A circuncisão protege os homens homossexuais que têm “preferência” por sexo insertivo da infecção pelo VIH

Michael Carter
Published: 19 November 2009

A circuncisão pode proteger da infecção pelo VIH os homens que são exclusivamente insertivos no sexo anal, segundo um estudo australiano publicado em Novembro na 13a edição da revista AIDS.

Porém esta descoberta foi baseada somente em sete infecções entre homens que expressaram preferência por sexo insertivo. Os investigadores constataram que nos homens que relataram exclusivamente sexo insertivo como comportamento, a circuncisão não reduziu significativamente o risco de infecção pelo VIH.

O estudo também demonstrou que de forma geral a circuncisão não protege os homossexuais da infecção pelo VIH. Dados preliminares do estudo apresentados em 2007 na conferência Internacional sobre SIDA da AIDS Society, em Sidney, revelam que a circuncisão não teve efeito protector.

Os homens que têm sexo com homens continuam a ser um dos grupos mais afectados pelo VIH. Consequentemente, existe necessidade de novas abordagens na prevenção do VIH nesta população.

Estudos em África demonstraram que a circuncisão reduz o risco de infecção pelo VIH em homens heterossexuais. Contudo, uma meta-análise recente não revelou qualquer evidência conclusiva que a circuncisão proteja homens homossexuais.

Os investigadores do estudo Health in Men (HIM – Saúde dos Homens) analisaram a relação entre a circuncisão e o risco de infecção pelo VIH numa população de 1426 homossexuais seronegativos para o VIH, em Sidney. No total, 938 destes homens eram circuncisados.

Os homens foram recrutados entre 2001 e 2005 e seguidos até ao final de 2007. No momento de entrada no estudo, os homens indicaram o seu estatuto de circuncisão, o que foi confirmado através de exame clínico.

De seis em seis meses os participantes tiveram uma consulta de seguimento, onde foram testados para o VIH e onde lhes perguntaram se tinham tido sexo anal desprotegido. Adicionalmente, também foi pedido aos indivíduos que dissessem se eram insertivos ou receptivos no sexo anal e se tinham uma preferência mais pronunciada pela adopção da posição insertiva.

O seguimento de um total de 5161 pessoas/ano foi disponibilizado para análise e a duração média de seguimento de cada homem foi 3,9 anos.

Houve 53 infecções pelo VIH, o que gerou uma incidência geral de 0,78 por 100 pessoas/ano.

As análises estatísticas que incluíram a população total do estudo demonstraram que a circuncisão não fornecia protecção significativa contra infecção pelo VIH.

Só 10% de pessoas/ano seguidas no estudo eram homens que tiveram sexo anal insertivo desprotegido, mas que não declararam ter tido sexo anal receptivo sem preservativo. Nestes homens só houve quatro infecções pelo VIH. A análise revelou que os homens circuncisados que só declararam sexo insertivo desprotegido não tiveram uma redução do risco significativo da infecção pelo VIH.

Seguidamente, os investigadores restringiram a sua análise aos homens que demonstraram preferência pela posição insertiva em todas as relações anais. Estes 435 homens (dos quais 279 eram circuncisados) resultaram em 1710 seguimentos pessoa/ano.

Houve um total de sete infecções pelo VIH nestes homens, cinco dos quais não eram circuncizados.

A análise estatística demonstrou que a circuncisão estava a associada a uma redução significativa do risco de infecção pelo VIH em homens com preferência por sexo anal insertivo (p=0,049). Esta associação foi reforçada quando os investigadores ajustaram a idade e sexo anal potencialmente serodiscordante.

Todavia, três dos homens com preferência por sexo anal insertivo declararam ter tido sexo anal receptivo desprotegido. Mas o autor principal do estudo, o Dr. David Templeton, disse ao aidsmap.com que os homens que expressavam a preferência por sexo anal insertivo adoptavam esta posição em quase 99% das relações anais.

É de realçar, no entanto, que os investigadores não comentam a possibilidade dos participantes do estudo fornecerem informações imprecisas sobre as suas preferências ou comportamentos sexuais. É importante sublinhar que por razões de desejo social, o sexo anal é sub-notificado de forma consistente pelos homossexuais.

Não obstante, os investigadores afirmaram: “Ser circuncisado estava associado a uma redução significativa da incidência do VIH entre um terço dos participantes que declararam preferência pela posição insertiva no sexo anal”

Um total de 9% das infecções pelo VIH na coorte poderia, concluem os autores, ser atribuída ao facto de não serem circuncizados. “Entre os participantes que preferiam a posição insertiva, a proporção estimada de infecções pelo VIH que poderia ser atribuída à não circuncisão é de 75,7%.”

Os autores reconhecem contudo que “a limitação chave da nossa análise foi a falta de poder estatístico, devido ao número relativamente pequeno de infecções pelo VIH na coorte HIM e a baixa incidência de infecções pelo VIH entre homens predominantemente insertivos.”

Os investigadores sugerem que sejam efectuados ensaios randomizados e controlados para explorar melhor a relação entre circuncisão e o risco de infecção pelo VIH nos homossexuais.

Estes estudos poderiam, contudo, ser difíceis de desenhar e os investigadores questionam-se acerca do seu valor. Sublinham ainda que tais estudos “iriam requerer uma incidência de VIH alta, uma prevalência inicial baixa de circuncisão e um largo número de participantes que pratiquem exclusivamente ou predominantemente sexo anal insertivo.” Os investigadores enfatizam que “este tipo de atributos são requisitos para que um estudo tenha poder suficiente para detectar uma associação entre o estatuto de circuncisão e a medição pouco frequente da aquisição de VIH através da via anal insertiva.”

Referência

Templeton DJ et al. Circumcision and risk of HIV infection in Australian homosexual men. AIDS 23: 2347-51, 2009.