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Etravirina uma vez ao dia como medicamento de primeira linha
Gus Cairns, Thursday, November 27, 2008
Na nona Conferência sobre terapêutica da infecção pelo VIH que decorreu em Glasgow, foi anunciada a utilização do medicamento não nucleósido recém-licenciado, etravirina (TMC 125, Intelence), uma vez ao dia, como suficiente para suprimir a carga viral do VIH em doentes que não apresentem vírus resistentes aos medicamentos desta classe. Actualmente, a dose aprovada é de 2 dois comprimidos de 100 mg, duas vezes ao dia.

Thomas Kakuda da Tibotec, a empresa produtora da etravirina, afirmou em Glasgow, que a média do nível mínimo do fármaco no sangue dos participantes seropositivos do ensaio clínico que tomaram este medicamento uma vez ao dia era 58 a 59 vezes superior ao nível necessário para inibir 50% da replicação do VIH (IC50). Tal pareceu funcionar tão bem quanto a toma duas vezes ao dia na presença de vírus sem resistências, mas serão necessários estudos maiores antes que se possa recomendar a toma única de etravirina.

A etravirina é um medicamento candidato a ser administrado em toma única pois tem uma semi-vida de 30 a 40 horas, de acordo com Kakuda; isto é, o organismo demora 30 a 40 horas a eliminar metade da dose do medicamento. Em estudos anteriores em voluntários seronegativos para o VIH, a quantidade total de exposição do organismo ao medicamento (a área sob a curva ou “area under the curve – AUC”) era semelhante na toma única e na toma duas vezes ao dia.

Verificou-se o nível máximo de concentração da etravirina, quando administrado uma vez ao dia, era 44% mais elevado e a concentração mínima 25% inferior aos níveis observados na toma duas vezes ao dia. Dado que a etravirina deve ser activa contra vírus com resistência moderada aos medicamentos inibidores da transcriptase reversa não nucleósidos, pensa-se que um nível mínimo inferior em 25% ao alcançado com a toma duas vezes ao dia, seja mais do que suficiente para suprimir os vírus sem resistência a esta classe de medicamentos.

Este estudo foi igualmente desenhado para medir os níveis de etravirina alcançados na toma única diária em conjunto com o inibidor da protease da Tibotec, darunavir, Prezista, dado que este medicamento reduz os níveis sanguíneos de etravirina em 37%.

Vinte e três doentes infectados pelo VIH que nunca tinham efectuado terapêutica anti-retroviral e que não apresentavam vírus resistentes aos inibidores da transcriptase reversa não nucleósidos, tomaram etravirina uma vez ao dia em conjunto com uma combinação de tenofovir/FTC (Truvada), durante 14 dias. Posteriormente, juntou-se uma combinação de darunavir/ritonavir (DRV/r) durante 14 dias; finalmente, a etravirina foi interrompida e os doentes continuaram com uma combinação de DRV/r e Truvada.

O grupo de doentes era constituído por 20 homens, sendo que todas as etnias estavam igualmente representadas (nove brancos, nove negros e cinco hispânicos). A média das idades era 36 anos e a carga viral média era de 16 000 cópias/ml.

Os níveis de etravirina no sangue foram medidos ao décimo quarto dia. Neste momento do estudo a média da concentração mínima de etravirina situava-se nos 244 nanogramas por mililitro (ng/ml). Este valor é comparável a 298 ng/ml observado na toma duas vezes ao dia medido no estudo DUET, que combinou etravirina duas vezes ao dia com darunavir. A AUC foi de 10 410 ng/ml por hora, cerca do dobro do observado no estudo DUET, 5 079 ng/ml, o que seria de esperar quando se administra metade da dose duas vezes ao dia.

Os níveis plasmáticos do medicamento foram de novo medidos ao 28º dia, após a introdução de DRV/r. Não se verificou praticamente nenhuma alteração nos níveis de etravirina, com uma concentração mínima de 236 ng/ml e uma AUC de 10 720 ng/ml/h. Observaram-se níveis de darunavir 20% mais elevados em comparação com estudos anteriores que não incluíram etravirina.

A carga viral desceu 1.5 logs nos primeiros 14 dias com a combinação etravirina/Truvada e desceu para 2 logs ao 28º dia, após a introdução de DRV/r. Observou-se uma subida média de 56 células CD4 por mm3. Não se verificaram efeitos secundários graves ou interrupções da medicação; quatro doentes desenvolveram rash, dois deles atribuíveis à etravirina e dois ao darunavir.

“A toma única diária de etravirina mostra, no mínimo, boa actividade nos doentes naive”, comentou Kakuda. “Estes dados farmacocinéticos (absorção do medicamento) suportam a realização de futura investigação de uso de toma única diária”.

Este estudo da Tibotec pode ser uma porta para uma formulação combinada de um regime de toma única diária sem inibidores da transcriptase reversa nucleósidos, como esquema terapêutico de primeira linha, embora esta abordagem contemple duas estratégias, ou seja, regime de toma única diária e regime poupador de medicamentos inibidores da transcriptase reversa nucleósidos com esta combinação terapêutica.

Referência:
Lalezari J et al (presenter Kakuda T). Pharmacokinetics (PK) of once-daily etravirine (ETR) without and with once-daily darunavir/ritonavir (DRV/r) in antiretroviral-naïve HIV-1 infected adults. Ninth International Congress on Drug Therapy in HIV Infection, Glasgow, Abstract O413, 2008

Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA