Três quartos dos reclusos norte-americanos seropositivos para o VIH interrompem a TARc quando são libertados

Michael Carter
Published: 02 October 2009

Investigadores canadianos e norte-americanos relataram no jornal online PLoS One que poucos reclusos norte-americanos seropositivos para o VIH continuam a tomar a terapêutica anti-retroviral de combinação (TARc), após terminarem o período da sentença

Os investigadores comentam que “estamos preocupados com os efeitos prejudiciais da interrupção terapêutica, tendo em conta os dados do estudo SMART e a possibilidade do desenvolvimento de resistências”

Continuam dizendo “o nosso estudo chama a atenção para a necessidade de apoiar a manutenção da TARc e a importância da continuidade dos cuidados de saúde para as pessoas que vivem com VIH que entram no sistema prisional”.

O VIH é um problema de saúde grave nas prisões norte-americanas, estimando-se que um quarto das pessoas que vive com a infecção, será detida a determinado momento.

Os estabelecimentos prisionais são um local importante para aplicar os cuidados de saúde relacionados com o VIH, que devem ser providenciados de acordo com as orientações norte-americanas para o tratamento. Contudo, muitas pessoas que iniciam a TARc enquanto estão detidas interrompem-na pois não conseguem ou não querem continuar a fazê-la quando se encontram em liberdade.

Há pouca informação sobre os efeitos da TARc em reclusos. Assim, os investigadores realizaram um estudo retrospectivo, que envolveu 512 pessoas do Estabelecimento Prisional de S. Francisco, durante um período de dez anos, entre 1996 e 2005.

Foi recolhida informação clínica sobre a toma da TARc, a contagem de células CD4 e o valor da carga viral.

Todas as pessoas foram detidas, pelo menos, duas vezes (média de cinco detenções) e, cada sentença, correspondeu, em média, a um período ligeiramente superior aos três meses. Quase metade dos reclusos (51%) era de origem afro-americana e a grande maioria (86%) do sexo masculino.

Mais de três quartos (76%) interrompeu a TARc após terem sido libertados. Apenas 15% deu continuidade à toma e 9% recusou o tratamento.

As pessoas que continuaram a fazer tratamento ou que o fizeram intermitentemente passavam, em média, mais tempo na prisão quando comparados com os reclusos que nunca tinham feito tratamento (38 vs 40 vs 26 meses, p <0,018). Além disso, os doentes que se mantiveram a fazer a TARc eram mais velhos do que aqueles que interromperam após terem sido libertados ou dos que se recusaram a fazer o tratamento. (38 vs. 35 vs. 35 anos, p <0,045).

Sem surpresas, ao longo do tempo, a carga viral era significativamente mais elevada nos doentes que nunca tinham tomado a terapêutica (p <0,001), em comparação com aqueles que fizeram o tratamento continuamente. Apesar de a carga viral também ser elevada nos doentes que fizeram o tratamento intermitentemente quando comparados com aqueles que tiveram uma boa adesão, a diferença não foi significativa (p <0,133).

Também foram observadas diferenças na contagem das células CD4 com os doentes que tinham uma boa adesão a “ganhar” uma célula CD4 por mês de tratamento em comparação com a perda de, aproximadamente, duas células por mês, nos doentes que interromperam o tratamento ou que nunca iniciaram TARc.

Os investigadores comentam que “este estudo demonstra que há claros benefícios na continuação do tratamento anti-retroviral no grupo de pessoas que entra e sai dos estabelecimentos prisionais, tanto a nível de contagem de células CD4 como de carga viral, especialmente quando comparados com os resultados das pessoas que se recusam a fazer o tratamento”.

Concluem que, “para manter os benefícios da TARc fora das prisões, é necessário que haja uma transição eficaz para a comunidade, programas após a libertação que se centrem na gestão e monitorização da TARc, boas ligações com prestadores de cuidados da comunidade, estabilização da habitação e o apoio da comunidade”.

Referências

Pant Pai N et al. The impact of antiretroviral therapy in a cohort of HIV infected patients going in and out of the San Francisco County jail. PLoS One 4 (9), 2009.