YOU ARE HERE:
Os tratamentos modernos para o VIH podem ser eficazes com uma adesão abaixo de 95%
Michael Carter, Thursday, November 20, 2008
Investigadores Espanhóis reportaram, na edição de Outubro do AIDS Research and Human Retroviruses, que os doentes em tratamento com os regimes anti-retrovirais modernos têm uma boa probabilidade de manter uma carga viral indetectável mesmo quando a adesão é inferior a 95%. Descobriram que os doentes em tratamento com regimes baseados num não-nucleósido da transcriptase reversa (ITRNN) ou num inibidor da protease potenciado com ritonavir, e que tinham uma taxa de adesão de apenas 80%, apresentavam um risco de falência virológica de 10%.

Uma taxa de adesão de 80% equivale a saltar não mais de uma dose em cinco numa combinação de toma única. Uma adesão de 90% é equivalente a saltar uma dose em dez, uma diferença substancial na frequência das doses.

Mas os autores do estudo sublinham que o objectivo continua a ser alcançar uma taxa de adesão ao tratamento o mais elevada possível, porque houve taxas muito baixas de falência terapêutica entre os doentes cujo nível de adesão era de pelo menos 90%.

A terapêutica anti-retroviral proporciona às pessoas seropositivas para o VIH a possibilidade de viver uma vida longa e saudável. No entanto, o tratamento para o VIH é um compromisso para o resto da vida e pode provocar efeitos secundários. Além disso, muitos doentes têm dificuldade em manter um nível elevado de adesão e um nível baixo de adesão está associado ao aparecimento de estirpes do VIH resistentes aos medicamentos, bem como a um risco aumentado de doenças relacionadas com o VIH e morte.

Geralmente, dizia-se que é necessário tomar pelo menos 95% das doses do tratamento à hora certa e do modo recomendado para que a terapêutica anti-retroviral tenha as melhores hipóteses de conseguir e manter a supressão da replicação do VIH.

No entanto, esta estimativa baseava-se nos resultados clínicos observados em doentes em tratamento com os antigos inibidores da protease não potenciados, uma classe de medicamentos que já não é recomendada. Por esta razão os investigadores estudaram os níveis de adesão necessários para manter uma carga viral indetectável em doentes em tratamento anti-retroviral baseado em ITRNNs ou inibidores da protease potenciados.

A investigação envolveu 1142 doentes naïve e experientes em tratamento a quem foi prescrita a terapêutica anti-retroviral entre 2004 e 2005. Todos os doentes conseguiram uma carga viral indetectável. O estudo durou um ano.

Os doentes foram divididos de acordo com o tipo de regime anti-retroviral prescrito: baseado num inibidor da protease não potenciados (11%); num inibidor da protease potenciado (31%) ou num ITRNN (58%). A adesão foi avaliada através da contagem das pílulas nas consultas médicas de rotina. Os investigadores comparam o risco de aumento da carga viral para níveis detectáveis para cada uma das classes de medicamentos nos vários níveis de adesão: abaixo de 70%, 70-80%, 80-90% e acima de 90%. Além disso, verificaram se havia características do tratamento ou dos doentes que pudessem ser associadas à adesão e ao resultado do tratamento.

A maioria dos doentes (1059) mantiveram uma carga viral indetectável ao longo do estudo e o nível médio de adesão foi de 96%. A adesão média das 83 pessoas que tiveram um aumento da carga viral foi de 76%.

Em comparação com os doentes com uma adesão de 90% ou mais, o risco de falência virológica foi de 9% para os que tinham uma adesão entre 80-90%, aumentando para 46% para os que tiveram uma adesão entre 70-80% e chegando aos 77% para os que tomaram menos de 70% das suas doses.

Os que tomavam um inibidor da protease não potenciado foram, para todos os níveis de adesão abaixo de 90%, o grupo que mais tinha probabilidade de desenvolver resistências (taxa de falência terapêutica de 100% para a adesão abaixo de 70%, de 71% para a adesão entre 70-79% e de 24% para a adesão 80-89%).

Embora a taxa de falência terapêutica fosse mais elevada para os doentes em tratamento com um inibidor da protease potenciado, e com uma adesão inferior a 90%, em relação aos que estavam em tratamento com um ITRNN, a diferença não foi significativa (abaixo de 70%, 50% vs. 35%; entre 70-79%, 37% vs. 24% e entre 80-89%, 9% vs. 6%).

Os únicos factores associados à adesão foram o número das pílulas (com a probabilidade da adesão diminuir significativamente com o aumento do número das pílulas, p < 0.001) e o número das doses diárias. No entanto, embora a adesão fosse menor entre os doentes com um regime de toma de três vezes por dia, não houve diferenças significativas entre os doentes que tinham uma toma única ou duas.

“Os nossos dados mostram que o sucesso virológico é possível com uma adesão inferior ao 95%”, concluem os investigadores e acrescentam que “a falência terapêutica é inferior a 10% para os doentes em regimes baseados num ITRNN ou num inibidor da protease potenciado com uma taxa de adesão de 80%".

No entanto, os investigadores constataram taxas extremamente baixas de falência terapêutica nos doentes com uma adesão acima de 90% (1% para os que estão num regime baseado num inibidor da protease não potenciado, 0,5% para os que estão num regime baseado num inibidor da protease potenciado e 1,4% para os que estão num regime com ITRNN) e, portanto, recomendam que o objectivo continua a ser alcançar “a taxa de adesão mais elevada possível”.

Referência
Marin M. Relationship between adherence level, type of antiretroviral regimen, and plasma HIV type 1 RNA viral load: a prospective cohort study. AIDS Research and Human Retroviruses 24: 1263-68, 2008.

Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA