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Os testes de tropismo podem ter algum papel na avaliação de rotina da infecção VIH?
Michael Carter, Tuesday, November 11, 2008
Segundo os autores de um estudo publicado na edição de 15 de Outubro do Journal of Infectious Diseases, deve ponderar-se o início precoce da terapêutica anti-retroviral (ARV) nas pessoas com VIH adaptado para infectar as células CD4 com o co-receptor CXCR4.

O estudo, norte-americano, mostrou que os doentes cujo VIH deixou de usar o co-receptor CCR5, para passar a usar o co-receptor CXCR4, experimentavam uma perda rápida de células-chave do sistema imunitário, bem como uma progressão da infecção VIH.

Num editorial acompanhante, escreve-se que os testes de tropismo poderiam ajudar os médicos a melhor tomar as decisões apropriadas para cada caso.

“Tropismo” refere-se à propriedade ou tendência do vírus para infectar um tipo particular de células, em vez de outras.

De modo a infectar uma célula, o VIH precisa de se ligar tanto à proteína CD4 como a um co-receptor na superfície das células. No início do curso da infecção, o vírus utiliza o co-receptor CCR5 mas, em aproximadamente 50% das pessoas, nos estádios mais tardios da infecção, o vírus passa a usar o co-receptor CXCR4 (ou X4).

A presença de vírus X4 tem sido associada a uma mais rápida progressão da doença VIH e a uma descida na contagem de células CD4.

O grupo de investigadores do Multicenter AIDS Cohort Study (MACS) pretendia, assim, adquirir um melhor conhecimento sobre a emergência das estirpes X4 do VIH. Desse modo, levou a cabo o estudo dos co-receptores do VIH em 67 doentes do sexo masculino. O seu objectivo era estabelecer a relação entre a emergência dos vírus X4 e a progressão da doença VIH.

Todos os doentes tinham sido infectados pelo VIH antes de 1995. Para todos os doentes, havia um número significativo de consultas médicas, no decorrer as quais eram colhidas e congeladas amostras de sangue (uma média de dez por doente). Os investigadores avaliaram o registo médico de cada doente, de modo a determinar a altura em que a contagem de CD4s caía para menos de 200 células/mm3 ou a altura em que se desenvolvia uma doença definidora de SIDA.

A progressão da doença VIH foi considerada rápida se qualquer destes pontos fosse atingido cinco anos depois do diagnóstico, moderada se fosse atingido entre 5 a 9 anos depois, lenta se o prazo se encontrasse entre os 9 e os 11 anos e muito lenta se tardasse mais de 11 anos.

Um total de 35 indivíduos (52%) apresentou vírus X4 numa qualquer altura ao longo do estudo. A primeira carga viral registada era mais elevada nestes doentes (média de 25 000 cópias/ml) do que naqueles que mantinham vírus utilizadores do CCR5 ao longo do estudo (média de 12 500 cópias/ml), uma diferença no limite do significado estatístico (p = 0.08).

Quatro homens desenvolveram vírus X4 até dois anos decorridos desde o início da infecção. Todos experimentaram uma rápida progressão da doença VIH.

Os investigadores conduziram, então, uma análise mais detalhada, de modo a determinar a relação entre a emergência dos vírus X4 e a progressão da doença. Descobriram que 24% dos doentes tinha experimentado uma rápida progressão da doença, 40% uma progressão moderada, 12% eram progressores lentos e 24% muito lentos.

Em comparação com os progressores muito lentos, os rápidos (aqueles que progrediam para SIDA em menos de 5 anos) apresentavam um risco quase cinco vezes mais elevado de apresentar vírus X4 (odds ratio, ou seja, razão de possibilidades, 4.9, p = 0.061).

Aqueles que apresentavam uma progressão moderada tinham um risco cerca de 7 vezes maior de apresentar vírus X4 (odds ratio, ou seja, razão de possibilidades, 6.9, p = 0.014) e os que apresentavam uma progressão lenta, um aumento (não significativo) de 50% desse risco.

Dos homens que desenvolveram SIDA, observou-se a emergência de vírus X4 antes do evento definidor de SIDA em 52% dos doentes, e por volta do surgimento de SIDA nuns adicionais 13%. Pelo contrário, apenas surgiram vírus X4 em 30% dos doentes que não experimentaram progressão da doença, o que constitui uma diferença significativa (p = 0.04).

O tempo médio entre a emergência de vírus X4 e o diagnóstico de SIDA foi de 13 meses. O valor médio da contagem de CD4 na altura em que os vírus X4 emergiram foi de 475 células/mm3.

Alguns estudos anteriores têm estabelecido a existência de uma relação entre o declínio das células T CD3 e um enfraquecimento do sistema imunitário. Estes dados foram apoiados pelo presente estudo, que mostrou que esta situação ocorreu em 50 homens (75%). Dos homens que experimentaram uma descida na contagem das células CD3, os vírus X4 emergiram antes, em 54% dos homens. Por outro lado, apenas 24% dos homens que não experimentaram uma descida nas suas células CD3 desenvolveram vírus X4 (p=0.03).

Nos homens que experimentaram quer o desenvolvimento de vírus X4, quer um declínio das suas células CD3, o intervalo médio entre o aparecimento de vírus X4 e a descida da contagem do sistema imunitário foi de, aproximadamente, 10 meses.

Dada a associação entre a emergência de vírus X4 e a progressão da doença, os investigadores comentam: “pode ser prudente iniciar a terapêutica anti-retroviral de grande actividade - HAART – assim que os vírus X4 forem detectados, uma vez que este tratamento pode prevenir o desenvolvimento da progressão da doença associada ao X4, melhorando, desse modo, os resultados do tratamento”.

Os autores de um editorial acompanhante referem: “ao revelar a presença das estirpes X4, estes biomarcadores oferecem a possibilidade de melhorar a terapêutica individual… É chegada a altura de desenhar estudos que ajudem a definir o papel dos testes de tropismo e da carga viral nos portadores de vírus X4 na decisão sobre quando começar ou mudar a terapêutica ARV”.

Referência
Shepherd JC et al. Emergence and persistence of CXCR4-tropic HIV-1 in a population of men from the Multicenter AIDS Cohort Study. J Infect Dis 198: 1104-12, 2008.

Burger H et al. HIV-1 tropism, disease progression, and clinical management. J Infect Dis 198: 1095-96, 2008.

Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA