Duas sessões consecutivas na 6ª Internacional AIDS Society Conference
(IAS 2011) em Roma, foram dedicadas aos resultados científicos convincentes que
existem actualmente sobre os benefícios do tratamento como prevenção e da PREP,
no sentido de passar à prática estes novos métodos de prevenção.
“Passámos do “e se…” para “e agora…” foi o
comentário de Mitchell Warren, o director executivo da AIDS Vaccine Coalition (AVAC), sobre o que necessitamos a partir
deste momento, quais as barreiras que temos de ultrapassar e quais os recursos
que serão necessários para maximizar a promessa da prevenção com base no
tratamento.
Anthony Fauci, director do US National Institute of Allergies and Infectious Diseases (NIAID)
afirmou: “Temos agora bases sólidas cientificas para afirmar que, mesmo na
ausência de uma vacina, temos capacidade para acabar com esta epidemia. Não
posso chegar junto do Presidente dos EUA e dizer “Temos a cura”. Mas posso
afirmar “Acabar com a epidemia é cientificamente possível”.
No entanto, Nancy Padian do Office of the US Global AIDS Coordinator sublinhou que existem
importantes desafios que necessitam ainda de resposta quando o tratamento
anti-retroviral for utilizado com este objectivo.
Ela afirmou que há questões que necessitam de
resposta, nomeadamente se o tratamento anti-retroviral é duradouro e eficaz na
manutenção da supressão da carga viral por vários anos e se o aumento da
proporção de pessoas em tratamento aumentará os níveis de resistências aos
tratamentos. A maior questão prática é contudo, se o tratamento como prevenção
funcionará nas situações em que uma alta taxa de transmissão se deve a
infecções pelo VIH agudas ou recentes.
As maiores barreiras ao tratamento como prevenção
são, contudo, o estigma e a falta de recursos. Implementar a prevenção com base
no tratamento não será apenas dispendioso em termos de custo de medicamentos,
irá igualmente requerer mais recursos humanos, aumento da formação e a
alteração das funções dos conselheiros de prevenção para que possam lidar com
os resultados biomédicos. Existirá igualmente custos acrescidos relacionados
com testes e monitorização.
A outra grande barreira será o estigma relacionado
com o rastreio, afirmou Nancy Padian, particularmente nas populações em maior
risco nas sociedades onde a injecção de drogas, o sexo entre homens ou o
trabalho sexual são criminalizados e estigmatizados. O tratamento como
prevenção irá requerer não apenas que as pessoas realizem o rastreio e que
obtenham aconselhamento em prevenção nas organizações comunitárias, mas também
um contacto mais próximo com uma equipa médica que pode ser preconceituosa ou
percepcionada como tal.
Mitchell Warren lançou um pedido de acção para
implementar novas estratégias, mas a sua apresentação foi realista. “Temos
evidência, temos dados e agora, necessitamos de tomar decisões”, afirmou.
Em primeiro lugar, necessitamos de “combinações
inteligentes” de intervenções de prevenção adaptadas a diferentes pessoas e
populações. “Pode ser frustrante ter todas estas ferramentas (ele contou 13
diferentes para as quais existe evidência cientifica) e não saber qual escolher
ou como pagá-las,” afirmou, “mas é uma frustração melhor do que em 2004” (por
altura do final do primeiro ensaio de PREP no Cambodja).
Mesmo assim, hoje, apenas 8 a 9% das pessoas que
necessitam têm acesso a preservativos ou seringas, apenas 11% dos homossexuais
têm acesso a programas de alteração do comportamento de risco e apenas um terço
das mulheres seropositivas para o VIH acedem aos medicamentos anti-retrovirais
para prevenir a transmissão mãe-filho, o que faz com que os medicamentos
anti-retrovirais a serem usados de forma mais alargada como prevenção ou PREP
seja um enorme desafio.
Usar os medicamentos anti-retrovirais como
prevenção continuará a ser um assunto comportamental, acrescentou, na medida em
que as pessoas se apresentarão para rastreio e, de forma crucial, para apoio na
adesão.
É importante considerar que a intervenção de
prevenção é adequada a cada indivíduo. A PREP, por exemplo tem sido criticada
por se destinar a um “nicho” de pessoas, mas as intervenções em certos “nichos”
são importantes para grupos específicos de pessoas e podem ser extremamente
eficazes; um exemplo de outro contexto é o uso de contraceptivos injectáveis.
Para finalizar, evidentemente, o dinheiro e os
recursos serão um grande desafio. “Os dados científicos não mudam o mundo –
programas e políticas desenvolvidas pela sociedade civil, doadores, agências e
governos mudam”, afirmou Mitchell Warren.
Neste contexto, Tim Farley da Organização Mundial
de Saúde, ao apresentar um revisão dos processos necessários de licenciamento
de medicamentos anti-retrovirais para a prevenção nos EUA, Europa e África,
assinalou as extremas diferenças nos preços do tenofovir e Truvada® nos
diferentes contextos, de 35,82 dólares da lista de preços americana (quase
sempre com desconto) para um comprimido de Truvada® a 0,87 dólares, o preço
“sem lucro” pago nos países pobres e ainda 0,28 dólares o preço do equivalente
genérico. Afirmou, contudo, que a Gilead já autorizou o licenciamento a
companhias de genéricos para que possam produzir tenofovir e Truvada® a preço
reduzido.
Helen Roes, da Universidade de Witwatersrand da
África do Sul, afirmou que os novos dados do tratamento como prevenção e dos
ensaios de PREP chegaram no exacto momento em que ela iniciou o seu trabalho na
produção do novo Plano Nacional para a Infecção pelo VIH. Afirmou que as novas
escolhas em termos de prevenção podem ser desconcertantes. “Devemos por mais
pessoas em tratamento, circuncidar todos os homens ou comprar milhões de
preservativos?” perguntou. Como passo inicial, o país alargou o critério para o
início de tratamento para 350 células CD4/mm3 de acordo com as linhas
orientadoras da OMS e decidiu que, com apenas 45% das pessoas que necessitam em
tratamento, que o acesso ao tratamento se manterá como a maior prioridade para
a África do Sul.
Afirmou, no entanto, que os dados dos estudos com
casais serodiscordantes não fornecem necessariamente o tipo de dados
necessários para a eficácia do tratamento como prevenção ou PREP. “A África do
Sul é um país com um baixo nível de casamentos e com um agregado familiar
baseado na mulher”, e referiu, “os casais serodiscordantes serão difíceis de
identificar: os homens continuarão a não se apresentar”.”Foi decidido que as
mulheres seronegativas para o VIH que queiram engravidar e que têm relações
sexuais com homens seropositivos serão a população prioritária para PREP, mas
lançar um serviço de PREP seria um passo muito maior do que alargar a rede de
tratamento anti-retroviral já existente e envolveria um novo tipo de serviços
que ainda não existem.
Myron Cohen, o investigador principal do estudo
HPTN 052, afirmou que se o mundo não pagar os medicamentos anti-retrovirais
agora, terá de o fazer mais tarde, dado que um número cada vez maior de pessoas
irá necessitar de TARV. Afirmou, igualmente, que os resultados do estudo não
querem dizer que será necessário uma enorme expansão do tratamento para grupos
de pessoas que previamente não o recebiam; para o objectivo do estudo, foi
necessário oferecer TRAV a pessoas com uma contagem de células CD4
relativamente elevada, mas a redução da infecciosidade também se aplicou às
pessoas com contagens de células CD4 inferiores a 350/mm3 e pode servir como
mais um incentivo para atingir 2/3 da cobertura das pessoas com contagens de
células CD4 abaixo deste valor que não estavam ainda sob tratamento.
Acima de tudo, passar dos dados fornecidos pelos
estudos científicos para a prevenção da infecção pelo VIH no mundo real será um
exercício que irá lidar com a incerteza. O investigador de microbicidas Ian
McGowan da Universidade Pittsburgh comentou que, “No mundo ideal, teríamos de
tratar todas as pessoas seropositivas e os seronegativos deveriam todos usar
preservativo. Mas as pessoas podem não estar sob tratamento, podem apresentar
falência, e podem não usar preservativos. O mundo nunca foi preto ou branco, e o
debate sobre passar do tratamento para tratamento como prevenção e para a PREP
é o mesmo tipo de debate que temos vindo a ter sobre o acesso aos medicamentos
desde que estes existem”.