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Quanto é que a carga viral precisa de baixar para reduzir para metade o risco de transmissão do VIH?
Keith Alcorn, Monday, November 02, 2009
De forma a reduzir o risco de transmissão do VIH em 50%, é necessária uma redução média da carga viral de cerca de 0.74 log, de acordo com uma avaliação levada a cabo pelo estudo da Partners in Prevention sobre o tratamento com aciclovir em pessoas seropositivas para o VIH com co-infecção pelo HSV2.
Este estudo, apresentado na conferência AIDS Vaccine 2009, pode também vir a ter importantes implicações em futuros estudos sobre o tratamento do VIH, enquanto medida de prevenção.

A relação entre a carga viral plasmática – i.e., o nível de VIH no sangue – e a transmissão sexual do VIH encontra-se bem estabelecida, tendo sido já realizados vários estudos onde se procurou determinar o risco de transmissão do VIH consoante o nível de carga viral.

Tem, porém, havido pouca informação, até ao presente, sobre até que ponto diferentes graus de redução da carga viral se podem correlacionar com reduções no risco de transmissão do VIH.

Tanto mais que esta informação pode ser importante para o desenho de estudos sobre o impacto de intervenções como o tratamento ARV (anti-retroviral) sobre novas infecções, ou de vacinas que afectam a carga viral pós-infecção mesmo que não evitem a infecção (as chamadas vacinas esterilizantes).

O Dr. Jairam Lingappa, da University of Washington, Seattle, e colegas do estudo da Partners in Prevention sobre o tratamento com aciclovir em pessoas seropositivas para o VIH com co-infecção pelo HSV2, apresentaram uma investigação sobre a carga viral dos parceiros dos indivíduos que se infectaram durante o estudo.

O estudo da Partners recrutou 3 408 indivíduos e monitorizou os casais sero-discordantes para o VIH a cada 3 meses, com o objectivo de determinar novas infecções pelo VIH e medir a carga viral no parceiro seropositivo.

Se se detectava infecção pelo VIH num parceiro previamente seronegativo, procedia-se à sequenciação viral em ambos os elementos do casal, de forma a determinar se o parceiro primário constituía a fonte da infecção.

Esta análise revelou 108 infecções deste tipo, em relação às quais havia valores de carga viral do parceiro transmissor relativos aos 3 meses anteriores.

(Uma limitação óbvia deste método é que ele não pode dar conta de aumentos temporários da carga viral devidos a infecções, como a malária - que não seriam, pois, cabalmente registados através dessas avaliações levadas a cabo com 3 meses de intervalo -, ou infecções sexualmente transmitidas, que não afectariam a carga viral plasmática, mas que aumentariam, contudo, a carga viral genital).

Neste estudo, indivíduos com VIH e HSV2 foram randomizados para receber tratamento com aciclovir ou placebo, para testar se a profilaxia com aciclovir reduzia o risco de transmissão do VIH.

Embora os investigadores tenham notado uma redução média da carga viral (CV) de - 0.25 log nas pessoas que receberam aciclovir, esta análise específica não procurava avaliar os efeitos sobre a transmissão do VIH de uma qualquer redução da carga viral do VIH resultado da profilaxia com aciclovir.

Os investigadores estratificaram as pessoas intervenientes no estudo de acordo com a sua carga viral ao longo do tempo, tendo depois calculado a incidência do VIH por 100 pessoas-ano para cada segmento de carga viral.

Segmento de carga viral (CV)

2-3log

(<1000 cópias)

3-4log

(<10,000 cópias)

4- 5log

(<100,000 cópias)

5-6log

(<1 milhão cópias)

6-7log

(<10 milhões cópias)

Eventos de transmissão

3

10

58

38

3

Pessoas-ano (PA) de seguimento

954

1382

1772

805

53

Incidência por 100 PAs

0.3%

0.7%

2.9%

4.7%

5.7%


A grande maioria dos eventos de transmissão e seguimento ocorreu com valores de CV entre os 3 e os 6 logs (1000 a 1 milhão de cópias/ml), com evidência de reduções substanciais no risco de transmissão à medida que a CV era mais baixa.

Combinando os dados de todos os segmentos, os investigadores calcularam que, independentemente da CV à partida, uma redução média da CV de 0.74 logs resultaria numa redução de 50% do risco de transmissão do VIH.
Extrapolando a partir dos dados apresentados, o impacto sobre a prevenção deste nível de redução seria maior nas pessoas com níveis mais elevados de CV, dado que foi nestas pessoas que se deu mais de 90% dos eventos de transmissão.

Jairam Lingappa notou que a incidência de VIH de 2.1% observada na população deste estudo era muito mais baixa do que a observada em estudos de coortes recentes em populações do Uganda e da Zâmbia, sendo provável que tal valor possa ser atribuído ao aconselhamento intensivo e ao fornecimento de preservativos aos participantes do estudo.

Assim, uma redução de 0.74 logs poderia resultar num muito maior número de infecções evitadas com níveis mais elevados de incidência de VIH.
Esta hipótese, contudo, precisaria de ser testada num estudo populacional. O presente estudo avaliou a CV e a transmissão apenas em casais serodiscordantes, onde a transmissão podia ser provada, em que a maioria dos contactos sexuais se deu entre casais ao longo do estudo e onde houve lugar a um intenso aconselhamento sobre prevenção. Não se tratou, pois, de uma população onde pode haver uma muito maior profusão e variedade de contactos sexuais.

Um evento a decorrer em breve, organizado pela OMS, irá rever as questões que devem ser avaliadas de modo a poder estabelecer-se os efeitos preventivos das reduções da carga viral devidas ao tratamento ARV.

Referência
Lingappa J et al. HIV-1 plasma RNA and risk of HIV-1 transmission. AIDS Vaccine 2009, Paris, abstract OA01-06LB, 2009.

Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA