YOU ARE HERE:
O VIH persiste nas células CD4 do tracto gastrointestinal mesmo na presença de uma terapêutica eficaz
De acordo com um artigo publicado na versão online da revista The Journal of Infeccious Diseases, existem novas evidências de que as células CD4 presentes no tracto gastrointestinal possam ser um reservatório para o VIH, o que poderá ter impacto sobre futuras estratégias de tratamento. No estudo transversal conduzido por um grupo de investigadores, foi detectado um nível relativamente elevado de partículas de VIH entre a população reduzida de células CD4 do tecido linfático do intestino, mesmo na presença de terapêutica anti-retroviral eficaz. Na opinião dos autores, novos regimes de medicamentos capazes de atingir estas células poderão levar, no futuro, a um controlo mais eficaz do vírus.
Uma terapêutica anti-retroviral eficaz é capaz de reduzir a carga viral de VIH no sangue, para níveis indetectáveis. No entanto, as terapêuticas actuais não eliminam completamente o VIH do organismo. Ou seja, não há cura para o VIH. Uma das possíveis explicações baseia-se no facto de persistir em áreas do organismo onde os medicamentos actualmente existentes penetram mal. Estes reservatórios poderiam constituir uma fonte permanente de células infectadas pelo VIH.
O tecido linfático do tracto gastrointestinal (GALT em inglês) é um dos potenciais reservatórios. É o maior tecido linfático no organismo e contém as células CD4 mais susceptíveis ao VIH. Está associado à replicação do VIH na fase precoce da infecção, mas há raros estudos sobre o seu papel na infecção mais avançada. No artigo do The Journal of Infeccious diseases, Chun e os colegas do Instituto Nacional de Saúde dos E.U.A., fornecem evidências de que o VIH persiste no GALT, mesmo na presença de terapêutica anti-retroviral eficaz.
Para o estudo foram recrutadas 8 pessoas seropositivas, que estavam sob terapêutica anti-retroviral há muito tempo (média 8,4 anos). A média da contagem de células CD4 do grupo era de 622 células/mm3 e apresentavam carga viral indetectável (< 50 cópias/ml) em média, há 5,6 anos consecutivos até ao início do estudo.
Os investigadores isolaram em primeiro lugar células CD4 de amostras de sangue e de tecidos obtidos por biópsia da porção terminal do intestino delgado. Descobriram que os níveis da contagem de células CD4 eram significativamente mais baixo no GALT do que no sangue (p=0,005) e muito inferiores ao que era de esperar nas pessoas saudáveis. Enquanto que a percentagem das células CD4 no GALT é geralmente mais baixa do que no sangue, das pessoas saudáveis (cerca de 40% versus cerca de 65%, respectivamente), a média de percentagem das células CD4 no GALT dos participantes no estudo era 11,3%.
Durante a evolução natural da infecção pelo VIH, a contagem das células CD4 lentamente decresce à medida que o vírus se replica. Quando se inicia a terapêutica anti-retroviral, a replicação viral é suprimida e regra geral a contagem das células CD4 volta normalmente a aumentar, muitas vezes alcançando valores semelhantes aos que são encontrados nas pessoas seronegativas. Portanto, a baixa percentagem de células CD4 encontradas no GALT dos indivíduos infectados, segundo o autor, sugere que a contagem das células CD4 no GALT não volta a aumentar e que o vírus persiste nas células CD4 do GALT.
Os investigadores determinaram, então, o nível do material genético do VIH nas células CD4 do sangue e do GALT. Os níveis do material genético do VIH podem dar uma medida da frequência de infecção. Os investigadores descobriram que o material viral genético estava presente em todas as populações de células CD4 e era mais elevada entre as células CD4 do GALT, com 4887 células infectadas por milhão de células CD4. As células CD4 do sangue reportaram taxas de infecção significativamente inferiores, 1803 células por milhão de células (p< 0,001) CD4 não activadas e 1796 por milhão de células (p=0,001) CD4 activadas.
Combinando as descobertas da presença reduzida de células CD4 com um nível elevado de infecção, os investigadores concluem que “as células T CD4+ no GALT, mesmo quando presentes em número reduzido, podem sustentar a replicação do VIH a um nível baixo, mas rapidamente detectável, apesar de terem estado durante anos sob terapêutica anti-retroviral eficaz, que resultou em níveis indetectáveis e mantidos de vírus no sangue.”
Por último, os investigadores testaram se as células CD4 migravam entre o sangue e o GALT. Fizeram-no comparando as sequências de ADN do VIH retiradas das células CD4 infectadas colhidas nos dois compartimentos. Neste tipo de análise, a ausência de uma infecção cruzada implicaria que todas as sequências de ADN do VIH no sangue fossem semelhantes entre elas e diferentes do ADN do VIH do GALT. Em vez disso, os investigadores descobriram que as sequências eram por vezes partilhadas entre os compartimentos do sangue e dos tecidos, sugerindo que o vírus ou as células infectadas tinham migrado. Esta descoberta, segundo os investigadores, “pode explicar, em parte, a persistência do VIH nas células T CD4+ no sangue periférico, possivelmente como consequência de novos ciclos de infecção nos tecidos.”
Num comentário editorial anexado, Yuki e Wonk sustentam a interpretação dos dados dos investigadores e acrescentam, “O efeito da intensificação do tratamento ou de novas estratégias de tratamento sobre o reservatório das células infectadas pelo VIH na GALT, deveriam ser explorados.” Sabe-se que a intensificação dos regimes, ao acrescentar mais medicamentos faz baixar a carga viral no sangue, nas pessoas que já têm carga viral indetectável. Propõem, assim, que uma estratégia semelhante, especialmente se incluir agentes como os inibidores da integrase e os inibidores de entrada, pode produzir resultados semelhantes nas células do GALT.
Referências
Chun TK et al. Persistence of HIV in gut-associated lymphoid tissue despite long-term antiretroviral therapy. J Infect Dis 197 (edição online), 2008.
Yuki S e Wong JK. Blood and guts and HIV: preferential HIV persistence in GI mucosa. J Infect Dis 197 (edição online), 2008.
Tradução pelo Grupo Português de Activistas sobre Tratamentos de VIH/SIDA (GAT)
Uma terapêutica anti-retroviral eficaz é capaz de reduzir a carga viral de VIH no sangue, para níveis indetectáveis. No entanto, as terapêuticas actuais não eliminam completamente o VIH do organismo. Ou seja, não há cura para o VIH. Uma das possíveis explicações baseia-se no facto de persistir em áreas do organismo onde os medicamentos actualmente existentes penetram mal. Estes reservatórios poderiam constituir uma fonte permanente de células infectadas pelo VIH.
O tecido linfático do tracto gastrointestinal (GALT em inglês) é um dos potenciais reservatórios. É o maior tecido linfático no organismo e contém as células CD4 mais susceptíveis ao VIH. Está associado à replicação do VIH na fase precoce da infecção, mas há raros estudos sobre o seu papel na infecção mais avançada. No artigo do The Journal of Infeccious diseases, Chun e os colegas do Instituto Nacional de Saúde dos E.U.A., fornecem evidências de que o VIH persiste no GALT, mesmo na presença de terapêutica anti-retroviral eficaz.
Para o estudo foram recrutadas 8 pessoas seropositivas, que estavam sob terapêutica anti-retroviral há muito tempo (média 8,4 anos). A média da contagem de células CD4 do grupo era de 622 células/mm3 e apresentavam carga viral indetectável (< 50 cópias/ml) em média, há 5,6 anos consecutivos até ao início do estudo.
Os investigadores isolaram em primeiro lugar células CD4 de amostras de sangue e de tecidos obtidos por biópsia da porção terminal do intestino delgado. Descobriram que os níveis da contagem de células CD4 eram significativamente mais baixo no GALT do que no sangue (p=0,005) e muito inferiores ao que era de esperar nas pessoas saudáveis. Enquanto que a percentagem das células CD4 no GALT é geralmente mais baixa do que no sangue, das pessoas saudáveis (cerca de 40% versus cerca de 65%, respectivamente), a média de percentagem das células CD4 no GALT dos participantes no estudo era 11,3%.
Durante a evolução natural da infecção pelo VIH, a contagem das células CD4 lentamente decresce à medida que o vírus se replica. Quando se inicia a terapêutica anti-retroviral, a replicação viral é suprimida e regra geral a contagem das células CD4 volta normalmente a aumentar, muitas vezes alcançando valores semelhantes aos que são encontrados nas pessoas seronegativas. Portanto, a baixa percentagem de células CD4 encontradas no GALT dos indivíduos infectados, segundo o autor, sugere que a contagem das células CD4 no GALT não volta a aumentar e que o vírus persiste nas células CD4 do GALT.
Os investigadores determinaram, então, o nível do material genético do VIH nas células CD4 do sangue e do GALT. Os níveis do material genético do VIH podem dar uma medida da frequência de infecção. Os investigadores descobriram que o material viral genético estava presente em todas as populações de células CD4 e era mais elevada entre as células CD4 do GALT, com 4887 células infectadas por milhão de células CD4. As células CD4 do sangue reportaram taxas de infecção significativamente inferiores, 1803 células por milhão de células (p< 0,001) CD4 não activadas e 1796 por milhão de células (p=0,001) CD4 activadas.
Combinando as descobertas da presença reduzida de células CD4 com um nível elevado de infecção, os investigadores concluem que “as células T CD4+ no GALT, mesmo quando presentes em número reduzido, podem sustentar a replicação do VIH a um nível baixo, mas rapidamente detectável, apesar de terem estado durante anos sob terapêutica anti-retroviral eficaz, que resultou em níveis indetectáveis e mantidos de vírus no sangue.”
Por último, os investigadores testaram se as células CD4 migravam entre o sangue e o GALT. Fizeram-no comparando as sequências de ADN do VIH retiradas das células CD4 infectadas colhidas nos dois compartimentos. Neste tipo de análise, a ausência de uma infecção cruzada implicaria que todas as sequências de ADN do VIH no sangue fossem semelhantes entre elas e diferentes do ADN do VIH do GALT. Em vez disso, os investigadores descobriram que as sequências eram por vezes partilhadas entre os compartimentos do sangue e dos tecidos, sugerindo que o vírus ou as células infectadas tinham migrado. Esta descoberta, segundo os investigadores, “pode explicar, em parte, a persistência do VIH nas células T CD4+ no sangue periférico, possivelmente como consequência de novos ciclos de infecção nos tecidos.”
Num comentário editorial anexado, Yuki e Wonk sustentam a interpretação dos dados dos investigadores e acrescentam, “O efeito da intensificação do tratamento ou de novas estratégias de tratamento sobre o reservatório das células infectadas pelo VIH na GALT, deveriam ser explorados.” Sabe-se que a intensificação dos regimes, ao acrescentar mais medicamentos faz baixar a carga viral no sangue, nas pessoas que já têm carga viral indetectável. Propõem, assim, que uma estratégia semelhante, especialmente se incluir agentes como os inibidores da integrase e os inibidores de entrada, pode produzir resultados semelhantes nas células do GALT.
Referências
Chun TK et al. Persistence of HIV in gut-associated lymphoid tissue despite long-term antiretroviral therapy. J Infect Dis 197 (edição online), 2008.
Yuki S e Wong JK. Blood and guts and HIV: preferential HIV persistence in GI mucosa. J Infect Dis 197 (edição online), 2008.
Tradução pelo Grupo Português de Activistas sobre Tratamentos de VIH/SIDA (GAT)
