Quarta-feira, dia 27 de julho de 2016

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Simplificar o tratamento e os cuidados aumenta a retenção tratamento e a toma de medicamentos

MSF Community Adherence Club KwaZulu-Natal. Foto de Greg Lomas / Scholars and Gentlemen / Médecins sans Frontières

Uma pesquisa desenvolvida na África Austral demonstrou que a simplificar os cuidados de saúde e o apoio à adesão podem aumentar as taxas de retenção no tratamento.

Na conferência, diversos palestrantes confirmam que iniciativas para reduzir as dificuldades na procura de cuidados de saúde são decisivas para melhorar a capacidade dos sistemas de saúde gerirem um número crescente de utentes. A nova vaga de intervenções – descritas nas linhas de orientação como ‘cuidados diferenciados’ – pretende reduzir o número de consultas, os tempos de espera e os requisitos de monitorização.

Um estudo demonstrou que a alteração das consultas de seguimento para uma vez por semestre (em vez de uma consulta mensal ou trimestral) não apenas manteve a adesão à consulta, como só em 2014 se evitaram mais de 30 000 consultas num distrito do Malawi. Das pessoas que mudaram para uma consulta semestral apenas 3% foi perdido no seguimento comparando com os 35% entre os outros doentes.

No Uganda e no Quénia, outro estudo demonstrou que a simplificação dos cuidados de saúde resultou numa diminuição substancial do tempo das consultas. As pessoas que participaram na investigação passaram apenas uma hora na clínica, enquanto as pessoas nos cuidados de rotina passaram em média 2,5 horas.

Um estudo conduzido na Swazilândia recrutou com sucesso indivíduos para participar em programas comunitários, tais como clubes de adesão, programas de proximidade e esquemas comunitários de toma antirretroviral (TAR), os quais tiveram excelentes taxas de frequência. As pessoas que acediam a estes serviços tinham uma contagem elevada de células CD4 e faziam a toma de ARV há muitos anos.

90-90-90: a ligação lenta aos cuidados de saúde significa que os programas de "testar e tratar" falham o objetivo

Prof. François Dabis apresenta os resultados do estudo ANRS 12249 na AIDS 2016. Foto de International AIDS Society/Abhi Indrarajan

De acordo com um estudo apresentado na Conferência Internacional de SIDA um programa alargado de ‘testar e tratar’ não obteve um impacto significativo na taxa de novas infeções

O objetivo da UNAIDS 90-90-90 exorta os países a aumentar a despistagem e o tratamento do VIH. Os objetivos para 2020 são: diagnosticar 90% das pessoas que vivem com VIH; que 90% das pessoas diagnosticadas esteja sob tratamento antirretroviral; e que 90% das pessoas sob tratamento tenha uma carga viral indetetável.

O estudo ANRS 12249, conduzido em KwaZulu-Natal, África do Sul, pretendia verificar se um programa de ‘testar e tratar’ podia diminuir a taxa de novas infeções. Começou em 2012 e recrutou mais de 28 000 pessoas. Aproximadamente um terço dos participantes já sabia que era seropositivo para a infeção pelo VIH e, destes, um terço já estava sob terapêutica antirretroviral.

O programa alcançou o primeiro dos objetivos da estratégia 90-90-90, tendo diagnosticado 92% de pessoas que vivem com VIH. Mas apenas 46 a 49% das pessoas diagnosticadas começou a fazer terapêutica antirretroviral, muito abaixo dos esperados 90%. Apesar disto, 93% das pessoas sob tratamento, alcançou a supressão viral.

A pouca adesão à TAR significa que a intervenção não teve impacto significativo na taxa de novas infeções, que foi de cerca de 2%.

Uma prioridade imediata é descobrir por que as pessoas diagnosticadas com VIH não estão a ter acesso aos cuidados de saúde.

Teste para o VIH: acesso fácil a autotestes aumenta a taxa de despistagem entre homens gay

Muhammad Jamil discursando na AIDS 2016. Foto de Roger Pebody, www.aidsmap.com

Um estudo levado a cabo na Austrália demonstrou que o fácil acesso aos kits de autoteste para o VIH duplicou a taxa de despistagem entre homens gay, com taxas especialmente aumentadas entre homens que se testavam com pouca frequência.

O estudo randomizado envolveu homens gay e bissexuais com um historial recente de sexo anal sem utilização de preservativo ou um número elevado de parceiros sexuais.

Os participantes foram randomizados em dois grupos. Os participantes do grupo intervencionado receberam quatro Kits de autoteste para o VIH e podiam pedir mais se quisessem. O número de kits era suficiente para fazer o teste com intervalos entre os três e os seis meses, a frequência recomendada para testar homens com um risco mais elevado de contrair a infeção pelo VIH.

Os homens nos braços de controlo do estudo tinham acesso ao teste do VIH através dos serviços usuais e só recebiam o auto teste após um ano.

Os homens a quem foram dados os kits de auto teste testaram-se em média quatro vezes por ano comparando com duas vezes por ano entre os homens do braço de controlo.

Para os homens que se testavam menos frequentemente o acesso foi associado a um aumento quatro vezes superior comparando com os cuidados padrão.

No Reino Unido um estudo vai recrutar 10 000 homens para verificar se o autoteste aumenta as taxas de diagnóstico e a ligação aos cuidados de saúde.

PrEP: estudo aborda as preocupações sobre efeitos secundários

Craig Wilson discursando na AIDS 2016. Foto de Liz Highleyman, hivandhepatitis.com

A Profilaxia pré-Exposição (PrEP) com tenofovir/emtricitabina (Truvada) está associada a uma modesta descida da densidade mineral óssea, mas estabiliza após um ano de tratamento e regride uma vez que se para a PrEP, de acordo com novas investigações .

Se for feita corretamente a PrEP pode reduzir significativamente o risco de uma pessoa se infetar com o VIH. O tratamento é considerado seguro, mas o tenofovir pode causar perda de massa óssea e diminuição da função renal. Por isso é importante estabelecer o risco de perda de massa óssea e de danos renais associados à PrEP e devem ser desenhadas estratégias de monitorização.

Os investigadores desenharam um estudo envolvendo homens gay seronegativos para o VIH e outros com um risco mais elevado de contrair a infeção pelo VIH.

Exames regulares demonstraram que a densidade mineral desce ligeiramente durante os seis primeiros meses de PrEP, mas estabiliza pelo décimo segundo mês. A análise dos participantes que pararam o tratamento demonstrou que subsequentemente os níveis de densidade mineral óssea retornam aproximadamente aos níveis anteriores ao tratamento

Outro estudo demonstrou que a PrEP não teve um impacto significativo na função renal. Menos de 1% dos participantes no estudo teve uma descida significativa da função renal durante os doze meses da terapêutica

As conclusões são tranquilizadoras e apoiam as recomendações que as pessoas sob PrEP só devem fazer a monitorização da função renal duas vezes por ano.

Com uma eficácia potencial de mais de 90%, os benefícios da PrEP claramente superam os riscos para os indivíduos em risco de contrair a infeção pelo VIH.

Tratamento do VIH: uma combinação de dois fármacos demonstrou ser eficaz como terapia de primeira linha

Pedro Cahn discursando na AIDS 2016. Foto de Liz Highleyman, hivandhepatitis.com

Uma combinação de dois fármacos conseguiu suprimir o  VIH de forma sustentada em pessoas em início de terapia.  Um pequeno estudo piloto demonstrou que o tratamento com um inibidor da integrasse, dolutegravir, e um inibidor nucleósido da transcriptase reversa (INTR), lamivudina, pode suprimir e manter a carga viral em níveis indetetáveis.

Tradicionalmente a terapêutica para o VIH é composta por três fármacos. Reduzir o número de fármacos combinados pode potencialmente reduzir os efeitos secundários, a quantidade de comprimidos e os custos para os sistemas de saúde.

Os investigadores recrutaram 20 pessoas em início de terapêutica pela primeira vez que tinham cargas virais abaixo das 100 000 cópias/ml.

Os autores do estudo apresentaram os resultados das 48 semanas. O tratamento foi tão potente como a TAR com três fármacos. A maioria do participantes tinha carga viral indetetável após três semanas sob terapêutica e todos estavam indetectáveis à oitava semana. À 48ª semana , uma pessoa tinha tido aumento da carga viral e outro cometido suicídio, perfazendo assim uma taxa de resposta viral de 90%.

Forma registados alguns efeitos secundários. O suicídio não estava relacionada com a terapêutica. O participante que teve aumento de carga viral deixou o estudo, mas manteve-se no regime de dois fármacos e atingiu posteriormente controlo viral.

Tratamento do VIH: raltegravir uma vez ao dia para pessoas em início de TAR

Uma nova formulação do inibidor de integrase raltegravir tomada uma vez ao dia demonstrou segurança e eficácia em pessoas que iniciam TAR.

A formulação existente deste fármaco é tomada duas vezes ao dia, uma desvantagem potencial, já que a maioria dos antirretrovirais é tomada uma vez ao dia.

A investigação envolveu aproximadamente 800 pessoas que estavam em início de TAR pela primeira vez. Foram distribuídos de forma aleatória ora para tomar a formulação existente de raltegravir (400mg duas vezes ao dia), ora para a nova formulação de comprimidos de 600mg uma vez ao dia.  O raltegravir foi tomado em combinação com outros antirretrovirais.

Depois da 48ª semana, 90% dos participantes em ambos os grupos do estudo tinham carga viral indetetável.

Cerca de um quarto dos participantes em ambos os grupos de tratamentos experimentaram efeitos secundários. Cerca de 1% dos que estavam a tomar raltegravir uma vez ao dia e 2% dos que estavam a fazê-lo duas vezes ao dia descontinuaram a terapêutica.

Os reguladores de medicamentos dos EUA e europeus vão considerar a aprovação desta nova formulação.

Opção B+: é necessário fazer mais

Elsa de Mozambique. Foto de Médecins sans Frontières. Legenda: ‘O meu bebé precisa que eu tome medicamentos para o VIH todos os dias, mas eu não posso andar 5 horas todos os meses para os obter.’

Apesar da implementação da Opção B+ (acesso à TAR permanente para mulheres grávidas ou amamentar), as mulheres infetadas pelo VIH que recentemente deram à luz ainda têm um elevado risco de morte ou descontinuar os cuidados de saúde, segundo uma investigação da África do Sul e Botswana.

A adesão à terapêutica e a ida às consultas de seguimento pode ser um desafio para as mulheres com VIH em países com recursos limitados.

Uma investigação conduzida na África do Sul demonstrou uma alta incidência de falência do tratamento para o VIH em puérperas. As mulheres que foram recrutadas quando estavam grávidas para o estudo também tinham um risco alto de abandonarem o tratamento para o VIH.

Outra investigação conduzida no Botswana demonstrou que as mulheres com VIH tinham cinco vezes mais probabilidades de morrer depois de dar à luz que os seus pares seronegativos para o VIH, independentemente da TAR ou contagem de CD4.

Nos 24 meses pós-parto, a taxa de mortalidade era cinco vezes mais alta em mulheres seropositivas para o VIH quando comparadas com mães recentes seronegativas.

A análise da mortalidade entre as mães infetadas pelo VIH demonstrou que a maioria das mortes (59%) ocorreu em mulheres que estava sob TAR.

Os investigadores pensam que uma monitorização clínica mais próxima pode ser a chave para melhorar os resultados nas parturientes infetadas pelo VIH.

Outro estudo demonstrou que várias intervenções melhoravam significativamente a assiduidade nas consultas de seguimento entre as mulheres grávidas e mães recentes com VIH.

As intervenções incluíam consultas telefónicas, visitas domiciliárias, agendas de registo de assiduidade e cartões de agendamento de consultas.

Ao longo de seis meses, a retenção nos cuidados de saúde melhorou 8% nas mulheres, enquanto que a retenção nos cuidados de saúde aumento para 20% nas crianças expostas ao VIH, que também tinham maior probabilidade de lhes ser prescritas terapêuticas profiláticas que potencialmente salvam vidas.

TAR precoce: mães recentes querem mais tempo para pensar

Judith Currier na AIDS 2016. Foto de International AIDS Society/Steve Forrest/Workers' Photos

Um terço das mulheres que vivem com VIH com contagens altas de CD4 recusaram o início de TAR pós-parto. A investigação foi conduzida numa ampla variedade de contextos de cuidados de saúde, abrangendo contextos de rendimentos alto, médios e de recursos limitados.

Cerca de 1600 mulheres grávidas que vivem com VIH foram recrutadas para o estudo, todas com contagens altas de CD4, que receberam TAR durante a gravidez. Foram distribuídas aleatoriamente para continuar ou parar a TAR pós-parto.

Os resultados demonstram que as mulheres que continuaram a TAR tinham risco reduzido de doenças leves relacionadas com VIH num período de seguimento de 2,3 anos quando comparadas com aquelas que descontinuaram a terapêutica. Um quarto das mulheres que mantiveram a terapêutica teve falha virológica.

Foi proposto o inicio da TAR a todas as mulheres assim que  os resultados do estudo START demonstraram a importância da terapêutica precoce para o VIH. Porém, um terço recusou o tratamento. Algumas das razões para a recusa da terapêutica foram a necessidade de mais tempo para pensar, estar de boa saúde ou ter uma contagem alta de CD4.

O mapeamento da epidemia de VIH pode ser a chave para a prevenção de novas infecções

Imagem da apresentação de Travis Sanchez.

Perceber a geografia das epidemias locais de pode ajudar ao desenvolvimento de intervenções de prevenção eficazes.

Investigadores de vários contextos dos cuidados de saúde apresentaram na conferencia as formas como usaram mapas para perceber a geografia local de modo a melhorar os serviços para o VIH.

Em Chicago, o mapeamento revelou aglomerados inesperados de infeções pelo VIH.  Dados do censo foram usados para planear campanhas de rastreio porta-a -porta em Filadélfia. No Alabama, foram identificadas algumas áreas de alta prevalência de VIH como sendo mal servidas por profissionais dos cuidados de saúde, permitido o direcionamento de recursos adequados e inovadores. O mapeamento em Atlanta revelou a interação entre a epidemia do VIH e a pobreza, com pontos de alta incidência e áreas de baixa supressão viral que foram identificados como distritos sem estruturas de cuidados saúde locais e com baixa taxas de veículos privados.

Investigações conduzidas no KwaZulu-Natal indicam que a incidência, prevalência e mortalidade estão concentradas em bairros degradados e áreas nos limites urbanos que fazem fronteira com autoestradas. Dirigir recursos para estas áreas pode beneficiar as pessoas e ajudar a controlar a epidemia local de VIH.

TB: dose alta de rifampicina pode melhorar a sobrevivência

Corinne Merle na AIDS 2016. Foto de International AIDS Society/Steve Forrest/Workers’ Photos

Uma terapêutica mais agressiva para a tuberculose (TB)  que inclui doses altas de rifampicina e TAR tem o potencial de reduzir a taxas de mortalidade em pessoas que vivem com VIH e TB que têm contagem baixas de CD4.

Numa nova investigação, foram distribuídas aleatoriamente pessoas que vivem com VIH e TB em três braços de um estudo: TAR precoce (iniciada na 2ª semana de tratamento para a TB) e terapêutica padrão para a TB; adiamento da TAR (8ª semana do tratamento da TB) e terapêutica padrão para a TB; adiamento da TAR (8ª semana do tratamento da TB) e terapêutica para a TB, incluindo doses alta de rifampicina.

A análise de pessoas com contagens de CD4 abaixo das 100 células/mm3 demonstrou que as pessoas sob doses altas de rifampicina tinham a melhor taxa de sobrevivência a 12 meses (96 vs 72 até 81% para as outras estratégias).

Acesso igual, liberdade de escolha.

Oito grupos de advocacia global para o VIH lançaram uma declaração de consenso que define os princípios básicos para provisão de tratamento para o VIH e profilaxia pre-exposição (PrEP).

Por favor leia, assine e divulgue.

A declaração está disponível em Português.

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Tradução disponibilizada por:

GAT – Grupo de Ativistas em Tratamentos

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