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A circuncisão masculina pode proteger as mulheres? – perguntam os activistas
Roger Pebody, Monday, September 01, 2008
De acordo com as declarações proferidas por Marge Berger, activista dos direitos à saúde das mulheres, na Conferência Internacional sobre SIDA, a 7 de Agosto, a circuncisão masculina é a única intervenção de prevenção para o VIH que não oferece protecção para ambos os parceiros e que pode, efectivamente, colocar o/a parceiro/a sexual do homem em maior risco de infecção.

Os ensaios randomizados e controlados efectuados em cenários africanos, onde a prevalência (do VIH) é elevada, têm demonstrado que a circuncisão reduz a transmissão do VIH numa proporção de 50% a 60% na relação mulher-homem. A circuncisão não reduz a transmissão do VIH na relação homem-mulher, e pode até aumentar a transmissão, principalmente se os homens infectados com VIH recomeçarem a ter relações sexuais antes da completa cicatrização. No entanto, estudos realizados com base em modelos matemáticos sugerem que, numa comunidade, a redução da prevalência do VIH entre os homens poderá conduzir à redução de infecções entre as mulheres.

Marge Berer salientou, que entre os homens, existe alguma confusão sobre o grau de protecção que a circuncisão oferece e que existe o perigo destes utilizarem o preservativo menos frequentemente ou não o usarem de todo, após a operação. Para contrabalançar este problema, Marge Berer sugeriu que a circuncisão deveria ser publicamente descrita como um preservativo barato que rompe 40% das vezes.

Berer deu o exemplo hipotético de um homem que tinha recusado fazer o teste para o VIH no momento da circuncisão e continuou sem saber que é seropositivo. Ele acha que a circuncisão irá, a partir de agora, protegê-lo da infecção e, por isso, deixa de usar preservativo. “Se continuar a ter relações sexuais com o/a seu/sua parceiro/a este/a está numa posição bastante pior do que anteriormente”.

Sugeriu ainda que antes da circuncisão, deveria haver aconselhamento ao casal, de modo a que ambos os parceiros pudessem compreender as implicações. Além disso, ela protestou contra o facto de a circuncisão ser apresentada como uma solução imposta de cima para baixo com o mínimo envolvimento ou advocacia daqueles que são afectados, sobretudo as mulheres.

Apelando para uma renovação na promoção da utilização do preservativo, observou que estes eram um dos temas menos debatidos na conferência do México. Em resposta a várias críticas à recomendação da prática da circuncisão, Catherine Hankins da ONUSIDA, insistiu que esta devia ser vista como parte de uma 'prevenção combinada', por outras palavras, deve ser vista como uma opção extra, mais do que a substituição de outra intervenção.

Na mesma sessão, Mogomotsi Supreme Mafalapitsa salientou que a circuncisão está, muitas vezes, imbuída de significados religiosos e culturais e, frequentemente, faz parte de uma cerimónia que assinala a transição da adolescência para a idade adulta.

Baseando-se na sua experiência na África do Sul, disse que estes rituais tradicionais de circuncisão, muitas vezes, realçam ideias específicas da masculinidade que podem ser prejudiciais para as mulheres. Insistiu que a implementação da circuncisão deve ser associada a "programas transformadores de atitudes relacionadas com o género" que ajudem os rapazes a tornarem-se adultos "que respeitam as mulheres, respeitam-se a si próprios e são fiéis aos seus parceiros."

Avisou, no entanto, que a tentativa de alterar os procedimentos em torno da circuncisão acarreta inúmeras dificuldades. Os responsáveis pela saúde poderão preferir que a circuncisão seja realizada noutra idade, ou sob vigilância médica num ambiente esterilizado, mas Mafalapitsa afirmou que "as culturas que já praticam a circuncisão nos adolescentes do sexo masculino não aceitam, calmamente, a possibilidade de passar essa responsabilidade para pessoal médico ou que esta prática seja efectuada na altura do nascimento. "

Nestas sociedades, a circuncisão nos recém-nascidos seria particularmente difícil de promover, disse ele, pois não haveria qualquer ritual que marcasse o fim da adolescência.

Para além deste factor, em muitos casos, suportar a dor faz parte do ritual, e aqueles que optassem por uma circuncisão “segura” efectuada por médicos numa clínica poderiam ser encarados como cobardes.

Karen Smith sublinhou a forma como a religião e a cultura podem exercer um impacto de um modo tão específico e localizado. Deu o exemplo da Indonésia, que é predominantemente muçulmana e onde a prática da circuncisão está associada à idade (de se tornar um verdadeiro muçulmano?). Para os cristãos indonésios, a prática da circuncisão sugere uma conversão ao Islão. No entanto, nas Filipinas, país vizinho onde a maioria da população é católica, a circuncisão não tem conotações e a prática é comum durante a infância.

Afirma também que a cultura não é sempre inalterável como se costuma assumir, mas as sensibilidades culturais e religiosas precisam de ser trabalhadas com bastante cuidado. Os obstáculos devem ser identificados e conta que trabalhou em parceria com os líderes das comunidades em questão.

Referência
Male Circumcision: To Cut or Not to Cut. XVII International AIDS Conference, Mexico City, August 7 2008, session THBS01.

Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA