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Análise que avalia a inflamação pode prever ataque cardíaco nas pessoas com VIH
De acordo com um estudo apresentado recentemente no Journal of Acquired Immunodeficiency Syndromes, uma análise bastante comum, utilizada como marcador da inflamação desde há muito e conhecida desde há cerca de 70 anos, pode ajudar a identificar as pessoas em risco de ter um enfarte do miocárdio (ataque cardíaco), tanto no caso das pessoas seropositivas como nas seronegativas para o VIH.
O estudo descobriu que a infecção pelo VIH e os níveis de proteína C reactiva (PCR) estão, os dois, associados de forma independente a um risco aumentado de enfarte do miocárdio.
Isto significa que os níveis de PCR podem ser usados para quantificar de forma independente o risco de ataque cardíaco, não se tratando este apenas, pois, de um marcador ‘passivo’.
Os investigadores descobriram que o facto de se ter um nível elevado de PCR mais do que duplicava o risco de ataque cardíaco; por seu lado, ter infecção pelo VIH pouco menos do que duplicava o mesmo risco.
Neste contexto, não foi com surpresa que se verificou que o facto de se ter os dois factores de risco mais do quadriplicava o risco de ataque cardíaco, por comparação com as pessoas que não tinham nem PCR aumentada, nem infecção VIH.
Ter um nível aumentado de PCR não estava, por si só, associado com infecção VIH, nem com tabagismo, carga viral, contagem de células CD4s, história familiar de doença cardiovascular ou tratamento com estatinas. Este é um dado útil, pois significa que a PCR não constitui um marcador substituto ou alternativo para qualquer destas condições.
Descoberta em 1930, a PCR é produzida por células do fígado em resposta a um sinal da citoquina (uma substância química sinalizadora, pertencente ao sistema imune) interleucina-6 (IL6). Liga-se a um componente da membrana das células ou de bactérias, iniciando um processo através do qual as bactérias ou as células infectadas são marcadas para ser destruídas.
Os níveis de PCR podem aumentar até cerca de 50 vezes em qualquer infecção ou lesão que cause inflamação, e são usados como teste padrão para a determinação de inflamação aguda, onde o seu valor limite superior do normal é definido como sendo de 5-6 miligramas por litro (mg/l).
Um teste da PCR mais sensível é usado para detectar inflamação subtil mas crónica e faz parte de uma bateria de testes utilizados para prever o risco de doença cardiovascular.
Um nível de PCR consistentemente superior a 1 mg/l (i.e., não em resposta a uma infecção aguda) está associado a um maior risco de ataque cardíaco subsequente.
Foi neste contexto que investigadores de dois hospitais do Massachusetts (estado dos EUA) foram determinar se os níveis de PCR também poderiam ser utilizados como preditivos de ataque cardíaco em pessoas com VIH.
Alguns achados de estudos anteriores tinham mostrado que as proteínas inflamatórias, incluindo a IL6, aumentam significativamente em pessoas com VIH que não estão em tratamento, facto que parece estar também ligado a uma maior incidência de doença cardíaca. Um estudo recente descobriu que este processo parece começar muito pouco tempo depois da infecção pelo VIH.
Os investigadores foram, assim, analisar os registos clínicos dos hospitais Massachusetts General e Brigham and Young’s, referentes ao decénio 1997-2007, com o objectivo de estudar os doentes que tivessem tido um enfarte agudo do miocárdio (EAM) e que tivessem VIH e/ou uma análise da PCR feita há mais de uma semana e há menos de três anos antes do enfarte.
E descobriram quase 70 000 doentes com um resultado de PCR, 7100 com infecção pelo VIH e quase 500 doentes com ambas. O intervalo médio entre a data da PCR e a do enfarte foi de 199 dias nas pessoas com VIH e 176 nas pessoas sem VIH.
Os doentes com VIH tinham uma probabilidade maior do que os seronegativos de ter uma PCR aumentada: 59% versus 39%. Na análise univariada, uma PCR elevada multiplicava o risco de ataque cardíaco subsequente por 2.51; uma infecção VIH multiplicava o mesmo risco por 2.07.
Os investigadores procederam depois a várias análises multivariadas, para perceber se estes riscos constituíam ou não marcadores substitutos para outros factores de risco de ataque cardíaco como a idade, género, tensão arterial elevada, diabetes, dislipidémia (níveis elevados de lípidos no sangue) ou etnia. O ajustamento para estes factores fez muito pouca diferença; num modelo em que se procedeu ao ajustamento para todos os factores, uma PCR elevada ainda estava associada com um aumento do risco de ataque cardíaco em 2.13 vezes; a infecção pelo VIH estava associada com um aumento do risco dessa condição da ordem das 1.93 vezes.
As pessoas com VIH tinham outros factores de risco para enfarte do miocárdio em maior grau do que as pessoas seronegativas para o vírus. Por exemplo, 57% das pessoas com VIH fumavam, em comparação com 35% das pessoas sem VIH.
Contudo, uma PCR aumentada mostrou de forma inequívoca ser um factor independente de muitos outros factores; por exemplo, não se verificou qualquer diferença nos níveis de PCR nas pessoas com VIH que fumavam e nas que não fumavam; nas pessoas seronegativas, a diferença registada foi muito pequena.
A única indicação de que um factor relacionado com o VIH poderia influenciar os níveis da PCR ocorreu quando os investigadores descobriram um risco de algum modo elevado de PCR aumentada em doentes a tomar inibidores da protease: 67% das pessoas com VIH a tomar inibidores da protease (IPs) apresentavam níveis elevados de PCR, em comparação com 39% das pessoas que não tomavam IPs.
Esta diferença não se verificou para outras classes de fármacos ARVs.
Embora o presente estudo tivesse sido demasiado pequeno para estabelecer uma relação de causalidade ou uma associação com determinados fármacos individualmente, ele acrescenta alguma evidência no sentido de que o uso de IPs possa estar associado com um risco maior de ataque cardíaco, acumulado ao longo do tempo.
Os autores referem que os seus achados “reforçam a necessidade de mais avaliações em profundidade do valor prognóstico da PCR no enfarte agudo do miocárdio nas pessoas com VIH”.
Referência
Triant VM et al. Association of C-reactive protein and HIV infection with acute myocardial infarction. JAIDS: E-publication ahead of print, 21 April 2009. doi: 10.1097/QAI.0b013e3181a9992c.
Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA
O estudo descobriu que a infecção pelo VIH e os níveis de proteína C reactiva (PCR) estão, os dois, associados de forma independente a um risco aumentado de enfarte do miocárdio.
Isto significa que os níveis de PCR podem ser usados para quantificar de forma independente o risco de ataque cardíaco, não se tratando este apenas, pois, de um marcador ‘passivo’.
Os investigadores descobriram que o facto de se ter um nível elevado de PCR mais do que duplicava o risco de ataque cardíaco; por seu lado, ter infecção pelo VIH pouco menos do que duplicava o mesmo risco.
Neste contexto, não foi com surpresa que se verificou que o facto de se ter os dois factores de risco mais do quadriplicava o risco de ataque cardíaco, por comparação com as pessoas que não tinham nem PCR aumentada, nem infecção VIH.
Ter um nível aumentado de PCR não estava, por si só, associado com infecção VIH, nem com tabagismo, carga viral, contagem de células CD4s, história familiar de doença cardiovascular ou tratamento com estatinas. Este é um dado útil, pois significa que a PCR não constitui um marcador substituto ou alternativo para qualquer destas condições.
Descoberta em 1930, a PCR é produzida por células do fígado em resposta a um sinal da citoquina (uma substância química sinalizadora, pertencente ao sistema imune) interleucina-6 (IL6). Liga-se a um componente da membrana das células ou de bactérias, iniciando um processo através do qual as bactérias ou as células infectadas são marcadas para ser destruídas.
Os níveis de PCR podem aumentar até cerca de 50 vezes em qualquer infecção ou lesão que cause inflamação, e são usados como teste padrão para a determinação de inflamação aguda, onde o seu valor limite superior do normal é definido como sendo de 5-6 miligramas por litro (mg/l).
Um teste da PCR mais sensível é usado para detectar inflamação subtil mas crónica e faz parte de uma bateria de testes utilizados para prever o risco de doença cardiovascular.
Um nível de PCR consistentemente superior a 1 mg/l (i.e., não em resposta a uma infecção aguda) está associado a um maior risco de ataque cardíaco subsequente.
Foi neste contexto que investigadores de dois hospitais do Massachusetts (estado dos EUA) foram determinar se os níveis de PCR também poderiam ser utilizados como preditivos de ataque cardíaco em pessoas com VIH.
Alguns achados de estudos anteriores tinham mostrado que as proteínas inflamatórias, incluindo a IL6, aumentam significativamente em pessoas com VIH que não estão em tratamento, facto que parece estar também ligado a uma maior incidência de doença cardíaca. Um estudo recente descobriu que este processo parece começar muito pouco tempo depois da infecção pelo VIH.
Os investigadores foram, assim, analisar os registos clínicos dos hospitais Massachusetts General e Brigham and Young’s, referentes ao decénio 1997-2007, com o objectivo de estudar os doentes que tivessem tido um enfarte agudo do miocárdio (EAM) e que tivessem VIH e/ou uma análise da PCR feita há mais de uma semana e há menos de três anos antes do enfarte.
E descobriram quase 70 000 doentes com um resultado de PCR, 7100 com infecção pelo VIH e quase 500 doentes com ambas. O intervalo médio entre a data da PCR e a do enfarte foi de 199 dias nas pessoas com VIH e 176 nas pessoas sem VIH.
Os doentes com VIH tinham uma probabilidade maior do que os seronegativos de ter uma PCR aumentada: 59% versus 39%. Na análise univariada, uma PCR elevada multiplicava o risco de ataque cardíaco subsequente por 2.51; uma infecção VIH multiplicava o mesmo risco por 2.07.
Os investigadores procederam depois a várias análises multivariadas, para perceber se estes riscos constituíam ou não marcadores substitutos para outros factores de risco de ataque cardíaco como a idade, género, tensão arterial elevada, diabetes, dislipidémia (níveis elevados de lípidos no sangue) ou etnia. O ajustamento para estes factores fez muito pouca diferença; num modelo em que se procedeu ao ajustamento para todos os factores, uma PCR elevada ainda estava associada com um aumento do risco de ataque cardíaco em 2.13 vezes; a infecção pelo VIH estava associada com um aumento do risco dessa condição da ordem das 1.93 vezes.
As pessoas com VIH tinham outros factores de risco para enfarte do miocárdio em maior grau do que as pessoas seronegativas para o vírus. Por exemplo, 57% das pessoas com VIH fumavam, em comparação com 35% das pessoas sem VIH.
Contudo, uma PCR aumentada mostrou de forma inequívoca ser um factor independente de muitos outros factores; por exemplo, não se verificou qualquer diferença nos níveis de PCR nas pessoas com VIH que fumavam e nas que não fumavam; nas pessoas seronegativas, a diferença registada foi muito pequena.
A única indicação de que um factor relacionado com o VIH poderia influenciar os níveis da PCR ocorreu quando os investigadores descobriram um risco de algum modo elevado de PCR aumentada em doentes a tomar inibidores da protease: 67% das pessoas com VIH a tomar inibidores da protease (IPs) apresentavam níveis elevados de PCR, em comparação com 39% das pessoas que não tomavam IPs.
Esta diferença não se verificou para outras classes de fármacos ARVs.
Embora o presente estudo tivesse sido demasiado pequeno para estabelecer uma relação de causalidade ou uma associação com determinados fármacos individualmente, ele acrescenta alguma evidência no sentido de que o uso de IPs possa estar associado com um risco maior de ataque cardíaco, acumulado ao longo do tempo.
Os autores referem que os seus achados “reforçam a necessidade de mais avaliações em profundidade do valor prognóstico da PCR no enfarte agudo do miocárdio nas pessoas com VIH”.
Referência
Triant VM et al. Association of C-reactive protein and HIV infection with acute myocardial infarction. JAIDS: E-publication ahead of print, 21 April 2009. doi: 10.1097/QAI.0b013e3181a9992c.
Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA
