Pessoas com VIH: mortes relacionadas com SIDA continuam a cair, doenças relacionadas com idade e estilos de vida sobem

Michael Carter
Published: 18 May 2010

De acordo com os resultados de um grande estudo publicado na edição de 15 de Maio da Clinical Infectious Diseases, se se pretender tirar partido de todo o potencial que os tratamentos anti-retrovirais (ARV) têm para diminuir a mortalidade, então é necessário centrar também a actuação das entidades competentes nos factores sociais e nos estilos de vida.

Entre as causas de mortalidade que têm vindo a crescer nas pessoas com VIH encontram-se as doenças associadas ao envelhecimento mas ainda assim influenciadas pela infecção VIH, assim como as doenças cardiovasculares, os cancros não definidores de SIDA, ou ainda a doença renal e a doença hepática. Por outro lado, a mortalidade devida a doenças definidoras de SIDA, como as infecções oportunistas e os cancros definidores de SIDA, tem caído ao longo dos últimos dez anos.

Um grupo de investigadores da Antiretroviral Therapy Cohort Collaboration estudou as causas de mortalidade registadas das pessoas a fazer tratamento com ARVs na Europa e América do Norte, entre 1996 e 2006, tendo verificado que a mortalidade devida à SIDA caiu, e que a mortalidade devida a doenças não relacionadas com SIDA, como o cancro do pulmão, aumentou.

A sua análise retrospectiva incluiu 13 estudos, num total de 39 272 pessoas, que contribuíram com um total de 154 667 pessoas-ano de follow-up (tendo sido um pouco inferior a 4 anos a duração média do follow-up para cada doente).

Os doentes tinham uma idade média de 37 anos na altura em que o tratamento ARV era iniciado. O mês do calendário médio em que a terapêutica ARV foi iniciada foi o mês de Dezembro de 2000. A maioria das pessoas (62%) fez uma combinação terapêutica que incluiu um inibidor da protease.

Verificaram-se um total de 1 876 mortes (5%). A taxa de mortalidade global foi de 12 mortes por 1000 pessoas-ano. As pessoas que morreram, apresentavam uma contagem média de CD4s de base mais baixa (110 cél/mm3) do que as que sobreviveram (217 cél/mm3).

De todos os doentes que morreram, foi obtido um registo da causa de morte em 1 597 casos. Quase metade (49.6%) dessas mortes deveu-se a SIDA. Os investigadores também analisaram este valor com detalhe, tendo concluído que 23% de todas as mortes por SIDA se deveu a infecções definidoras de SIDA e 15% a cancros definidores de SIDA.

A estas duas causas, seguiram-se os cancros não-definidores de SIDA, responsáveis por cerca de 12% de todas as mortes. De entre estes, destaca-se o cancro do pulmão, responsável por 37% dos casos de mortalidade por cancros não-definidores de SIDA.

As infecções não consideradas definidoras de SIDA foram responsáveis por 8% de todas as mortes, valor semelhante ao da mortalidade por doença cardiovascular. De entre as outras causas importantes destacam-se a violência (8%), doença hepática (7%), doença respiratória (2%) e falência renal (2%).

As causas de morte modificaram-se com o tempo. Assim, a percentagem de mortes por doenças relacionadas com SIDA desceu de 58% em 1996 para 44% no período 2003-2006. Já a percentagem de mortes devida a cancros definidores de SIDA desceu de 21% no primeiro período para 13% após 2003.

Contudo, ao mesmo tempo que se verificavam estas descidas, os cancros não-definidores de SIDA registavam uma subida, tendo passado de 7% antes de 1999 para 15% no período entre 2003 e 2006.

Por seu lado, uma baixa contagem de células CD4s mostrou estar associada com um risco aumentado de morte por cancros não-relacionados com SIDA (HR por cada queda de 100 cél/mm3 = 1.43; 95% IC, 1.34 a 1.53) e cancros renais (HR por cada queda de 100 cél/mm3 = 1.73; 95% IC, 1.18 a 2.55).

“A forte associação inversa das taxas de mortalidade por SIDA com a contagem de CD4s registada na altura do início da terapêutica ARV vem reforçar os argumentos a favor de um início precoce da terapêutica”, referem os investigadores.

Uma carga viral à partida superior a 5 log10 cópias/ml mostrou-se significativamente associada a um risco aumentado de mortalidade por SIDA (HR = 1.31; 95% IC, 1.12 a 1.53), infecções (HR = 1.85; 95% IC, 1.25 a 2.73), doença cardiovascular (HR = 1.54; 95% IC, 1.05 a 2.27) e perturbações respiratórias (HR = 3.63; 95% IC, 1.30 a 10.09).

As taxas de mortalidade relativas a todas as causas com excepção da mortalidade por doença renal foram maiores nos utilizadores de drogas injectáveis do que nos restantes grupos. O uso de drogas injectáveis mostrou uma associação particularmente forte com mortalidade por doença hepática, doenças respiratórias, violência e infecções.

A idade mais avançada mostrou uma associação forte com um risco maior de morte por cancros não relacionados com SIDA (HR por cada 10 anos = 2.32; 95% IC, 2.04 a 2.63) e por doença cardiovascular (HR por cada 10 anos = 2.05; 95% IC, 1.76 a 2.39).

A taxa de mortalidade relacionada com doença renal foi particularmente elevada entre as pessoas com mais de 60 anos.

Os investigadores pensam que estes resultados “significam que o processo de envelhecimento passará a ser o factor dominante na mortalidade do VIH ao longo da próxima década”.

Em termos globais, a taxa de mortalidade foi inferior em 16% nas mulheres. Além disso, as mulheres apresentaram uma probabilidade 50% inferior de morrer por cancros não-relacionados com SIDA do que os homens.

Outra variável estudada foi a da duração do tratamento ARV; assim, à medida que ela aumentava, o risco de mortalidade por SIDA, infecções não-relacionadas com SIDA e doença renal diminuía (p<0.001). Em particular, o início da terapêutica ARV após o ano 2000 mostrou estar associado a uma redução significativa da mortalidade por SIDA (p<0.001).

“A terapêutica ARV continua a reduzir dramaticamente as taxas de mortalidade atribuível ao VIH nos países com mais rendimentos”, concluem os investigadores.

Investigadores que, porém, expressam alguma preocupação pelas elevadas taxas de mortalidade associadas a patologias “relacionadas com factores sociais e estilos de vida (…). A importância dos estilos de vida é reforçada pela constatação de que a doença neoplásica não associada à SIDA mais frequente foi o cancro do pulmão, como se sabe, muito provavelmente causado pelo tabaco.”

Os investigadores acreditam, finalmente, que estes achados têm implicações nos cuidados prestados às pessoas com VIH, sugerindo que “se o objectivo é fazer com que os benefícios da terapêutica ARV se continuem a fazer sentir na segunda década do tratamento do VIH, será necessário pôr em prática intervenções que se dirijam especificamente aos factores de risco das causas de morte relacionadas com os estilos de vida, assim como monitorizar e tratar as doenças associadas ao envelhecimento”.

Referência

The Antiretroviral Therapy Cohort Collaboration. Causes of death in HIV-1-infected patients treated with antiretroviral therapy, 1996-2006: collaborative analysis of 13 HIV cohort studies. Clin Infect Dis 50: 1387-96, 2010.