YOU ARE HERE:
Os utilizadores de crack/cocaína apresentam uma progressão mais rápida da doença VIH
Michael Carter, Tuesday, January 06, 2009
Segundo uma investigação apresentada na edição de 1 de Janeiro da revista Journal of Acquired Immune Deficiency Syndromes, o uso de crack /cocaína acelera a progressão da doença VIH. A investigação, conduzida em utilizadores de drogas de Miami, nos EUA, mostrou que os utilizadores de crack apresentavam uma adesão mais baixa aos tratamentos anti-retrovirais (ARVs).

Esta, contudo, foi apenas uma das explicações para a mais rápida progressão da doença. De facto, os investigadores também descobriram que os utilizadores de crack que tomavam ARVs apresentavam não apenas um mais rápido decréscimo na contagem dos CD4s como uma mais rápida subida da carga viral.

Estima-se que 18% de todas as infecções por VIH nos EUA sejam devidas ao uso de drogas injectáveis. Os utilizadores de drogas injectáveis (UDIs) com VIH experimentam frequentemente uma progressão rápida da doença VIH; de facto, quase 50% das pessoas pertencentes a este grupo progridem para SIDA no espaço de apenas um ano após o diagnóstico da infecção.

O uso de drogas não injectáveis também é comum nas pessoas com VIH, tendo os estudos realizados até à data mostrado resultados contraditórios no que respeita ao impacto deste consumo sobre a progressão da doença.

Um estudo houve, porém, que mostrou que os utilizadores de crack /cocaína apresentam um declínio mais rápido das suas contagens de CD4s a curto prazo, do que os não utilizadores desta droga. Outros estudos, realizados em mulheres seropositivas para o VIH mostraram que as utilizadoras de crack /cocaína apresentam valores inferiores de células CD4s e um risco maior de SIDA ou morte.

O uso de drogas pode significar uma menor adesão aos tratamentos ARVs. Pode, pois, ser difícil para os investigadores perceberem se os resultados desfavoráveis observados nos UDIs se devem à não-adesão aos ARVs ou aos efeitos provocados pela utilização das drogas.

Deste modo, um grupo de investigadores desenhou um estudo para tentar avaliar a relação entre o uso de drogas e a progressão da doença VIH, detectada através de descidas nas contagens de CD4s e aumentos da CV.

A investigação, que durou 30 meses, envolveu 222 UDIs seropositivos recrutados em Miami, entre 2002 e 2005. O valor dos CD4s e da CV eram avaliados a cada 6 meses. Também se procedeu à avaliação dos antecedentes dos participantes – incluindo o uso de ARVs e outros medicamentos -, bem como à avaliação do uso de tabaco, álcool e drogas ilícitas.

A maioria dos participantes (77%) era de etnia negra e a idade média era de 42 anos. A contagem média das células CD4s à partida era de 314/mm3, encontrando-se o valor de CV à partida um pouco abaixo das 12 000 cópias/ml. Finalmente, 63% dos participantes estava sob tratamento ARV quando o estudo teve início.

A droga mais frequentemente utilizada foi o crack/cocaína (50%), seguida da cannabis (35%) e da cocaína em pó (14%). O álcool era consumido por 55% dos doentes.

À entrada para o estudo, 130 doentes apresentavam contagens de células CD4 superiores a 200 células/mm3.

Os investigadores avaliaram o impacto do uso de drogas ilícitas nas descidas da contagem de CD4s ao longo dos 30 meses de duração do estudo. Os doentes eram classificados como “utilizadores” de drogas se referissem o uso de substâncias ilícitas nos 6 meses anteriores.

Depois de se proceder aos ajustes para a contagem de células CD4 de base e para o uso de ARVs, descobriu-se que apenas o uso de crack /cocaína apresentava um efeito independente no declínio do número de células CD4, tendo-se observado que o uso desta droga duplicava o risco da contagem de CD4 cair para menos de 200 células/ mm3 (hazard ratio [HR] = 2/15, 95% de intervalo de confiança [IC]: 1.08-4.25, p = 0.029).

A relação entre o uso de crack /cocaína e o rápido declínio das células CD4 permaneceu inalterada mesmo quando os investigadores procederam ao controlo para o uso de álcool (HR = 2.093, p = 0.041).

Em seguida, os investigadores restringiram a sua análise aos UDIs que não se encontravam a fazer ARVs. Uma vez mais, apenas o uso de crack /cocaína se encontrava associado a um risco aumentado de queda dos CD4s abaixo das 200 células/mm3 (HR = 3.9, 95% CI: 1.049-14.85, p = 0.042).

Muitos participantes referiram o uso de múltiplas substâncias, mas apenas o uso conjunto de crack e cannabis (HR = 2.42, 95% CI: 1.042 – 5.617, p = 0.04) se mostrou associado a um risco aumentado de descida dos CD4s abaixo das 200 células. Os investigadores descobriram também que o uso de crack constituía um factor preditivo significativo de carga viral elevada (p = 0.019).

De forma a avaliar o efeito do uso de drogas ilícitas na adesão, os investigadores avaliaram a proporção de doentes com uma carga viral abaixo de 400 cópias/ml, de acordo com o tipo de substância usada. Assim, em todas as visitas, os utilizadores de crack apresentavam uma probabilidade significativamente menor de apresentar uma CV inferior a este valor do que as pessoas que não utilizavam esta droga.

Os investigadores escrevem que os seus achados “mostram uma aceleração significativa do declínio das células CD4 para um nível considerado diagnóstico de SIDA e uma elevada carga viral nos utilizadores de crack, independentemente do uso de ARVs por um período superior a 30 meses”.

E acrescentam: “de acordo com os nossos dados, o uso do crack apresenta um mecanismo de acção multifactorial, em que tanto os efeitos directos como a reduzida adesão aos ARVs parecem contribuir para a progressão da doença”.

E concluem, “estes achados constituem uma prova importante da necessidade de intervenções dirigidas ao decréscimo do consumo de crack e à redução global do uso de drogas nas pessoas infectadas com VIH, de forma a reduzir-se a progressão da doença”.

Referência
Baum MK et al. Crack-cocaine use accelerates HIV disease progression in a cohort of HIV-positive drug users. J Acquir Immune Defic Syndr 50: 93-99, 2009.

Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA