Quinta feira, 27 de julho de 2017

Conteúdos

PrEP para adolescentes na África do Sul

Katherine Gill numa apresentação na IAS 2017. Fotografia de Roger Pebody, aidsmap.com

As raparigas adolescentes e jovens mulheres com idades entre os 15 e os 24 anos representam 23% de todas as novas infeções por VIH na África Subsaariana. As mulheres são muito mais vulneráveis à infeção pelo VIH que os seus parceiros do sexo masculino. Enquanto 0,7% dos rapazes adolescentes com idades entre os 15 e os 19 anos vivem com infeção por VIH na África do Sul, o valor equivalente para mulheres é de 5,6%. No grupo etário entre os 20 e os 24 anos, 5,1% dos homens e 17,4% das mulheres vivem com VIH. A prevalência é ainda mais elevada em algumas partes do país.

São urgentemente necessárias na África do Sul novas opções de prevenção que sejam consideradas aceitáveis para os jovens, sobretudo para as mulheres jovens. A profilaxia pré-exposição (PrEP) está a ser considerada como potencial opção em vários países.

Um dos primeiros estudos para explorar a aceitabilidade, segurança e uso da PrEP entre adolescentes em contexto africano concluiu que esta profilaxia era segura e tolerável, embora o uso e adesão à mesma tenha decrescido durante os 12 meses do programa

Na apresentação dos dados do projeto PlusPills na 9ª Conferência da International AIDS Society sobre Ciência do VIH (IAS 2017) em Paris, Katherine Gill, da Desmond Tutu HIV Foundation, afirmou que os adolescentes sul-africanos necessitam de aceder à PrEP beneficiando de um apoio à adesão adaptado às suas necessidades e de mais visitas hospitalares. Horários de dosagem menos frequentes, se aprovados, poderiam ser interessantes para esta população, sugeriu.

Yogan Pillay, do Departamento Nacional de Saúde da África do Sul, afirmou que cinco estudos de demonstração já tinham fornecido dados preliminares sobre como abordar e fornececer PrEP a raparigas adolescentes e mulheres jovens.

A adesão à PrEP varia consideravelmente entre diferentes estudos e contextos sociais, variando de 36 e 98% das pessoas inquiridas. A retenção e adesão também varia consideravelmente, entre 40 e 70% dos participantes relataram um uso continuado de PrEP ou tinham níveis suficientes do medicamento no seu sangue.

A experiência até ao momento vem realçar a necessidade de flexibilidade e adaptabilidade no fornecimento de PrEP oral a mulheres jovens na África do Sul. A diversidade de contextos em que vivem as jovens mulheres significa que a PrEP não pode ser uma ferramenta de prevenção usada de igual forma por todos.

As preocupações sobre os efeitos secundários têm sido um desafio recorrente e um motivo frequente para os jovens descontinuarem a PrEP. Outros motivos relatados para abandonar a toma de PrEP têm sido desgostar do tamanho ou sabor dos comprimidos e dificuldades em tomá-los diariamente.

Pillay afirmou que a formação comunitária é essencial na aceitação e adesão. É preciso tentar reduzir o estigma que existe em relação à atividade sexual dos jovens e legitimar a PrEP como forma de prevenção. Os pais e encarregados de educação são pessoas com grande influência na decisão das raparigas adolescentes aderirem à PrEP.

O governo sul africano espera conseguir distribuir a PrEP através de faculdades e escolas politécnicas, bem como em serviços de planeamento familiar. É necessário trabalho para garantir que os funcionários estão sensibilizados e não estigmatizam os utilizadores da PrEP, afirmou Pillay.

PrEP injetável

Raphael Landovitz na IAS 2017. Fotografia de Liz Highleyman, hivandhepatitis.com

Uma formulação injetável de ação prolongada de cabotegravir administrada a cada 8 semanas produz níveis do medicamento suficientemente elevados em homens e mulheres para fornecer proteção contra a infeção pelo VIH, de acordo com os resultados do estudo HPTN 077 apresentados na conferência. Mas um outro candidato a prevenção injetável, a rilpivirina de ação prolongada, foi abandonado.

A eficácia dos medicamentos antirretrovirais para a profilaxia pré-exposição (PrEP) para a infeção pelo VIH está muito dependente de uma boa adesão. Algumas pessoas poderão achar mais fácil tomar a PrEP de forma consistente se pudessem levar uma injeção a cada um ou dois meses, ao invés de tomarem comprimidos diariamente ou quando planeiam ter relações sexuais.

O estudo HPTN 077 está a analisar a segurança, tolerabilidade e aceitabilidade do cabotegravir injetável de ação prolongada, um inibidor da protease experimental. Sendo um ensaio de fase 2, não foi preparado para avaliar a eficácia da sua capacidade preventiva. Na conferência também foram apresentados dados promissores sobre o cabotegravir de ação prolongada para o tratamento da infeção pelo VIH.

O cabotegravir está a ser administrado a cada oito semanas através de uma injeção intramuscular. O estudo concluiu que as injeções são bem toleradas – apenas um em 199 participantes abandonou o estudo devido a reações no local da injeção.

Embora o estudo HPTN 077 não tenha sido desenhado para avaliar a eficácia da sua capacidade preventiva, nenhum dos participantes contraiu a infeção por VIH enquanto recebia regularmente as injeções. Um participante seroconverteu-se 48 semanas após a última injeção com cabotegravir, quando os níveis do medicamento estavam indetetáveis.

Está a decorrer um estudo de maiores dimensões, o HPTN 083, que compara a eficácia do cabotegravir injetável com o Truvada© oral (tenofovir/emtricitabina) para PrEP.

A produção dos tratamentos de primeira linha para o VIH, hepatites virais e tuberculose não custa mais de 90 dólares – então porquê pagar mais?

Dzintars Gotham numa apresentação na IAS 2017. Créditos: Enzo Poultreniez / http://aides.org

Nos países onde estão disponíveis medicamentos genéricos para a infeção pelo VIH, hepatite B, hepatite C e tuberculose, cada uma destas infeções pode ser tratada por menos de 90 dólares por ano, afirmou à conferência Dzintars Gotham do Imperial College, em Londres.

As conclusões vêm de uma análise dos preços pagos pelos materiais utilizados para produzir os medicamentos para o tratamento de cada uma das infeções e os custos de produção de cada um dos produtos.

A investigação demonstrou que o fornecimento para um ano da combinação antirretroviral de primeira linha com tenofovir, emtricitabina e efavirenz pode ser produzida por 78 dólares, estando o preço de um tratamento para a hepatite C entre os 47 e os 79 dólares.

Embora o custo do tratamento antirretroviral tenha diminuído drasticamente desde que se começaram a produzir versões genéricas dos medicamentos na Índia em 2001, a restrição de patentes impede a disponibilização dos produtos genéricos em todos os países. Ao longo dos próximos anos, começará a ser possível garantir o tratamento de primeira linha para a infeção pelo VIH através de medicamentos genéricos, uma vez que as patentes de alguns dos principais medicamentos usados para tratar a infeção pelo VIH irão expirar.

Para alcançar as metas para o tratamento e supressão viral da infeção pelo VIH, da eliminação da infeção pela hepatite C e redução do fardo da tuberculose e tuberculose resistente à terapêutica, será necessário um grande aumento no número de pessoas tratadas para cada uma destas doenças. Se os países desejarem conseguir pagar programas de tratamento de grandes dimensões para a infeção pelo VIH e hepatites virais, será fundamental reduzir os preços pagos pelos medicamentos.

O tratamento pode tornar-se mais comportável à medida que as patentes expiram e mais países se tornam capazes de obter versões genéricas dos medicamentos usados para tratar a infeção pelo VIH e hepatites virais, afirmam os investigadores. Mesmo nos países onde as patentes ainda estão ativas, ter conhecimento sobre os custos de produção deveria permitir aos governos exigir que as empresas farmacêuticas cobrem preços mais comportáveis, concordaram os oradores num simpósio sobre preços de medicamentos.

Circuncisão médica de homens: benéfica para as mulheres?

Carlos Toledo numa apresentação no IAS 2017. Fotografia de Roger Pebody, aidsmap.com

É consensual que a circuncisão protege os homens da infeção pelo VIH, mas atualmente havia pouca evidência dos benefícios que a circuncisão masculina traria às mulheres. Há mais de uma década, uma metanálise encontrou evidência que sugeria que a circuncisão masculina reduzia diretamente o risco das mulheres se infetarem com VIH.

Todavia, um estudo apresentado na conferência revelou que as mulheres sul-africanas, cujos mais recentes parceiros sexuais foram circuncidados, têm menos probabilidades de estar infetadas pelo VIH, sugerindo que os programas de circuncisão médica voluntária de homens também têm benefícios para as mulheres.

Os estudos demonstram uma redução de risco para o vírus do papilloma humano, ulceras genitais, o vírus do herpes simplex de tipo 2, vaginose bacteriana e Trichomonas Vaginalis nas mulheres cujos parceiros são circuncidados. Isto deve-se provavelmente a alterações na anatomia do parceiro masculino, tornando a transmissão menos provável.

Porém, no caso do VIH, é mais provável que a circuncisão masculina possa beneficiar as mulheres, reduzindo a prevalência do VIH nos homens que forma circuncidados.

O novo estudo envolveu homens e mulheres de KwaZulu-Natal, na África do Sul, e revelou que as mulheres cujos parceiros recentes eram circuncidados tinham taxas mais baixas de infeção pelo VIH (42%), que as mulheres cujos parceiros não eram circuncidados (54%). Para controlar outros fatores, uma análise dos resultados demonstrou que as mulheres com parceiros circuncidados tinham menos 30% de probabilidade de estarem infetadas pelo VIH. Também tinham menos probabilidades de ter o vírus do herpes simplex de tipo 2.

Efeitos secundários de medicamentos usados com frequência

O tenofovir disoproxil é um dos antirretrovirais mais frequentemente usados no mundo atualmente. Efeitos secundários raros, porém sérios, deste medicamento têm o potencial de afetar um número substancial de pessoas por causa do seu uso global.

Os médicos precisam de monitorizar com regularidade a função renal das pessoas, se estas estiverem a tomar tenofovir, especialmente se combinado com ritonavir, conforme foi afirmado na conferência esta semana.

O Dr. Nicholas Medland da Monash University em Melbourne, na Austrália, afirmou durante a conferência que a síndrome de Fanconi é “incomum, mas não rara”, com 1.25% (um em 80) das pessoas no seu estudo a desenvolveram-na num período de dez anos. Pode aparecer de forma inesperada em pessoas com nenhuma característica ligada à doença renal.

Em alguns estudos o tenofovir também foi associado à perda óssea. No entanto, Dominique Costagliola da agência nacional francesa de investigação médica, INSERM, afirmou que não tinha encontrado nenhuma associação entre o tenofovir, ou outro medicamento para o VIH, e o risco de fraturas ósseas do tipo que é associado com a baixa densidade mineral óssea.

Nova opção para primeira linha de tratamento: doravirina

Kathleen Squires no IAS 2017. Foto de Liz Highleyman, hivandhepatitis.

Um regime de comprimido único, contendo um inibidor não-nucleósidos da transcriptase reversa (INNTR) da próxima geração, a doravirina, reduziu a carga viral do VIH ao mesmo nível que um coformulação baseada em efavirenz, porém, teve um perfil de efeitos secundários mais favoráveis, de acordo com os resultados do estudo DRIVE-AHEAD, apresentado na conferência.

As primeiras linhas de terapêutica antirretroviral atuais são seguras e altamente eficazes. Nos últimos anos, os inibidores da integrase substituíram de forma global os INNTR como primeiro tratamento. Porém, ter múltiplos medicamentos potentes e bem tolerados de diferentes classes antirretrovirais permite mais opções para terapêuticas individualizadas.

A doravirina, um INNTR a ser desenvolvido pela Merck, tem um perfil de resistências único e tem atividade contra a infeção do VIH com resistências comuns, incluindo a mutação K103N. Pode ser tomado com ou sem comida e tem pouco potencial de interação com outros medicamentos.

O estudo DRIVE-AHEAD demonstrou que ao final de 48 semanas em tratamento, 84% das pessoas no braço da doravirina do estudo e 81% no braço do efevirenz tinha carga viral indetetável, revelando que a nova coformulação era não-inferior. As pessoas que tomaram a doravirina tinham menos probabilidades de experimentar efeitos secundários do sistema nervoso central, tais como, tonturas, distúrbios de sono e depressão.

Tratamento para a coinfecção com hepatite C: uma nova opção pangenotípica

Karine Lacombe no IAS 2017. Foto de Steve Forrest/Workers' Photos/IAS

O novo regime pangenotípico da AbbVie que combina o glecaprevir e o pibrentasvir curou o vírus da hepatite C (VHC) em quase todos os participantes coinfetados com VIH e VHC no estudo EXPEDITION-2, de acordo com um estudo apresentado na conferência.

O tratamento foi altamente eficaz, com 98% das pessoas a manterem indetetável o RNA do VHC 12 semanas após o tratamento (SVR12).

Espera-se que o Glecaprevir/pibrentasvir (Maviret©) seja aprovado pela Food and Drug Administration (E.U.A.) em agosto. Este recebeu opinião positiva da comissão científica da Agência Europeia do Medicamento (o CHMP), e deve receber autorização de comercialização na União Europeia nos próximos meses.

“Estes resultados sugerem que o regime com glecaprevir/pibrentasvir pode ser a primeira opção de tratamento pangenotípica de 8 semanas para pacientes coinfetados com VHC/VIH-1 sem cirrose”, concluíram os investigadores.

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