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A IL2 proporciona um “resgate da fase SIDA” rápido, mas os efeitos nem sempre são duradouros
Gus Cairns, Monday, December 01, 2008
Um estudo italiano constatou que a administração do medicamento imunoestimulante interleuquina-2 (IL2), em combinação com a terapêutica anti-retroviral convencional (TAR), pode provocar um aumento mais rápido das células CD4 do que é habitual nas pessoas com contagens de células CD4 muito baixas e, nos primeiros meses, pode ajudar a prevenir as doenças relacionadas com SIDA.

A IL2 é uma citoquina (proteína imuno-moduladora) produzida naturalmente pelo organismo, que pode também ser produzida artificialmente. Provoca aumentos significativos nas contagens das células CD4 na maioria das pessoas prolongando o tempo de vida destas células. A IL2 foi objecto de análise em dois ensaios de longa duração em pessoas com VIH, o ESPRIT e o SILCAAT, cujos relatórios finais estão previstos para 2009.

Estes ensaios foram iniciados quando a IL2 era considerada uma possível alternativa à TAR ou, pelo menos, um modo de adiar o seu início. No entanto, a IL2 provocou sintomas gripais fortes (e mal tolerados) em muitos participantes no ensaio e, com o aumento da tolerabilidade dos medicamentos anti-retrovirais, o entusiasmo pela sua utilização como uma alternativa de longo prazo à TAR diminuiu.

Mas pode ser usada de outro modo, incluindo como um estimulador de curto prazo, e de emergência, das células CD4 para as pessoas com contagens muito baixas das células CD4. Desse modo reduzir-se-ia o risco de infecções oportunistas até a terapêutica anti-retroviral conseguir potenciar suficientemente o sistema imunitário para ultrapassar o risco. É esta a estratégia que Camila Tincati e colegas de dois serviços de doenças infecciosas de Milão decidiram de experimentar.

Tincati prescreveu TAR a 73 doentes recém-diagnosticados e duas semanas depois dividiu os doentes aleatoriamente para continuarem a TAR como habitual (40 doentes) ou para receberem simultaneamente IL2 (33 doentes). Os doentes em tratamento com IL2 receberam três “ciclos” de IL2, que consistiram em dez doses médias administradas em injecções subcutâneas, uma vez por dia, distribuídas ao longo de duas semanas com a interrupção de um fim-de-semana. Isto foi repetido três vezes nos primeiros três meses de terapêutica.

O progresso dos doentes foi acompanhado durante 18 meses após o primeiro ciclo trimestral de tratamento com IL2. Os que não apresentaram uma recuperação superior a 30% na contagem dos CD4 a partir do início do ensaio, receberam mais três ciclos de IL2 a partir do sexto mês e até ao nono.

Os doentes tinham, no início do ensaio, contagens baixas de células CD4, com uma média de 48/mm3 no grupo dos doentes apenas em TAR e 61 células/mm3 no grupo em tratamento com IL2. Vinte e sete (67,5%) dos doentes em TAR e 15 (45,5%) dos doentes a tomar IL2 tinham doenças definidoras de SIDA no início do ensaio. Todos os doentes responderam à TAR com um decréscimo das cargas virais.

A terapêutica com interleuquina-2 proporcionou um grau significativo do que foi definido por Tincati e pelos colegas como “resgate da fase SIDA”. No fim dos três meses e dos três ciclos de IL2, o aumento da contagem média das células CD4, nos doentes apenas em TAR, foi de 20 células/mm3 e a contagem média dos CD4 foi em média de 68 células/mm3; nos doentes a tomar IL2 foi de 145 células/mm3 e a média das contagens foi de 206 células/mm3.

No entanto, o aumento da contagem das células CD4 não foi duradouro. Após seis meses, a contagem das células CD4 foi idêntica nos dois grupos: 59 células/mm3. Por outras palavras, enquanto que os doentes em TAR tiveram um aumento lento até atingir uma média de 107 células/mm3, os doentes a tomar IL2 tiveram, de facto, uma diminuição considerável das células CD4 no segundo trimestre e a contagem média neste grupo foi de 120 células/mm3.

Após 18 meses, os doentes apenas em TAR tinham uma contagem média de CD4 de 145 células/mm3 (mais 97) e os doentes a tomar IL2 tiveram uma contagem de 168 células/mm3 (mais 107), uma diferença não significativa.

Além disso, a resposta à IL2 variou de modo considerável entre os doentes. Tincati e os colegas dividiram o grupo a tomar o medicamento em 23 (70%) “respondedores” à IL2 e dez (30%) “não respondedores”. Tanto os respondedores como os não respondedores tiveram um aumento das células CD4 em resposta ao primeiro ciclo: um aumento de 161 células/mm3 nos respondedores e de 95 células/mm3 nos não respondedores, o que significa que os não respondedores tinha um aumento inicial muito superior ao observado nos doentes apenas em TAR.

Embora os aumentos das células CD4 fossem mantidos nos respondedores (mais 61 células/mm3 após seis meses e mais 135 células/mm3 após 18 meses a partir do início do ensaio), não foram mantidos nos não respondedores (apenas mais 28 células/mm3 após seis meses e 74 células/mm3 após 18 meses, significando que acabaram por ter contagens de células CD4 ligeiramente inferiores aos doentes apenas em TAR). Os ciclos adicionais de IL2 não provocaram ulteriores aumentos significativos de células CD4 nos não respondedores.

Apesar de tudo, a terapêutica com IL2 aparentemente reduziu de modo considerável o perigo de novas doenças definidoras de SIDA nos primeiros meses de terapêutica. Enquanto que foram diagnosticadas novas doenças definidoras de SIDA em seis doentes (15%) em TAR, tal apenas acontece num doente a tomar IL2 (3%). Embora esta diferença seja estatisticamente significativa por uma curta margem (P=0,06), os investigadores comentaram que “a constatação de uma diminuição da prevalência dos doentes a desenvolverem doenças definidoras de SIDA sugere uma possível eficácia” na estratégia da estimulação do sistema imunitário com IL2, “o que pode traduzir-se em benefícios clínicos mais precoces”.

Referência
Tincati C et al. Clinical effect of interleukin-2 (IL-2) immuno adjuvant treatment in HIV+ advanced naïve patients. Nono Congresso Internacional sobre Terapêutica Medicamentosa no Infecção pelo VIH, Glasgow, Resumo P1, 2008.

Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA