005. Aqueles que não tinham sido examinados na clínica durante 2006, foram considerados como perdidos no follow-up (PnU).

A informação sobre esses indivíduos foi então comparada com as bases de dados nacionais de doentes a receberem tratamentos para o VIH no Reino Unido (SOPHID e uma base equivalente de dados Escocesa), de modo a identificar as pessoas que tinham transferido os seus cuidados para uma outra clínica de VIH. Os registos de óbito no Reino Unido também foram pesquisados de modo a identificar os óbitos. No entanto, não houve nenhuma tentativa sistemática para contactar os doentes por telefone ou e-mail, porque muitos doentes têm preocupações no que toca à confidencialidade e pedem para não serem contactados.

Durante o período de 10 anos registaram-se 2070, dos quais cerca de 60% eram africanos ou das caraíbas e 30% eram homens gays ou bissexuais.

Um total de 836 pessoas (40%) perdeu-se durante o follow-up. Cerca de metade foram para outras clínicas de VIH, sobrando 432 pessoas que não se dirigiram a mais nenhuma clínica do Reino Unido (referidos como UK-Lost to Follow up). Os que foram identificados como tal eram 52% dos que foram perdidos durante o follow-up, ou seja 21% de todos os doentes.

Nos registos de óbito apenas se encontraram 18 dos doentes considerados como perdidos no seguimento.

Estes 21% de doentes perdidos tendencialmente comparecerem às consultas durante um período de tempo relativamente curto (em média 4 meses), e esse período era ainda mais curto nos doentes que não recebiam tratamento anti-retroviral. Estes doentes são geralmente os mais jovens.

Um terço estava a tomar medicamentos anti-retrovirais e a interrupção de tratamento é uma preocupação particular especial. Observando especificamente os factores associados ao abandono do tratamento, concluiu-se que era mais comum naqueles que não se adaptavam ao tratamento e que tinham dificuldades em aderir. Os números seguintes foram todos calculados por análises multifactoriais. O abandono é quatro vezes mais provável nos doentes que tenham carga viral detectável, comparando com os doentes com a carga viral indetectável (taxa de hipóteses ajustada (AOR): 4,06), e duas vezes mais provável nos doentes com uma contagem de células CD4 inferior a 200 células/mm3, comparando aos que têm uma contagem superior a 350 células/mm3 (AOR: 1,84).

Nos doentes que não estavam sob tratamento, os casos de abandono eram mais comuns nos doentes com contagem de células CD4 abaixo das 200 células/mm3 (AOR: 3,59).

O risco de abandono do seguimento varia muito de acordo com os grupos populacionais. Homens brancos, gays e bissexuais eram menos susceptíveis de serem perdidos no seguimento clínico e formam um grupo de comparação para os seguintes dados. O abandono entre os doentes que estavam em tratamento, era muito mais provável ocorrer em mulheres Africanas heterossexuais (AOR: 2,30). Para os doentes que não estão sob tratamento, era mais provável serem homens africanos heterossexuais (AOR: 4,36) e homens das Caraíbas heterossexuais (AOR: 2,64).

Na amostra estudada havia relativamente poucos utilizadores de drogas injectáveis na população em estudo. Apesar da sua comparecência a consultas ser normalmente baixa, as taxas de abandono não eram particularmente elevadas.

Quando disponíveis, os registos médicos dos doentes que abandonaram o seguimento médico foram revistos para se saber se teria havido alguma informação que pudesse explicar a razão de desaparecimento sem deixar rasto. Os registos disponíveis cobriam quase três quartos dos doentes que foram identificados como perdidos, revelaram a existência de uma potencial razão em 71% desses doentes. Onde a razão foi identificada, foi estabelecido que mais de metade do grupo pode ter deixado o Reino Unido, tendo mencionado planos sobre saírem ou terem reportado dificuldades de imigração. Foi reportado que 1 em cada 10 doentes neste grupo não voltou a ser visto após o diagnóstico inicial, e foi referido que 3% dos doentes se encontrava em negação do seu estado.

No entanto, Sarah Gerver reparou que os estudos deste tipo estão sujeitos a dificuldades metodológicas, em erros no modo como a informação identificativa é registada na base nacional de dados e a falta de dados sobre as pessoas que deixam o Reino Unido. Para além disso, dado o estigma relacionado com a infecção pelo VIH em diversas comunidades, alguns doentes podem ter escolhido registarem-se em clínicas diferentes, com nomes diferentes. Todos estes factores podem significar que os seus dados sobrestimam o número de doentes perdidos no seguimento clínico.

Mas apontou que as taxas de abandono nesta clínica com uma alta proporção de doentes africanos são comparáveis às taxas registadas em algumas clínicas na África Sub-Sahariana, onde 4 em cada 10 doentes abandonam ou é sabe-se que morreram. Sarah Gerver concluiu que as suas descobertas apontam para a necessidade de uma melhor compreensão sobre os comportamentos dos doentes que procuram ajuda em relação à sua saúde e que é necessário desenvolver estratégias para evitar a perda de doentes durante o seguimento clínico.

Os investigadores sugerem algumas mudanças nos procedimentos de modo a diminuir o número de abandonos:

  • Actualização regular, pelo pessoal da clínica, dos detalhes dos contactos;

  • Uma localização mais frequente dos doentes que abandonam o seguimento;

  • Guardar formalmente os dados das transferências dos doentes para outras clínicas;

  • Vigilância e apoio mais intensivos aos doentes nos seus primeiros 6 meses de seguimento, incluindo mais aconselhamento, apoio entre pares e ligação a outros serviços.


Referência:
Gerver S HIV-positive patient retention in the UK: high rate of loss to clinical follow-up among patients from a London clinic. XVII International AIDS Conference, Mexico City, abstract TUAB0205, August 5 2008.

Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA