Um quinto dos doentes descontinua o Atripla® no prazo de um ano. Efeitos secundários ao nível do Sistema Nervoso Central (SNC) foram a principal causa

Michael Carter
Published: 17 October 2011

De acordo com dados do Reino Unido apresentados na 51ª ICAAC, em Chicago, um quinto dos doentes que iniciou terapêutica antirretroviral com Atripla® mudou para um regime alternativo no prazo de um ano. Os efeitos secundários no sistema nervoso central foram o principal motivo para a mudança de tratamento.

As linhas de orientação para o tratamento antiretroviral no Reino Unido recomendam uma combinação de efavirenze (Stocrin®) e de FTC/tenofovir (Truvada®) para doentes que vão iniciar o tratamento para a infeção pelo VIH. Estes medicamentos encontram-se disponíveis num comprimido combinado, o Atripla®, que é tomado uma vez por dia.

A terapêutica com Atripla® normalmente consegue uma supressão duradoura do VIH. No entanto, tal como todos os medicamentos para o VIH, poderá causar efeitos secundários. Mais notavelmente, o efavirenze tem sido associado a perturbações no humor e no sono, tais como depressão, sonhos vívidos e pesadelos. Muitas vezes estas perturbações são moderadas e passageiros e diminuem ou desaparecem ao fim das primeiras semanas de terapêutica. No entanto, para uma minoria de doentes, estes efeitos secundários são tão severos que se torna necessária uma mudança de tratamento.

Com mais de 20 medicamentos antiretrovirais licenciados, a maioria dos quais pode ser tomada uma vez por dia e tem um perfil de efeitos secundários moderados, existem várias alternativas eficazes para o Atripla®.

Assim, investigadores do Hospital do Chelsea and Westminster Hospital, em Londres quiseram estabelecer a proporção de doentes que pararam de tomar o Atripla® nos primeiros doze meses de tratamento.

Fizeram um estudo retrospetivo, revendo as notas clínicas de 472 pessoas que iniciaram terapêutica de primeira linha com Atripla®. A maioria dos doentes era do sexo masculino (94%), em média a idade era de 37 anos, três quartos eram caucasianos e 52% eram gays.

A carga viral base e a contagem de células CD4 era de 16,000 cópias e 285 células/ mm3 respetivamente.

O estudo confirmou a eficácia do Atripla®. Após seis meses de tratamento, 92% dos doentes apresentava uma carga viral indetetável e este valor aumentava para 98% ao fim de um ano. Estas taxas elevadas de supressão virológica foram acompanhadas por um fortalecimento da função imunitária, com uma contagem média de células CD4 a aumentar para 387/mm3 após seis meses de terapêutica e 449 células/mm3 após um ano de tratamento.

Foram observados aumentos modestos no colesterol total (4,3 mmol/l no início do tratamento para 4,7 mmol/l no mês seis e 4,8 mmol/l no mês doze), mas os triglicéridos permaneceram praticamente inalterados em aproximadamente 1,5 mmol/l.

No entanto, apesar destes resultados impressionantes, um total de 89 doentes (19%) descontinuaram o Atripla® no prazo de um ano após o início da terapêutica.

A duração média do tratamento antes da descontinuação foi de aproximadamente 10 meses (294 dias). Quase metade (48%) dos doentes que pararam o tratamento com Atripla® interromperam o mesmo três a doze meses após o início da terapêutica. No entanto, 36% dos doentes que descontinuaram fizeram-no mais de um ano depois de começar o tratamento.

As toxicidades no Sistema Nervoso Central foram o motivo mais comum para parar o tratamento com este medicamento (71%). As queixas mais comuns relacionadas com o humor e com o sono foram depressão, tonturas, insónias e pesadelos.

Outras causas para a descontinuação do tratamento incluíram toxicidade hepática (7%), rash (7%) e falência virológica ou desenvolvimento de resistências (7%).

“As pessoas a fazer Atripla® têm com frequência de mudar de tratamento antirretroviral, concluem os investigadores, “na nossa coorte o motivo mais comum foi a toxicidade ao nível do SNC [Sistema Nervoso Central] com a maioria dos casos a ocorrer após mais de 3 meses.”

Referência:

Zheng J et al. Discontinuation of tenofovir, emtricitabine and efavirenz as a single tablet regimen in HIV-1 infected individuals naïve to antiretroviral therapy. 51st Interscience Conference on Antimicrobial Agents and Chemotherapy, abstract H2-783, Chicago, 2011.