Quinta-feira, 21 de julho de 2016

Conteúdos

PrEP: homens jovens que têm sexo com homens

Sybil Hosek orador da AIDS 2016. Fotografia de Liz Highleyman, hivandhepatitis.com

Uma investigação norte-americana demonstrou que homens jovens homo e bissexuais – um grupo em elevado risco de infeção pelo VIH – podem ter boa adesão à profilaxia pré-exposição (PrEP), contudo, necessitam de apoio.

O Truvada® como PrEP pode proteger as pessoas contra a infeção pelo VIH. A boa adesão é a chave para o sucesso do tratamento e as infeções são raras entre as pessoas sob PrEP quando tomada como recomendada. O uso do Truvada® como PrEP foi aprovado nos EUA em 2012 e a Organização Mundial de Saúde (OMS) sugere que “as pessoas em risco elevado” devem poder aceder à PrEP.

Foram apresentados na conferência os resultados de um pequeno estudo que envolveu 79 homens gay e bissexuais entre os 15 e 17 anos.  

A sua composição demográfica e comportamentos sexuais mostraram que tinham um risco elevado de contrair a infeção pelo VIH. Um terço era negro, uma proporção semelhante era de origem étnica mista e 21% eram hispânicos. Os participantes eram sexualmente ativos, reportando uma média de dois parceiros sexuais no último mês e 60% tinha tido sexo anal recetivo sem uso do preservativo com o último parceiro. Aproximadamente um quinto tinha recebido dinheiro em troca de sexo e 15% tinha uma infeção sexualmente transmissível no início do estudo.

A toma diária de Truvada® como PrEP foi segura e bem tolerada. Nenhum dos participantes interrompeu o tratamento devido a efeitos secundários e todos mantiveram boa função renal.

Três pessoas infetaram-se com VIH e a taxa de incidência foi de 6,41 por 100 pessoas-ano, sendo uma das taxas mais elevadas observadas em programas de PrEP. Esta pode ser explicada pela baixa adesão dos participantes à PrEP.

Inicialmente, os participantes receberam apoio mensal na adesão, que correspondeu a elevados níveis de toma do medicamento, mantendo o seu efeito protetor no sangue.

Contudo, a adesão e os níveis elevados do medicamento desceram quando os participantes começaram a receber apoio a cada três meses. 

Os dados deste estudo serão apresentados aos reguladores norte-americanos com o objetivo de apoiar uma candidatura para o uso de PrEP em pessoas menores de 18 anos.

PrEP: casais serodiscordantes

Jared Baeten orador da AIDS 2016. Fotografia de Jan Brittenson, hivandhepatitis.com

Uma outra investigação demonstrou que o uso de PrEP em casais serodiscordantes (casais onde uma pessoas é seropositiva para o VIH e a outra é seronegativa) nos primeiros seis meses após o parceiro que vive com VIH ter iniciado TAR é importante.

Os estudos têm demonstrado que a eficácia da TAR reduz drasticamente o risco subsequente de transmissão de VIH  – um conceito conhecido como “tratamento como prevenção” – e a PrEP reduz o risco de infeção em mais de 90% se tomada consistentemente. Conjugar estas duas abordagens altamente eficazes poderá preencher algumas falhas que possam acontecer, como por exemplo, quando uma pessoa iniciou recentemente a TAR e ainda não alcançou carga viral indetetável.

O projeto Partners PrEP conduzido no Quénia e no Uganda recrutou 1 013 casais serodiscordantes. Nenhum parceiro estava sob TAR no início do estudo.

O tratamento antirretroviral foi oferecido a todos os parceiros seropositivos para o VIH; aos parceiros seronegativos foi disponibilizada PrEP caso o parceiro seropositivo decidisse adiar o início do tratamento.

 No final do seguimento, ocorreram quatro novas infeções pelo VIH, valor muito mais baixo que as 83 infeções esperadas sem TAR ou PrEP. As quatro infeções foram observadas em casais que não estavam sob TAR ou PrEP.

Meta 90-90-90: estudo SEARCH excede a meta na África leste rural

Maya Petersen na AIDS 2016. Fotografia da International AIDS Society/Abhi Indrarajan

A TAR tem benefícios tanto individuais como de saúde pública: as pessoas que vivem com VIH com bons resultados no tratamento têm uma esperança de vida quase semelhante às pessoas seronegativas e têm uma probabilidade muito baixa, talvez zero, de transmitir a infeção aos seus parceiros.

Para maximizar os benefícios da TAR, a ONUSIDA estabeleceu a meta 90-90-90: (diagnosticar 90% das pessoas que vivem com VIH, colocar 90% em tratamento e destas 90% com carga viral suprimida) até 2020. Alcançar estes objetivos teria como resultado que 73% de todas as pessoas a viver com VIH atingiriam carga viral suprimida.

A investigação conduzida no Uganda e Quénia alcançou 82% de taxa de supressão viral no espaço de dois anos. O programa implementou uma abordagem de “testar e tratar” a infecção pelo VIH num amplo programa de prevenção dirigido a várias doenças.

O estudo envolveu 32 comunidades, cada uma com cerca de 10 000 habitantes, que foram randomizados para receber o tratamento padrão de cuidados de saúde ou para receber uma intervenção que consistia no rastreio do VIH, diabetes e hipertensão e referenciação aos cuidados de saúde para as pessoas diagnosticadas com VIH, com início imediato da TAR, independentemente da contagem de células CD4.

As taxas de retenção nos cuidados de saúde no caso da infecção pelo VIH eram já elevadas no início do estudo, com 70% das pessoas com VIH previamente diagnosticadas, 80% a reportar terem tomado TAR alguma vez e 86% das pessoas sob TAR com carga viral indetetável.

Após dois anos, estes dados tinham aumentado para 97%, 94% e 90% respetivamente. A meta 90-90-90 foi, assim, alcançada ou excedida. No geral, 82% de todas as pessoas com VIH tinham carga viral abaixo das 500 cópias/ml.

Contudo, as pessoas mais jovens tinham níveis mais baixos de retenção nos cuidados de saúde.

A Dra. Maya Petersen afirmou à aidsmap.com que acreditava ter sido o forte envolvimento da comunidade e a intervenção centrada no doente os fatores responsáveis pelos elevados níveis de retenção nos cuidados de saúde, início do tratamento e supressão viral.

Meta 90-90-90: encontrem os homens!

Fotografia de Greg Lomas / Scholars and Gentlemen / Médecins sans Frontières

Uma investigação conduzida na África do Sul e Namíbia mostrou que os progressos para alcançar a meta 90-90-90 variam consideravelmente entre os programas, as regiões e as populações.

Uma conclusão impressionante é que os homens têm baixas taxas de diagnóstico e de supressão viral.

Os investigadores estimam que há aproximadamente 6,5 milhões de pessoas a viver com VIH na África do Sul. Atualmente, 53% das pessoas que vivem com VIH estão a aceder aos cuidados de saúde, 46% das pessoas que vivem com VIH estão sob TAR e 26% de todas as pessoas que vivem com VIH têm carga viral indetetável. As taxas de retenção nos cuidados de saúde, tratamento e supressão viral são superiores nas mulheres (60%; 51%;30%) em comparação com os homens (43%; 37%; 20%).

Houve mais dados encorajadores de um estudo realizado através de questionários aplicados ao domicílio que envolveu adultos com idades compreendidas entre os 15 e os 59 anos, em KwaZulu Natal, que demonstrou progressos significativos para alcançar a meta 90-90-90. Mais uma vez, as taxas de diagnóstico, início de tratamento e supressão viral foram mais elevadas nas mulheres (65%; 70%; 90%) em comparação com os homens (52%; 69%; 86%).

Uma investigação conduzida na Namíbia demonstrou progressos para alcançar a meta, com 64% das pessoas a viver com VIH diagnosticadas, 83% das pessoas diagnosticadas a iniciar TAR e 81% das pessoas sob tratamento a alcançar supressão viral. Mais uma vez, os níveis de retenção nos cuidados de saúde foram mais elevados nas mulheres.  

Referenciação e retenção nos cuidados de saúde

Imagem da apresentação da Dra. Serena Koenig

A ligação aos cuidados de saúde logo após o resultado, disponibilização imediata de TAR e bons níveis de apoio podem melhorar drasticamente as taxas de retenção e supressão viral, segundo uma investigação apresentada na conferência.

Iniciar o tratamento no dia do diagnóstico da infeção pelo VIH melhorou as taxas de retenção e supressão viral no Haiti. Um total de 762 pessoas com resultado positivo para a infeção pelo VIH, sem sintomas e com contagem de células CD4 abaixo de 500, foram recrutadas para o estudo e randomizadas para receber os cuidados de saúde padrão (TAR após a terceira consulta de seguimento, 21 dias depois do diagnóstico) ou TAR no dia do diagnóstico.

Os dados de 564 pessoas com pelo menos doze meses de seguimento foram apresentados na conferência. Ao 12º, 54% das pessoas do grupo que receberam TAR no mesmo dia que receberam o resultado, estavam retidas nos cuidados de saúde e tinham carga viral indetetável, em comparação com 42% das pessoas que receberam os cuidados de saúde padrão. Os investigadores calcularam que as pessoas que receberam no próprio dia TAR tinham 75% de probabilidade de ter supressão viral, maior probabilidade de estarem a ser seguidas nos cuidados de saúde e de estarem vivas no intervalo de seguimento dos doze meses do que as pessoas que receberam os cuidados de rotina (80 vs 71%).

Contudo, é de salientar que cerca de um terço das pessoas selecionadas para o recrutamento do estudo não estavam preparadas para iniciar medicação, após serem submetidas a um questionário padrão sobre prontidão para iniciar TAR. Isto indica que a disponibilização do tratamento no próprio dia não se adequa a todas as pessoas e que uma minoria precisará de mais tempo de preparação e apoio.

Dados do estudo Link4Health da Suazilândia demonstrou que a combinação das intervenções potenciou as taxas de retenção nos cuidados de saúde, início da TAR e diminuição da mortalidade.

 A intervenção incluiu a contagem de células CD4 no momento do diagnóstico em contexto de proximidade (point-of-care), acesso imediato à TAR para as pessoas com contagem baixa de células CD4, lembretes via telemóvel, disponibilização de itens básicos de higiene pessoal e incentivos não monetários.  

Transmissão vertical do VIH: progressos na África do Sul

A África do Sul teve sucesso na redução da taxa de transmissão vertical de VIH (durante a gravidez, parto e amamentação) para 4%.

Os investigadores observaram as taxas de infeção aos 18 meses em aproximadamente 1 800 bebes expostos à infeção pelo VIH. No geral, demonstrou o sucesso da iniciativa Option B+ (disponibilização continua da combinação antirretroviral para as mães).

A grande maioria das transmissões (81%) ocorreram nos primeiros seis meses após o nascimento; dois terços das mortes dos bebés também ocorreram neste mesmo período.

A taxa de sobrevivência de 18 meses seronegativos para o VIH foi de quase 94% entre os bebés vivos às seis semanas.

A procura de uma cura: abordagem combinada é necessária

Anthony Fauci, US National Institutes of Health, orador do simpósio Towards A Cure. Fotografia da International AIDS Society/Steve Forrest/Workers' Photos

Curar a infeção pelo VIH requererá tratamento combinado, tal como a TAR. Os participantes da conferência ouviram que o VIH pode facilmente desenvolver resistências a estratégias baseadas numa terapêutica única/monoteraopia.

O Dr. Anthony Fauci, dirigente do US National Institute of Allergies and Infectious Diseases, disse aos participantes que a investigação da cura do VIH estava praticamente no mesmo patamar que o tratamento antirretroviral em 1990; tal como o primeiro medicamento antirretroviral, o AZT (zidovudina), tornava-se claro que agentes isolados podem ter apenas um efeito limitado, e que combinações duo começavam a demonstrar resultados promissores. 

Mas mesmo a combinação de abordagens pode não ser suficiente para se alcançar a cura. Uma terapêutica experimental que utilizou três fármacos, um para “acordar” os reservatórios latentes das células infetadas pelo VIH, outro para prevenir a replicação do vírus e um terceiro para impedir o VIH de se replicar para novas células quando os reservatórios eram estimulados. A terapêutica foi disponibilizada a pessoas diagnosticadas pouco tempo depois de contraírem a infeção pelo VIH, com início imediato da TAR, e sob tratamento durante dois anos. Os resultados foram desanimadores, provavelmente porque o tratamento experimental não conseguiu eliminar os reservatórios das células com infeção latente.

Outra investigação foca-se no uso da terapêutica, que inclui dois anticorpos neutralizantes. Outra linha de investigação está a explorar o uso da combinação de “genes tesouras”

Acesso igual, liberdade de escolha.

Oito grupos de advocacia global para o VIH lançaram uma declaração de consenso que define os princípios básicos para provisão de tratamento para o VIH e profilaxia pre-exposição (PrEP).

Por favor leia, assine e divulgue.

A declaração está disponível em Português.

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Tradução disponibilizada por:

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