Terça feira, 1 de novembro, 2016

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Os novos 90-90-90: 90$-90$-90$

Andrew Hill discursando na Conferência Terapêutica para o VIH de Glasgow. Foto de: HIV Drug Therapy Glasgow 2016

A infeção pelo VIH, hepatites virais e tuberculose (TB) podem ser tratadas individualmente com um custo anual de apenas 90 dólares americanos, disse o Dr. Andrew Hill na Conferência Internacional sobre a Terapêutica do VIH 2016 (VIH Glasgow), que teve lugar entre 23 e 26 de outubro em Glasgow, no Reino Unido.

O preço de um tratamento para a tuberculose com a duração de seis meses já é inferior a 90$ e algumas combinações antirretrovirais que usam medicamentos genéricos em contextos de baixos recursos já têm um valor inferior a 90$ por ano.

Também o custo dos tratamentos para a hepatite B e hepatite C tem vindo a diminuir. O custo de uma terapêutica eficaz para a hepatite B poderá descer para valores inferiores a 90$ em 2017 e será possível produzir sofosbuvir/ledipasvir para o tratamento da hepatite C a um valor inferior a 96$ para um tratamento de 12 semanas.

Vários pilares da terapêutica para a infeção pelo VIH perderão brevemente a patente, o que significa que estarão disponíveis versões genéricas mais baratas.

O efavirenz e a lamivudina já perderam a patente e as do abacavir/lamivudina e ritonavir/lopinavir terminarão no final deste ano. Em 2017, a emtricitabina e o tenofovir perderão a patente, seguindo-se o atazanavir/ritonavir em 2018 e o darunavir em 2019.

Mas o Dr. Hill alertou para o facto de poucos decisores políticos ou responsáveis pela compra de medicamentos antirretrovirais na Europa estarem cientes de quão baixos podem ser os custos de produção dos genéricos.

“São poucos os serviços nacionais de saúde que conhecem estes custos. Necessitamos de maior transparência em relação aos preços, algo que terá um efeito de cascata em várias áreas terapêuticas”, afirmou.

A eliminação de doenças – seja o VIH, hepatites virais ou TB – só é exequível se os medicamentos estiverem acessíveis a baixos preços, dentro dos orçamentos de saúde dos países, afirmou o Dr. Hill. As atuais metas globais para a eliminação destas doenças não serão atingidas sem redução de preços e a disponibilização de um leque cada vez maior de medicamentos genéricos para tratar a infeção pelo VIH irá pôr em causa os preços cobrados pelos medicamentos de marca, concluiu.

Novas estratégias de tratamento: terapêutica dupla é altamente eficaz

Roberta Gagliardini discursando na Conferência Terapêutica para o VIH de Glasgow. Foto de: HIV Drug Therapy Glasgow 2016

Um regime de dois medicamentos consistindo num inibidor da protease potenciado com ritonavir e lamivudina é altamente eficaz entre pessoas com carga viral indetetável que abandonaram o regime tradicional de três medicamentos.

Entre as vantagens de uma terapêutica simplificada incluem-se os preços mais baixos e um menor risco de efeitos secundários, uma vez que os regimes excluíram o tenofovir, medicamento que pode causar alterações na função renal e perda óssea.

Os estudos, conduzidos quer contextos com maiores e menores recursos, demonstraram as potenciais vantagens do regime composto por dois medicamentos.

Os doentes de Itália que conseguiram uma supressão viral duradoura com a combinação tradicional de três medicamentos foram divididos aleatoriamente para tomar ou um regime simplificado composto por atazanavir/ritonavir com lamivudina ou atazanavir/ritonavir com dois inibidores nucleósidos da transcriptase reversa (ITRN). Após dois anos, as pessoas a tomar a terapêutica dupla tinham uma taxa de falha terapêutica significativamente inferior se comparadas com aquelas que tomavam as combinações de três medicamentos; as pessoas sob terapêutica dupla também estavam menos propensas a ter um aumento da carga viral continuada (1 vs. 7%). A função renal estava ligeiramente melhor entre pessoas a tomar o regime simplificado.

De forma semelhante, um estudo separado demonstrou a eficácia do regime composto por um inibidor da protease potenciado/lamivudina. As pessoas que estavam sob uma terapêutica de segunda linha estável foram divididas aleatoriamente para tomar ou um inibidor da protease potenciado com ritonavir mais lamivudina ou uma monoterapia com apenas um inibidor da protease potenciado com ritonavir. Os resultados davam uma clara vantagem à combinação de dois medicamentos. Após 48 semanas, 3% das pessoas sob a terapêutica dupla tinham sofrido uma falha virológica, valor próximo de um quarto entre aqueles que tomavam a monoterapia. Os aumentos da contagem CD4 também favoreceram a combinação de dois medicamentos.

Um terceiro estudo demonstrou que a simplificação do tratamento com a combinação de darunavir/ritonavir e lamivudina era tão eficaz quanto manter o tratamento com um regime de três medicamentos de darunavir/ritonavir e dois nucleósidos. O darunavir/ritonavir é o único inibidor da protease potenciado que é recomendado como opção preferida nas orientações dos Estados Unidos da América e da European AIDS Clinical Society.

Após 48 semanas, 89% das pessoas divididas aleatoriamente no regime duplo tinham uma carga viral inferior a 50 cópias/ml, tendo o mesmo ocorrido em 93% das pessoas no grupo do regime triplo. Não existiram diferenças significativas em termos de efeitos secundários nos dois braços do estudo.

Uma outra investigação demonstrou a eficácia de uma combinação de um inibidor de fusão experimental e um inibidor da protease potenciado.

O albuvirtide, um inibidor de fusão, está atualmente sob desenvolvimento na China e é doseado através de uma infusão semanal. Os participantes no estudo foram divididos aleatoriamente para tomar o medicamento experimental em combinação com um inibidor da protease potenciado ou para tomar o tradicional regime de três medicamentos. Após 48 semanas, 80% das pessoas a tomar o inibidor de fusão tinham carga viral indetetável, algo que aconteceu com dois terços das pessoas a tomar a terapêutica tripla.

O albuvirtide foi bem tolerado, com apenas alguns efeitos secundários leves. Este está a ser desenvolvido para ser uma opção de tratamento de baixo custo para tratamento de segunda ou terceira linha na China. O fabricante Frontier Biotechnologies afirma estar a trabalhar numa formulação injetável subcutânea e está interessado em trabalhar com outras empresas no desenvolvimento de antirretrovirais injetáveis para testar uma combinação de medicamentos injetáveis.

Dolutegravir e efeitos secundários no sistema nervoso central

Romina Quercia discursando na Conferência Terapêutica para o VIH de Glasgow. Foto de: HIV Drug Therapy Glasgow 2016

A taxa de efeitos secundários no sistema nervoso central (SNC) relacionados com o dolutegravir observados na prática clínica de rotina são muito superiores aos observados nos ensaios clínicos.

O dolutegravir (Tivicay®, também combinado com abacavir/lamivudina no Triumeq®) é um inibidor da integrase de segunda geração e é recomendado para terapêutica de primeira linha. O medicamento tem também um bom perfil em termos de efeitos secundários e, nos ensaios clínicos que conduziram à aprovação do medicamento, foram observadas taxas muito baixas de efeitos secundários no SNC (insónia, perturbações no sono, depressão e outros problemas de humor).

Mas médicos na Alemanha concluíram que, num período de 12 meses, 5,6% dos seus doentes interromperam a toma do medicamento devido a efeitos secundários no SNC, valores muito superiores aos observados em outros inibidores da integrase.

Os problemas mais reportados foram insónias e perturbações no sono. Um número menor de pessoas também reportou sentir tonturas, dores de cabeça, sensação de agulhas ou alfinetes na pele, depressão e diminuição da concentração ou pensamento lento.

As mulheres, pessoas mais velhas e pessoas a tomar o medicamento com abacavir tinham uma maior probabilidade de sofrer efeitos secundários no SNC.

Investigadores da ViiV Healthcare, fabricante do medicamento, voltaram a analisar os dados sobre efeitos secundários no SNC dos ensaios clínicos do dolutegravir. Estes estudos envolveram mais de 2 500 pessoas, estando aproximadamente metade a tomar dolutegravir.

Foram observadas baixas taxas de episódios no SNC em quase todos os braços do estudo, sendo que a maioria dos episódios eram leves. Os valores de efeitos secundários no SNC que conduziram à interrupção da terapêutica eram inferiores a 5% em todos os estudos.

Porém, houve um estudo no qual até 17% das pessoas a tomar dolutegravir relataram um ou mais efeitos secundários no SNC, mas este valor era ainda assim inferior ao observado n efavirenz, o medicamento com o qual foi feita a comparação.

PrEP comprada online: nenhum medicamento falsificado e bons níveis no sangue

Nneka Nwokolo discursando na Conferência Terapêutica para o VIH de Glasgow. Foto de: HIV Drug Therapy Glasgow 2016

Graças a um estudo conduzido em Londres, as pessoas que compram online a profilaxia pré-exposição (PrEP) com tenofovir/emtricitabina podem ter maior segurança no facto de estarem a comprar o medicamento correto.

O acesso à PrEP no SNS inglês está gravemente limitado, sendo também este o caso da maioria dos países europeus. Contudo, uma clínica sexual de Londres disponibilizou a monitorização gratuita para as pessoas que compram online a terapêutica de prevenção do VIH. Na monitorização inclui-se a verificação de versões deturpadas e a realização de análises sanguíneas para garantir que os níveis do medicamento no sangue são adequados para a proteção da infeção pelo VIH. Também foram oferecidos aos clientes check-ups de saúde sexual.

Os investigadores monitorizaram mais de 200 pessoas. Concluíram que os níveis do medicamento eram adequados em todas as pessoas a tomar versões genéricas do tenofovir/emtricitabina e não foram observadas infeções pelo VIH.

Bons resultados com antiviral de ação direta genérico para hepatite C

Versões genéricas de antivirais de ação direta (AAD) para o tratamento da hepatite C estão agora a ser fabricados na Índia, Bangladesh e Egito. Estes produtos genéricos são fabricados sob acordos de licenciamento voluntário ou em locais onde não se aplicam restrições de patentes. Embora os produtos sejam fabricados por empresas conhecidas por fabricarem medicamentos genéricos de alta qualidade e que são comprados pelo Global Fund to Fight AIDS, TB and Malaria, nenhum dos medicamentos para a hepatite C foi avaliado pela Organização Mundial de Saúde (aquilo a que se chama pré-qualificação).

Estes AAD genéricos não podem ser comprados por Governos ou hospitais em países onde se aplicam as patentes, mas podem ser importados de forma legal por pessoas que os encomendem online ou que os comprem pessoalmente fora dos seus países. As combinações de AAD genéricos estão a ser compradas a um preço entre 700 e 900 dólares para um tratamento de 12 semanas.

Investigações apresentadas na Conferência Terapêutica para o VIH de Glasgow vêm garantir que estes produtos genéricos são eficazes e têm taxas de cura semelhantes às observadas em pessoas que fizeram o tratamento com os medicamentos de marca.

Os estudos avaliaram os resultados virológicos em pessoas que obtiveram os AAD através da ajuda de clubes de compradores na Austrália, Sudeste Asiático e Europa de Leste. Às pessoas que obtiveram a medicação através destes canais foi pedido que fornecessem dados virológicos, de forma a acompanhar a proporção de pessoas que atingiram uma resposta virológica sustentada (RVS) ao tratamento.

O maior conjunto de dados, de pessoas que obtiveram a sua medicação através do FixHepC Buyer’s Club, reportou os resultados RVS12 de 283 pessoas. Oitenta e sete por cento das pessoas que tomaram sofosbuvir/ledipasvir atingiram RVS12 e o mesmo aconteceu com 81% das pessoas que tomaram sofosbuvir/daclatasvir. As taxas de cura foram inferiores entre aqueles que tomaram sofosbuvir/daclatasvir por ser a combinação tomada por pessoas com genótipo 3, mais difícil de tratar.

Foram menos as pessoas que atingiram as 12 semanas após o tratamento entre aqueles que usaram os clubes de compradores do Sudeste Asiático e da Rússia, mas as taxas de cura em ambos os grupos foram elevadas.

As pessoas no Sudeste Asiático e Europa de Leste curaram a hepatite C a um custo entre 700 e 900$.

Envelhecer com VIH: necessidades médicas são mais complexas

Edouard Battegay discursando na Conferência Terapêutica para o VIH de Glasgow. Foto de: HIV Drug Therapy Glasgow 2016

Dois estudos demonstraram a complexidade das necessidades médicas das pessoas mais velhas que vivem com VIH.

Graças às melhorias nos tratamentos e cuidados de saúde, a maior parte das pessoas que vivem com VIH nos países mais ricos têm agora uma esperança média de vida normal ou próxima da normal. Mas muitas vivem com problemas de saúde crónicos.

Investigadores na Suíça concluíram que as comorbilidades em pessoas que vivem com VIH tendem a agrupar-se. Por exemplo, há uma sobreposição entre a infeção pelo VIH, depressão e dor, entre a infeção pelo VIH, depressão e não adesão à terapêutica ou entre a infeção pelo VIH, hipertensão arterial e doença cardiovascular.

Uma investigação francesa também revelou um peso considerável de doenças com as quais se deparam muitas das pessoas que vivem com VIH de meia idade ou mais velhas.

Os médicos analisaram os perfis clínicos de mais de 2 000 pessoas em 2004 e novamente em 2014. Os marcadores relacionados com o VIH, a carga viral e a contagem CD4 melhoraram no período de mais de dez anos.

No entanto, houve um aumento significativo na proporção de pessoas com problemas associados ao envelhecimento, tais como fraturas, doença cardiovascular, hipertensão arterial e diabetes. Uma proporção significativa das pessoas estava a tomar medicação para controlar estes problemas de saúde. Um quinto dos indivíduos foram avaliados como tendo um elevado risco de ataque cardíaco nos cinco anos seguintes e 50% foram avaliados como tendo um elevado risco de doença renal.

No total, estas conclusões demonstram que é necessária uma abordagem multidisciplinar nos cuidados de saúde das pessoas que vivem com VIH e que o risco de comorbilidades deve ser tido em conta na escolha de regimes terapêuticos antirretrovirais.

Lipodistrofia sem consequências de saúde a longo prazo

Esteban Martinez discursando na Conferência Terapêutica para o VIH de Glasgow. Foto de: HIV Drug Therapy Glasgow 2016

Um estudo de 20 anos demonstrou que as pessoas que desenvolveram lipodistrofia – uma anormal perda ou ganho de gordura – causada por medicamentos antirretrovirais mais antigos tiveram melhores resultados de saúde a longo prazo que as pessoas que não desenvolveram este efeito secundário.

A lipodistrofia foi reconhecida como efeito secundário da terapêutica para a infeção pelo VIH pouco tempo após os tratamentos potentes terem ficado disponíveis em meados da década de 90. Os medicamentos da classe ITRN (inibidores nucleósidos da transcriptase reversa), especialmente o estavudina (d4T), didanosina (ddI) e zidovudine (AZT®), foram eventualmente identificados como a principal causa. O aumento de gordura (lipo-hiperatrofia) estava associada ao tratamento com inibidor de protease em combinação com dois ITRN.

Investigadores em Espanha estavam preocupados com a possibilidade de os efeitos secundários poderem conduzir a problemas de saúde a longo prazo. Por isso, monitorizaram aproximadamente 500 pessoas que iniciaram a terapêutica antirretroviral tripla entre 1996 e 1999, tendo as taxas de mortalidade como principal foco.

No total, 46% das pessoas desenvolveram lipodistrofia. As taxas de mortalidade anuais foram inferiores entre pessoas com lipodistrofia, se comparadas com os doentes sem lipodistrofia (1 vs. 2%). As pessoas com lipodistrofia também tinham uma probabilidade inferior de desenvolver um novo episódio de SIDA (1,5 vs. 2,88%).

Porém, as pessoas com lipodistrofia tinham maior probabilidade de desenvolver hipertensão arterial e também de ter gordura no sangue. O risco de doença cardiovascular aumentou ligeiramente nesta população. Mas a doença hepática grave, fraturas e problemas neurocognitivos foram menos comuns entre pessoas com lipodistrofia.

O estudo demonstrou que a adesão à terapêutica antirretroviral teve benefícios a longo prazo, mesmo sendo a lipodistrofia um efeito secundário muito angustiante e estigmatizante.

Novo site: About HIV / Pro VICH

Foi lançado na Conferência Terapêutica para o VIH de Glasgow um novo site (About HIV / Pro VICH) para pessoas que vivem com VIH na Europa de Leste e Ásia Central. O site inclui folhetos sobre assuntos chave relacionados com o VIH, atualmente disponíveis em arménio, inglês, georgiano, cazaque, russo e ucraniano.

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Tradução disponibilizada por:

GAT – Grupo de Ativistas em Tratamentos

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