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Intervenções comportamentais de reforço de competências destinadas à diminuição do risco de infecção pelo VIH relacionada com o consumo de álcool na África do Sul
Gus Cairns, Friday, August 08, 2008
Os resultados de um estudo sul-africano apresentado quarta-feira passada na XVII Conferência Mundial da SIDA, na Cidade do México, sugerem que as pessoas cujo consumo de álcool as coloca perante uma maior risco de infecção pelo VIH podem beneficiar de intervenções de reforço de competências e redução de riscos.

O estudo baseou-se na adaptação bem sucedida às necessidades locais da África do Sul de uma intervenção norte-americana sobre álcool e risco baseada na comunidade. Um estudo anterior da mesma equipa, utilizando uma única sessão de aconselhamento de 60 minutos, produziu um aumento de 25% no uso do preservativo e uma redução de 65% no sexo não-seguro mantida ao longo de 6 meses.

O estudo agora em causa utilizou um workshop de grupo de 3 horas. Os resultados mostraram um decréscimo de 67%, mantido ao longo de 3 meses, no sexo não-seguro, em comparação com um decréscimo de 17% no grupo de controlo. Estes foram os valores registados para os consumidores de menores quantidades de álcool. Para os consumidores mais pesados, porém, o efeito foi menos marcado, produzindo um declínio de apenas 25% no sexo não-seguro, semelhante ao do seu grupo de controlo. Ao fim de seis meses, o efeito da intervenção nos consumidores de menores quantidades de álcool tinha-se, de algum modo, dissipado, embora esses consumidores ainda praticassem menos sexo não-seguro do que no início do estudo. O estudo apresentou uma taxa de retenção de 89%.

No estudo, 353 homens e mulheres foram escolhidos em bares locais e inquéritos de rua, sendo randomizados para receber, num centro da comunidade local, ou um único workshop de três horas sobre uso de álcool, risco de infecção pelo VIH e reforço de competências comportamentais para reduzir o risco, ou uma intervenção controlo de apenas uma hora, que consistia na primeira hora do workshop de três. Esta hora tinha apenas um conteúdo educacional, fornecendo informação sobre a relação entre o consumo de álcool e o sexo não-seguro. O workshop completo acrescentava informação e debate sobre o que despoleta a prática de sexo não-seguro, bem como roleplays, estabelecimento de objectivos e ensino de técnicas para negociar a realização de sexo seguro.

O estudo recrutou 117 homens e 236 mulheres. A idade média era de 34 anos e a duração média do diagnóstico VIH era de 9 anos. Nem todos os participantes eram negros; 23% pertenciam a outras etnias (asiáticos, brancos, etc). A grande maioria encontrava-se desempregada e 18% tinha tido uma infecção de transmissão sexual (ITS) no último ano. O score AUDIT dos participantes também era avaliado. AUDIT significa "Alcohol Use Disorders Identification Test” (Teste de identificação das desordens do consumo de álcool). Trata-se de uma avaliação-padrão do uso de álcool baseada num questionário e acreditada pela OMS.

Setenta e um por cento dos participantes apresentava uma pontuação no AUDIT superior a oito (o máximo é 20), o que indica consumo problemático; a pontuação média foi de 14,5.

No início do estudo, o grupo dos consumidores leves referiu uma média de 3,5 episódios de sexo não-seguro no último mês. O grupo dos consumidores pesados referiu, para o mesmo período, 4 episódios. Ao fim de três meses, os valores tinham caído para 1.2 episódios no caso dos consumidores leves, mas apenas para 3 no caso dos consumidores pesados. No grupo de controlo, em contraste, o número de episódios entre os consumidores leves apenas tinha caído de 4 para 3.5 episódios ao fim de 3 meses.

Também se registaram descidas no envolvimento do álcool na prática de sexo não-seguro. Nos consumidores leves, o número de episódios de sexo não-seguro surgidos no contexto de uma embriaguez desceu de 2.3 para 0.7 por mês no grupo da intervenção, mas de 3 para apenas 2.5 no grupo de controlo.
Uma vez mais, os consumidores pesados beneficiaram menos da intervenção, tendo o mesmo valor descido de 4 para apenas 3 episódios por mês.

O coorte experimental também referiu um aumento de 74% no uso de preservativo, ao fim de 3 meses de seguimento (subida de 43% para 75% de relações sexuais protegidas), bem como uma diminuição do número de parceiros sexuais e um menor número de parceiros encontrados em bares.

Os investigadores sugeriram a implementação de ferramentas de prevenção em estabelecimentos de consumo de álcool na África do Sul, tendo o Professor Leickness Simbayi, da Cape Town University e porta-voz do grupo, referido que a equipa de investigação se encontrava actualmente a testar uma intervenção multi-componentes destinada não apenas aos homens que bebem em locais não licenciados para venda de álcool do tipo dos incluídos no presente estudo, como também aos membros das respectivas redes sociais.

Referência
Kalichman et al. Community-based alcohol-related HIV risk reduction intervention for men and women in Cape Town, South Africa. 17th International AIDS Conference, Mexico City, abstract WEAC0204, 2008.