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O uso de cidofovir não traz qualquer benefício ao tratamento da LEMP
Michael Carter, Monday, September 29, 2008
Investigadores concluem num artigo publicado na 12ª edição de Setembro de AIDS, que os doentes seropositivos com leucoencefalopatia multifocal progressiva (LEMP) não têm benefício com o uso do medicamento anti-viral cidofovir. Os investigadores compararam os resultados do tratamento em doentes seropositivos com LEMP que estavam a ser tratados com terapêutica anti-retroviral e cidofovir com os resultados dos doentes com a infecção que eram tratados apenas com a terapêutica anti-retroviral. Descobriram que a mortalidade e incapacidade eram comparáveis nos dois grupos.

O cidofovir pode danificar os olhos e os rins e dado que não apresenta benefícios para os doentes com LEMP os investigadores recomendam que “o uso do cidofovir seja abandonado em doentes com LEMP relacionada com sida”.

A LEMP é uma doença do sistema nervoso central provocada pelo vírus JC, que afecta pessoas com o sistema imunitário muito debilitado. Nos doentes com VIH, geralmente provoca sintomas neurológicos progressivos, que levam muitas vezes à morte no espaço de quatro a seis meses. O prognóstico dos doentes seropositivos melhorou desde que se tornou disponível o tratamento eficaz do VIH e há alguma evidência de que a terapêutica anti-retroviral reconstitui a resposta imunitária específica para a LEMP. No entanto, cerca de 50% dos doentes seropositivos com LEMP ainda morrem ou tem incapacidades graves.

O único tratamento actualmente recomendado para a LEMP é a terapêutica anti-retroviral, mas testes de laboratório e alguns pequenos estudos sugeriram que os doentes tratados com a terapêutica anti-retroviral e cidofovir têm melhores hipóteses de sobreviver do que os indivíduos tratados apenas com terapêutica para o VIH. Mas o número dos doentes nestes estudos era reduzido e outras investigações tiveram resultados opostos.

Por isso, uma equipa internacional de investigadores analisou os resultados de seis estudos conduzidos entre 1996 e 2004 que incluíram doentes seropositivos com LEMP que foram tratados com terapêutica anti-retroviral e cidofovir ou apenas terapêutica anti-retroviral. Os investigadores compararam as taxas de mortalidade e incapacidade entre os dois grupos de doentes.

Na análise dos investigadores foram incluídos 370 doentes. Todos os doentes receberam terapêutica anti-retroviral e 50% foram medicados com cidofovir. O tratamento com cidofovir foi administrado oito semanas após o diagnóstico com LEMP em 75% dos doentes e o número médio de ciclos de tratamento foi de cinco.

Um total de 189 (51%) doentes morreu e em 167 (89%) destes casos a LEMP foi considerada a causa da morte.

Os investigadores calcularam que os doentes tratados com cidofovir tinham uma probabilidade ligeiramente inferior de sobrevivência ao fim de um ano (44%) quando comparados com os doentes que recebiam apenas tratamento anti-retroviral, mas esta diferença não foi estatisticamente significativa.

O único factor associado a uma hipótese mais elevada de sobrevivência era uma contagem mais elevada de células CD4 (p < 0,001) e um índice de Karnofsky mais elevado (uma avaliação da saúde individual e do bem-estar) (p < 0,001)

Dos doentes que estavam vivos após doze meses, avaliou-se que 39% tinham incapacidade moderada a grave. A análise estatística univariável mostrou que o tratamento com cidofovir (p = 0,016) e a carga viral JC no líquido cefalorraquidiano (p = 0,01) estavam significativamente associados a um risco mais elevado de incapacidade moderada a grave e que uma contagem das células CD4 mais elevada (p = 0,027) e um índice de Karnofsky mais elevado (p< 0,001) estavam associados a um risco mais baixo de tais incapacidades. Em análises multivariáveis subsequentes, que verificaram a influência de outros factores aleatórios, o cidofovir já não foi associado a um risco mais elevado de incapacidade, mas a contagem das células CD4 e o índice de Karnofsky (ambos p < 0,01) continuaram associados significativamente a um risco mais baixo de incapacidade.

A maioria dos estudos incluídos na análise eram observacionais, mas apesar desta limitação os investigadores escrevem que “os resultados globais apontam contra a maior eficácia do cidofovir no tratamento da LEMP relacionada com sida”. Concluem que “novos agentes e estratégias de tratamento são urgentemente necessárias para o tratamento desta infecção oportunista pouco comum, mas assustadora”.

Referências

De Luca et al. Cidofovir in addition to antiviral treatment is not effective for AIDS-associated progressive multifocal leukoencephalopaty: a multicohort analisys. AIDS 22:1759-1767, 2008.