Investigadores concluem num artigo publicado na 12ª edição de Setembro de AIDS, que os doentes seropositivos com leucoencefalopatia multifocal progressiva (LEMP) não têm benefício com o uso do medicamento anti-viral cidofovir. Os investigadores compararam os resultados do tratamento em doentes seropositivos com LEMP que estavam a ser tratados com terapêutica anti-retroviral e cidofovir com os resultados dos doentes com a infecção que eram tratados apenas com a terapêutica anti-retroviral. Descobriram que a mortalidade e incapacidade eram comparáveis nos dois grupos.
O cidofovir pode danificar os olhos e os rins e dado que não apresenta benefícios para os doentes com LEMP os investigadores recomendam que “o uso do cidofovir seja abandonado em doentes com LEMP relacionada com sida”.
A LEMP é uma doença do sistema nervoso central provocada pelo vírus JC, que afecta pessoas com o sistema imunitário muito debilitado. Nos doentes com VIH, geralmente provoca sintomas neurológicos progressivos, que levam muitas vezes à morte no espaço de quatro a seis meses. O prognóstico dos doentes seropositivos melhorou desde que se tornou disponível o tratamento eficaz do VIH e há alguma evidência de que a terapêutica anti-retroviral reconstitui a resposta imunitária específica para a LEMP. No entanto, cerca de 50% dos doentes seropositivos com LEMP ainda morrem ou tem incapacidades graves.
O único tratamento actualmente recomendado para a LEMP é a terapêutica anti-retroviral, mas testes de laboratório e alguns pequenos estudos sugeriram que os doentes tratados com a terapêutica anti-retroviral e cidofovir têm melhores hipóteses de sobreviver do que os indivíduos tratados apenas com terapêutica para o VIH. Mas o número dos doentes nestes estudos era reduzido e outras investigações tiveram resultados opostos.
Por isso, uma equipa internacional de investigadores analisou os resultados de seis estudos conduzidos entre 1996 e 2004 que incluíram doentes seropositivos com LEMP que foram tratados com terapêutica anti-retroviral e cidofovir ou apenas terapêutica anti-retroviral. Os investigadores compararam as taxas de mortalidade e incapacidade entre os dois grupos de doentes.
Na análise dos investigadores foram incluídos 370 doentes. Todos os doentes receberam terapêutica anti-retroviral e 50% foram medicados com cidofovir. O tratamento com cidofovir foi administrado oito semanas após o diagnóstico com LEMP em 75% dos doentes e o número médio de ciclos de tratamento foi de cinco.
Um total de 189 (51%) doentes morreu e em 167 (89%) destes casos a LEMP foi considerada a causa da morte.
Os investigadores calcularam que os doentes tratados com cidofovir tinham uma probabilidade ligeiramente inferior de sobrevivência ao fim de um ano (44%) quando comparados com os doentes que recebiam apenas tratamento anti-retroviral, mas esta diferença não foi estatisticamente significativa.
O único factor associado a uma hipótese mais elevada de sobrevivência era uma contagem mais elevada de células CD4 (p < 0,001) e um índice de Karnofsky mais elevado (uma avaliação da saúde individual e do bem-estar) (p < 0,001)
Dos doentes que estavam vivos após doze meses, avaliou-se que 39% tinham incapacidade moderada a grave. A análise estatística univariável mostrou que o tratamento com cidofovir (p = 0,016) e a carga viral JC no líquido cefalorraquidiano (p = 0,01) estavam significativamente associados a um risco mais elevado de incapacidade moderada a grave e que uma contagem das células CD4 mais elevada (p = 0,027) e um índice de Karnofsky mais elevado (p< 0,001) estavam associados a um risco mais baixo de tais incapacidades. Em análises multivariáveis subsequentes, que verificaram a influência de outros factores aleatórios, o cidofovir já não foi associado a um risco mais elevado de incapacidade, mas a contagem das células CD4 e o índice de Karnofsky (ambos p < 0,01) continuaram associados significativamente a um risco mais baixo de incapacidade.
A maioria dos estudos incluídos na análise eram observacionais, mas apesar desta limitação os investigadores escrevem que “os resultados globais apontam contra a maior eficácia do cidofovir no tratamento da LEMP relacionada com sida”. Concluem que “novos agentes e estratégias de tratamento são urgentemente necessárias para o tratamento desta infecção oportunista pouco comum, mas assustadora”.