Será que devemos dispensar os nucleósidos? Os medicamentos ITRN para o VIH podem diminuir a taxa de sucesso do tratamento para a hepatite C

Gus Cairns
Published: 18 June 2009

Dois estudos europeus constataram que os doentes infectados pelo VIH que iniciam tratamento com interferão peguilado e a ribavirina têm uma taxa de sucesso consideravelmente mais baixa se também estiverem sob medicação anti-retroviral com ITRNs (Inibidores da Transcriptase Reversa análogos dos Nucleósidos).

Um estudo da Alemanha concluiu que as pessoas medicadas com ITRNs tinham muito menos probabilidade de conseguir uma Resposta Virológica Sustentada (RVS) após o tratamento para a hepatite C, do que as pessoas sob regimes sem ITRNs ou sem qualquer tratamento para o VIH. (Considera-se que há RVS quando há uma carga viral indetectável seis meses após o fim do tratamento para a hepatite C, geralmente considerada equivalente a uma cura.) Um outro estudo de quatro países encontrou provas de que o uso de AZT e abacavir pode estar particularmente implicado neste aspecto.

O primeiro estudo é um coorte prospectivo de pessoas com ou sem infecção pelo VIH em tratamento para a hepatite C, em 10 hospitais, em cinco cidades da Alemanha. Este estudo foi parcialmente randomizado. As pessoas em tratamento para o VIH foram randomizadas para regimes com pelo menos um ITRN ou para regimes sem ITRNs (44 e 19 doentes respectivamente). As taxas de sucesso do tratamento foram depois comparada com 41 doentes seropositivos que não estavam em tratamento e 48 doentes que não tinham infecção pelo VIH.

É interessante notar que, neste estudo, os doentes infectados pelo VIH e os seronegativos conseguiram taxas de RVS comparáveis, com taxas de 55% nos dois grupos. Nem houve uma diferença estatisticamente significativa nas taxas de RVS entre doentes com VIH em tratamento anti-retroviral (TAR) ou sem tratamento (52% e 59% taxas de RSV respectivamente).

No entanto, houve uma diferença estatisticamente significativa observada entre os doentes em TAR de acordo com o regime: 74% dos doentes do grupo com regimes sem ITRNs conseguiram uma RVS, em comparação com 43% do grupo medicado com ITRNs (p=0,031).

Não houve diferenças nos efeitos adversos observados de acordo com o uso ou não de ITRNs: todos os grupos tiveram taxas semelhantes de efeitos adversos, embora os doentes sob TAR tivessem mais alterações laboratoriais (29% nos regimes sem ITRNs e 21% no grupo com combinações baseadas em ITRNs) do que os doentes com VIH que não estavam em TAR (15%) ou nos que não tinham infecção pelo VIH (6%).

Os investigadores concluem que “certas combinações anti-retrovirais podem ter um impacto sobre a RVS não relacionadas com a toxicidade e são necessários mais estudos para investigar esta matéria".

Num segundo estudo alguns dos investigadores da Alemanha formaram uma equipa com hospitais de Barcelona e Londres (Hospital de Chelsea e Westminster) e realizaram um estudo prospectivo em 90 doentes seropositivos para o VIH que tomaram interferão peguilado e ribavirina para o tratamento da hepatite C. Setenta e um dos 90 doentes (79%) estavam sob TAR.

Neste grupo, 52% conseguiram uma RVS. O único factor que influenciou as taxas de RVS, à parte o genótipo da hepatite C, foi a escolha dos medicamentos anti-retrovirais: 77% dos doentes sob regimes sem ITRNs conseguiram uma RVS em comparação com 42% dos doentes sob tratamento com ITRNs.

Aparentemente os medicamentos abacavir e AZT tiveram um impacto particularmente negativo sobre as taxas de RVS. Conseguiram um RVS 20% dos doentes medicados com abacavir e 29% dos doentes sob tratamento com AZT. Sabe-se que o uso de AZT é problemático uma vez que em conjunto com a ribavirina pode causar anemia, mas embora os valores laboratoriais não tivessem sido recolhidos neste estudo, não havia nenhuma relação entre a dose da ribavirina e a taxa de RVS.

Referências

Vogel M et al. Safety of nucleoside containing HAART during interferon/ribavirin combination therapy for chronic HCV infection. QuintoWorkshop sobre VIH & Hepatite Co-infecção, Lisboa. Resumo P_15. 2009.

Vogel M et al. ART components and their influence on treatment rates after pegylated interferon and ribavirin combination therapy in HIV-positive individuals with chronic HCV infection. QuintoWorkshop sobre VIH & Hepatite Co-infecção, Lisboa. Resumo P_06. 2009.