Quinta-feira 7 de março de 2019

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Infeções pelo VIH baixam 30% em estudo de rastreio e tratamento universal

Richard Hayes apresentando na CROI 2019. Foto de Liz Highleyman.

As comunidades da África Austral que receberam intervenções de rastreio para o VIH e apoio à ligação aos cuidados de saúde porta-a-porta tinham uma incidência significativamente mais baixa de VIH, de acordo o demonstrado por um estudo apresentado na Conferência de Retrovírus e Infeções Oportunistas (CROI 2019).

O estudo PopART mediu qual o impacto na incidência de VIH do rastreio do VIH ao domicílio e ligação aos cuidados de saúde, combinados com a entrega do tratamento antirretroviral nos cuidados de saúde. É o maio estudo sobre prevenção do VIH alguma vez executado, com cerca de um milhão de pessoas nas 21 comunidades urbanas da Zâmbia e África do Sul, onde foi conduzido.

Durante o estudo, os técnicos de saúde comunitária visitaram sistematicamente todas as casas dentro de uma área geográfica e ofereceram teste para o VIH e aconselhamento ao domicílio. As pessoas com testes positivos para o VIH eram referenciadas para clínicas de tratamento de VIH.

Os técnicos de saúde comunitária voltaram às mesmas casas durante todo o ano para fazerem o seguimento das referenciações e oferecer o teste para o VIH para os membros do agregado que estivessem ausentes nas visitas precedentes ou que recusaram o teste. O Professor Richard Hayes, que apresentou os resultados do estudo, enfatizou que este se tratou de um estudo de rastreio, ligação aos cuidados de saúde e tratamento universais – e não só tratamento universal.

Quando comparadas às comunidades a receber serviços de saúde de rotina, as comunidades que receberam testes e apoio ao domicílio, com iniciação do tratamento para o VIH de acordo com as recomendações nacionais, tinham uma incidência de menos 30% da infeção pelo VIH.

Alguns dos resultados do estudo eram menos claros. Um terceiro grupo, que também recebeu apoio para o rastreio e tratamento para o VIH, teve somente 7% de redução na incidência. Os investigadores estão a explorar os detalhes destes dados.

 “A evidência geral de efetividade desta intervenção é forte”, afirmou Hayes. “Os serviços de base comunitária para o teste e ligação aos cuidados de saúde universais são uma componente essencial da prevenção combinada, no esforço global de alcançar a controlo da infeção pelo VIH.”

Redução da Hepatite C em Londres entre HSH com VIH

Lucy Garvey e Daniel Fierer na CROI 2019. Foto de Liz Highleyman.

Os novos casos de hepatite C (VHC) entre homens que têm sexo com homens (HSH) com VIH, acompanhados em três clínicas londrinas, reduziram quase 70% desde 2017, segundo um estudo apresentado na CROI 2019.

A oradora Dr Lucy Garvey afirmou que o declínio se deve principalmente ao rastreio regular do VHC, bem como ao efeito resultante do tratamento como prevenção através do uso alargado da terapia com agentes de ação direta (AAD). A equipa de investigação analisou as tendências na incidência da infeção aguda pelo VHC ente HSH que vivem com VIH entre julho de 2013 e junho de 2018.

Este estudo retrospetivo inclui cerca de 6000 homens com VIH em alto risco para a infeção pela hepatite C acompanhados em clínicas centrais em Londres. A taxa de novas infeções pelo VHC atingiram o pico em 2017, com 17 casos por 1000 pessoas/ano. Seguidamente, as taxas diminuíram de forma abrupta e constante para seis novas infeções e três novas infeções por 1000 pessoas/ano em 2018. De 2013 a 2016, os pacientes começaram a terapêutica do VHC numa média de 23 meses após o diagnóstico. De 2016 em diante, a maioria foi tratada em ensaios clínicos, esperando em média 10 meses.

Contudo, outro estudo apresentado na conferência lança dúvidas sobre a possibilidade de acabarmos com a epidemia do VHC. O estudo New York revelou que os homens gays e bissexuais que se curaram da hepatite C estão a reinfectar-se a uma taxa sete vezes mais alta que a taxa de infeção inicial.

O Descovy não é inferior ao Truvada na PrEP diária

Brad Hare apresentado na CROI 2019. Foto de Liz Highleyman.

Um comprimido diário que contém uma nova formulação de tenofovir em combinação com emtricitabina (Descovy) teve um efeito protetivo comparável ao do comprimido diário já existente que contém o antigo tenofovir e emtracitabina (Truvada), segundo um estudo apresentando na conferência.

A única medicação aprovada para profilaxia pre-exposição oral (PrEP) é uma combinação de tenofovir disoproxil fumarato (TDF) e emtricitabina, comercializado pela Gilead Sciences sob o nome de Truvada, mas também disponível em vários países em versão genérica. O TDF é eficaz e tem poucos efeitos secundários, mas está associado com problemas de rins e ossos em algumas pessoas.

A Gilead desenvolveu uma nova formulação, tenofovir alafenamida (TAF), que tem um risco menor para os problemas ósseos e de rins. Tendo em conta que se trata de um produto recente, está sob proteção de patente e indisponível como genérico. O TAF está incluído em vários comprimidos de combinação para a terapêutica antirretroviral, incluindo o Descovy. Este foi testado para o tratamento do VIH, mas não para o uso como PrEP.

O Dr. Brad Hare, apresentou os resultados do estudo DISCOVER, um ensaio clínico controlado e randomizado para avaliar a eficácia e segurança do TAF/emtricitabina para PrEP entre homens que têm sexo com homens e mulheres transgénero em risco de infeção pelo VIH.

Os 5387 participantes foram recrutados entre setembro de 2016 e maio de 2017 em onze países na América do Norte e América. Os participantes foram randomizados para receber ou TAF/emtricitabina ou TDF/emtricitabina, diariamente.

Quando o estudo terminou em janeiro de 2019, tinham ocorrido 22 infeções pelo VIH. 15 casos parecem dever-se a uma adesão baixa ou mínima. Cinco foram provavelmente infeções que ocorreram mesmo antes de entrar no estudo. Dois homens infetaram-se com VIH, apesar de terem níveis “adequados” de fármaco, um em cada grupo do estudo.

Houve menos infeções no TAF que no TDF, mas a diferença não foi estatisticamente significativa – isto significa que o TAF demonstrou ser “não inferior” ao TDF na prevenção da infeção pelo VIH, mas não superior a este. Como esperado, a nova formulação teve melhores resultados de segurança no que diz respeito aos ossos e rins, apesar das pequenas alterações observadas nos biomarcadores dos ossos e rins durante o estudo poderem não ser clinicamente significativo.

Morte cardíaca súbita é mais comum nas pessoas que vivem com VIH

Zian Tseng e Matthew Freiberg na CROI 2019. Foto de Liz Highleyman.

Dois estudos apresentados na CROI 2019 investigaram a incidência da morte cardíaca súbita em pessoas com VIH. Os investigadores descobriram que as mortes causadas por paragem cardíaca súbita são significativamente mais comuns nas pessoas com VIH que na população geral e que havia maior probabilidade de estar associada à overdose ou falha renal nas pessoas com VIH, bem como uma baixa contagem de CD4 ou carga viral detetável.

A morte cardíaca súbita ocorre quando existe uma disfunção elétrica no coração, depois de um distúrbio no ritmo cardíaco (arritmia). A arritmia pode ser causada por doença ou falha cardíaca, trauma ou overdose. A paragem cardíaca súbita pode ser tartada com um desfibrilhador, para colocar o coração no ritmo, ou através do uso de reanimação cardiopulmonar (RCP).

Um grupo de investigadores analisou as mortes cardíacas súbitas que ocorreram fora do contexto hospitalar no distrito de São Francisco entre 2011 e 2016. Identificaram 47 casos em pessoas que viviam com VOH e 505 em pessoas seronegativas e compraram os dois grupos. O grupo de pessoas com VIH era significativamente mais novo e tinha maior probabilidade de te história prévia de ataque do coração, de ter um diagnóstico psiquiátrico e uso atual de substâncias como o álcool e tabaco.

As autópsias identificaram casos de “overdose oculta” - onde não notório o uso de drogas até à execução da autópsia. Quase um terço das mortes no grupo de pessoas com VIH deveu-se a overdose oculta, comparada com 13% nas pessoas seronegativas. A falha renal foi também uma das causas mais comuns no grupo com VIH (6% vs 1%).

O segundo estudo analisou a morte cardíaca súbita nos militares veteranos dos EUA entre 2003 e 2014. No grupo de estudo de 144 362 veteranos, 43 413 tinham VIH, quase todos do sexo masculino e com idade média de 50 anos.

Havia 777 casos de morte cardíaca súbita no grupo com VIH e os investigadores calcularam que o risco de morte cardíaca súbita era 15% mais alto para as pessoas com VIH, mas somente os que tinham contagem de CD4 baixas (inferiores a 200) ou carga viral detetável.

Em ambos os grupos, alguns estilos de vida aumentavam risco tais como fumar, bem como outros problemas de saúde tais como doença cardíaca, hepatite C e doença pulmonar crónica.

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Tradução disponibilizada por:

GAT – Grupo de Ativistas em Tratamentos

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