Um curso de terapêutica de combinação para a hepatite C que incluiu o inibidor da protease experimental telaprevir (VX-950) produziu uma resposta viral mantida (RVM) em mais de 80% das pessoas do estudo, pessoas essas que estavam infectadas com o genótipo 1 do vírus e não tinham qualquer experiência anterior de tratamentos.
Um outro estudo encontrou valores semelhantes de resposta a um outro inibidor da protease, o boceprevir. Estes dados foram apresentados há poucos dias no encontro da AASLD (American Association for the Study of Liver Disease, ou seja, Associação Americana para o Estudo da Doença Hepática), em Boston, nos EUA.
Esta taxa de resposta é, pelo menos, 30% maior do que as melhores RVMs alcançadas com o regime padrão de tratamento, constituído pelo interferão-peguilado e ribavirina.
Oitenta e dois por cento dos doentes atingiram uma RVM em 24 semanas (12 semanas com telaprevir e interferão/ribavirina e 12 com apenas interferão/ribavirina). No caso do tratamento-padrão a duração era de 48 semanas.
A RVM, que é olhada como um equivalente da cura, é definida como a ausência de vírus da hepatite C detectável no sangue seis meses após a cessação da terapêutica.
Os resultados alcançados foram superiores aos resultados obtidos nos anteriores estudos PROVE do telaprevir, onde foram alcançadas taxas de RVM de quase 70%, em comparação com valores inferiores a 50% em doentes a tomar placebo.
Os resultados finais do presente estudo, o VX950-C208, foram apresentados num comunicado de imprensa das duas empresas fabricantes da substância, a Tibotec e a Vertex. Este estudo apresentava quatro diferenças em relação ao estudo PROVE:
**Não havia braço de controlo com placebo: todas as pessoas tomaram o telaprevir;
**Metade das pessoas medicadas com interferão-alfa-2a peguilado (Pegasys®) e a outra metade o interferão-alfa-2b peguilado (PegIntron®).
**Metade dos doentes tomou 750 mg de telaprevir, 3 vezes ao dia, como nos estudos PROVE, enquanto a outra metade tomou a dose de 1250 duas vezes ao dia.
**Se os doentes atingissem uma carga viral indetectável à semana 4 e a mantivessem assim até à semana 20, podiam terminar o tratamento à semana 24. Os 18% dos doentes que não alcançaram este objectivo, continuaram o tratamento até à semana 48.
Oitenta e cinco por cento das pessoas medicadas com telaprevir 3 vezes ao dia mais Pegasys® atingiram uma RVM, o mesmo acontecendo a 82.5% dos que estava sob telaprevir 2 vezes ao dia.
Nas pessoas a tomar PegIntron®, 81% dos que estava sob telaprevir 3 vezes ao dia e 82.1% dos que o tomavam 2 vezes ao dia atingiram uma RVM. Estas diferenças não foram estatisticamente significativas.
No que se refere aos efeitos adversos, o comunicado de imprensa referia: “os efeitos adversos foram semelhantes aos encontrados noutros ensaios com telaprevir”. Os únicos números avançados foram os relativos “a efeitos adversos graves que levaram à descontinuação definitiva de todos os fármacos”, o que constituiu uma definição muito restritiva.
Por este critério, 3% descontinuaram o tratamento devido a rash e 2% a anemia. Nos ensaios PROVE 1 e 2, 21% e 12% dos doentes em telaprevir, respectivamente, descontinuaram o tratamento, versus 11% e 7% das pessoas em placebo. O principal efeito adverso do telaprevir é o rash, classificado como ‘grave’ em 7% e 15% dos doentes do PROVE 1 e do PROVE 2, respectivamente.
Os números finais para a recidiva viral não foram especificados. Os números provisórios referidos no abstract mostraram que nove doentes (5.6%) tinham experimentado uma descida inicial da carga viral de VHC , seguida porém de um recrudescimento do vírus à semana 12, e que todos os nove apresentavam mutações de resistência ao telaprevir.
Na conferência da AASLD foram apresentados vários outros estudos sobre novos fármacos para a hepatite C. Foram ainda apresentados os resultados do PROVE 3, um ensaio com telaprevir em doentes com falência de anterior terapêutica da hepatite C. Neste ensaio, quase 40% dos doentes com falência prévia a um esquema de interferão-peguilado/ribavirina e quase 70% que haviam respondido mas recidivado, atingiram uma RVM em 24 semanas de tratamento, enquanto 76% dos casos de recidiva apresentaram uma RVM em 48 semanas.
Um estudo do boceprevir, da Schering-Plough – o primeiro inibidor da protease da hepatite C a ser ensaiado – revelou uma taxa de RVM de 82% nos doentes com genótipo 1 que tinham atingido uma carga viral indetectável à semana 4 e de 79% nos que só a atingiram à semana 16.
Um segundo estudo com o boceprevir revelou uma RVM de 55% entre doentes que tinham história de falência terapêutica prévia ao interferão-peguilado/ribavirina. Nestes estudos, o interferão-peguilado/ribavirina são administrados durante 4 semanas, sendo o boceprevir administrado, depois, por 24 semanas (em doentes naíve) ou 44 semanas (em doentes anteriormente não-respondedores).