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De acordo com uma meta-análise, a hepatite B pode aumentar a mortalidade em indivíduos seropositivos para o VIH
Kelly Safreed-Harmon, Tuesday, June 30, 2009
A primeira metanálise realizada a todas as causas de mortalidade entre pessoas co-infectadas pelo VHB e pelo VIH concluiu que esta população tinha uma taxa significantemente mais elevada de mortalidade do que as pessoas infectadas pelo VIH mas não pela hepatite B.

O estudo é apresentado em Junho na 15a edição da revista Clinical Infectious Diseases, em conjunto com um comentário editoral a apelar por mais empenho na prevenção e tratamento da hepatite B em indivíduos co-infectados.

Os autores do estudo iniciaram a investigação realizando uma análise retrospectiva ao impacto da hepatite B numa coorte de 1729 indivíduos adultos de nacionalidade Grega, diagnosticados com VIH entre 1984 e 2003. Cerca de 6% dos participantes analisados, obtiveram resultados positivos para o VHB em duas ocasiões com pelo menos seis meses de intervalo, sugerindo uma infecção crónica. Concluiu-se que a co-infecção VHB/VIH não estava significantemente associada com qualquer dos três resultados primários da análise: a progressão para SIDA, a eficácia anti-retroviral e a mortalidade por qualquer causa.

Os autores conduziram de seguida uma meta-análise em que combinaram os seus dados com os dados de todos os estudos relevantes publicados. Quando os dados de 12 382 pessoas que participaram em 11 estudos foram usados, concluiu-se que a co-infecção VIH/VHB estava significantemente associada com a mortalidade por qualquer causa (estimativas do efeito acumulado, 1,36; 95% de intervalo de confiança [CI], 1,12.1,64).

Análises separadas dos estudos conduzidos antes e depois do advento da terapêutica antiretroviral altamente eficaz para os primeiros grupos de estudo foi de 1,60 (95% CI, 1,07-2,39). O efeito de acumulação estimado para os grupos seguintes foi de 1,28 (95% CI, 1,03-1,60).

Por outro lado, os dados de acumulação não ofereceram qualquer prova de uma associação entre a co-infecção de hepatite B/VIH e a progressão para estado de SIDA.

Muitos dos estudos na meta-análise foram realizados em países ocidentais, e muitos com homens que têm sexo com homens. Os autores notam que é necessária mais investigação entre outras populações antes que se possam tirar conclusões mais firmes sobre o efeito da co-infecção VHB/VIH na mortalidade por qualquer causa.

Uma explicação provável para as taxas mais elevadas de morte por qualquer causa em pessoas co-infectadas é a deterioração do fígado relacionada com a hepatite B. A infecção a longo termo pelo vírus da hepatite B pode resultar em cirrose e cancro no fígado, ambos potencialmente fatais.

No entanto, a meta-análise não testou a mortalidade relacionada com problemas no fígado, e não se pode assumir que a hepatite B seja a derradeira causa da taxa de mortalidade mais elevada. O comentário do editoral que acompanhou o estudo observa que a co-infecção hepatite B/VIH pode ser “um marco para outros tipos de comportamentos de alto risco que podem colocar esta população num risco aumentado de morte atribuída a causas não relacionadas com a SIDA”.

Por outras palavras, os mesmos comportamentos que aumentam o risco de uma pessoa se infectar com hepatite B, que é transmitida através de fluidos corporais, pode também aumentar o risco de uma pessoa desenvolver outros problemas de saúde não relacionados que são relevantes para a elevada taxa de mortalidade por qualquer causa encontrada na meta-análise.

Todavia, apesar dos motivos para a maior taxa de mortalidade necessitarem de ser mais explorados, o que já se conhece sobre a co-infecção VHB/VIH leva o autor do editoral a fazer uma série de recomendações. Diz o artigo que “Os médicos prescritores de tratamento para o VIH devem diagnosticar correctamente a hepatite B, documentar o nível de virémia antes do início da terapêutica antiretroviral e monitorizar a sua evolução para assegurar que se alcança a supressão viral”. Também aconselha os profissionais de saúde a informar os doentes co-infectados pelo VHB/VIH sobre o efeito do consumo de álcool no fígado, e examinar o fígado para saber se tem cancro.

Quando ocorre a infecção pelo vírus da hepatite B, o sistema imunitário muitas vezes elimina o vírus por si só. No entanto, para as pessoas em que a eliminação virulógica não aconteceu, o tratamento deve ser aconselhado. O tratamento apenas é bem sucedido em um terço dos casos.

As opções de tratamento para a hepatite B são limitadas,e alguns regimes de tratamento têm maiores desvantagens. Alguns medicamentos antiretrovirais também funcionam contra a hepatite B, embora seja provável a ocorrência de resistência do vírus da hepatite B em resposta ao 3TC (lamivudina, Epivir®). Outros dois antiretrovirais com actividade anti-hepatite B são o tenofovir (Viread®) e o FTC (emtricitabina, Emtriva®).

Se o estado de saúde de uma pessoa co-infectada indica o tratamento simultâneo para o VIH e para hepatite B, então é recomendado um regime antiretroviral que sirva ambos os propósitos. No entanto, quando uma pessoa seropositiva para o VIH não necessita de tratamento antiretroviral, utilizar estes medicamentos como tratamento para a hepatite B pode ser uma estratégia questionável dado o risco da criação de resistências aos anti-retrovirais.

Uma vez que os riscos e benefícios das várias aproximações para lidar com a co-infecção VHB/VIH não são completamente compreendidos, é necessária mais investigação para validar as guidelines do tratamento. A associação entre a hepatite B e a mortalidade por qualquer causa na meta-análise tem importantes implicações de regime. O comentário que acompanha o editoral afirma que, “À luz das conclusões, o tratamento agressivo para a hepatite B é desejável, incluindo tratar a hepatite B com medicamentos antiretrovirais independentemente da contagem de células CD4. São necessários estudos adicionais para examinar se esta estratégia irá conseguir o resultado desejado na diminuição da taxa de mortalidade.”

Reference
Jain MK et al. Mortality in patients coinfected with hepatitis B virus and HIV: could antiretroviral therapy make a difference? Clinical Infectious Diseases 48:(online edition) 2009.

Nikolopoulos GK Impact of hepatitis B virus infection on the progression of AIDS and mortality in HIV-infected individuals: a cohort study and meta-analysis. Clinical Infectious Diseases 48: (online edition) 2009.

Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA