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O tratamento com abacavir não provoca alterações dos biomarcadores relacionados com enfarte do miocárdio, anuncia um pequeno estudo recente
Michael Carter, Tuesday, December 30, 2008
De acordo com um pequeno estudo conduzido por uma equipa australiana e publicado na edição de 30 de Novembro da revista AIDS, o tratamento com abacavir (Ziagen®) não apresenta um efeito significativo sobre os marcadores biológicos que indicam um risco aumentado de enfarte do miocárdio (ataque cardíaco).

Na edição de 1 de Dezembro de uma outra publicação, a Clinical Infectious Diseases, é avançada uma explicação alternativa para o risco aumentado de doença cardíaca observado nas pessoas tratadas com abacavir, a hiperactivação linfocitária.

Tanto o estudo D:A:D como o estudo SMART descobriram que o tratamento com o ITRN abacavir (que se encontra também nas combinações Kivexa® e Trizivir®) se encontrava associado a um maior risco de ataque cardíaco. O estudo SMART chegava a avançar com uma possível causa para o fenómeno, tendo descoberto que os níveis de dois marcadores de inflamação, a proteína C reactiva (PCR) e a interleuquina-6 (IL6), estavam aumentados nos doentes a receber abacavir.

Ambos os estudos não foram desenhados, porém, de modo a poder determinar-se se o abacavir era directamente responsável pelo risco aumentado de ataque cardíaco ou pelo aumento dos níveis dos marcadores inflamatórios.

Uma explicação alternativa ao facto de as pessoas a fazer abacavir terem mais probabilidade de terem um enfarte do miocárdio pode ser a de que os doentes com risco pré-existente de doença cardíaca apresentarem uma maior probabilidade de serem tratados com abacavir, uma vez que se pensava que este fármaco apresentava poucos efeitos sobre o metabolismo.

Foi neste contexto que um grupo de investigadores australianos concebeu um estudo que lhes permitia monitorizar as alterações, ao longo do tempo, de importantes marcadores metabólicos e inflamatórios, marcadores esses que têm sido associados a um risco aumentado de ataque cardíaco. Para tal, utilizaram amostras de sangue armazenadas, provenientes de um estudo longitudinal sobre os efeitos do tratamento com abacavir na perda de gordura.

O estudo envolveu 15 doentes que nunca tinha feito tratamento ARV anteriormente e que estavam a começar tratamento com abacavir; 13 pessoas em mudança de AZT ou d4T para abacavir; e 13 pessoas com experiência de tratamento com abacavir que mudaram de AZT ou d4T enquanto se mantinham em abacavir.

O follow-up (ou vigilância) médio foi de 25 meses (variando entre 3 e 67) após o início ou mudança de tratamento. Os marcadores inflamatórios e metabólicos avaliados foram:

  • D-dímero;

  • proteína C Reactiva de alta sensibilidade

  • interleuquina-6 (IL6)

  • interleuquina-8 (IL8)

  • factor de necrose tumural alfa (αTNF)

  • proteína quimioatractora dos monócitos

  • factor de crescimento dos hepatócitos

  • adiponectina

  • leptina


Os níveis de alguns destes marcadores decresceram significativamente nos doentes sem experiência anterior de tratamentos que começaram terapêutica ARV com um regime contendo abacavir. Depois de um ano de tratamento, os níveis de D-dímero eram significativamente mais baixos em 3 doentes (p = 0.03), tendo-se registado descidas significativas da IL8 (p = 0.03), do αTNF (p = 0.009) e da proteína quimioatractora dos monocitos (p = 0.006).

Contudo, e tal como no estudo SMART, constatou-se um aumento da IL6; esta subida foi, porém, pequena e não estatisticamente significativa.

Os resultados relativos aos doentes que mudaram do AZT e do d4T foram igualmente encorajadores. Os níveis de quase todos os marcadores ou caíram ligeiramente, ou mantiveram-se estáveis, embora os níveis do αTNF tenham aumentado significativamente (p = 0.04) nos doentes que substituíram um qualquer destes dois fármacos por abacavir. Contudo, os níveis do factor de crescimento dos hepatócitos baixaram de forma significativa (p = 0.05) nos doentes já a tomar abacavir e que interromperam o AZT ou o d4T.

Por fim, os investigadores analisaram os níveis da adiponectina e da leptina. Os níveis da adiponectina desceram significativamente (p = 0.03) no seguimento do início da terapêutica quer com AZT, quer com d4T, estando a extensão deste decréscimo relacionada com o grau de perda de gordura experimentada pelo doente (p = 0.03).

A mudança do tratamento para abacavir não afectou os níveis de adiponectina.

Quanto aos níveis de leptina, eles subiram depois de se mudar de AZT ou d4T para abacavir (p = 0.006).

Nenhum destes resultados foi afectado pelo uso quer de inibidores da protease, quer de ITRNNs.

“Em geral, os marcadores inflamatórios e metabólicos não pioraram com o tratamento com abacavir; além disso, não detectámos um efeito consistente do tratamento com abacavir nas pessoas sem e com experiência de tratamento ARV”, comentam os investigadores.

Que concluem, “estes resultados sugerem que as relações entre a infecção VIH, a escolha da terapêutica ITRN e os efeitos secundários do foro cardiológico são, muito provavelmente, complexas; assim, os estudos longitudinais poderão constituir um elemento importante para ajudar a destrinçar as observações clinicamente importantes reveladas pelos estudos D:A:D e SMART.”

Contudo, na edição de 1 de Dezembro da Clinical Infectious Diseases, um outro grupo de investigadores sugere que a hiperactivação linfocitária pode estar na base do facto que tem estado em análise no presente artigo, ou seja, aquilo que parece ser o maior risco de ataque cardíaco nos doentes a fazer abacavir.

Os investigadores estudaram um grupo de 12 doentes a fazer abacavir, tendo monitorizado as contagens linfocitárias no início do estudo e em duas outras ocasiões, após 3 e 6 meses de terapêutica.

E descobriram alterações significativas nas contagens dos linfócitos CD38+CD8+ activados, previamente associadas a lesão vascular. Além disto, todos os 12 doentes apresentavam um aumento da espessura das artérias carotídeas e/ou femorais. Os investigadores, da Universidade de Milão, em Itália, apelam à realização de mais estudos sobre os marcadores imunológicos em pessoas com lesão cardiovascular relacionada com o abacavir.

Referências
Hammond E. et al. Longitudinal evaluation of cardiovascular disease-associated biomarkers in relation to abacavir therapy. AIDS 22: 2540-43, 2008.

Marchetti G. et al. Abacavir and cardiovascular risk in HIV-infected patients: does T lymphocyte hyperactivation exert a pathogenic role? Clin Infect Dis 47: 1494-95, 2008.

Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA