O tesamorelin é seguro e eficaz para a acumulação de gordura nos doentes que estão em tratamento anti-retroviral

Michael Carter
Published: 17 February 2010

Uma equipa de investigadores internacionais reporta na edição online do Journal of Acquired Immune Deficiency Syndromes, que o tratamento com tesamorelin diminui significativamente a acumulação da gordura visceral nos doentes com a infecção pelo VIH.

Os resultados preliminares do estudo foram relatados na Conferência Internacional sobre SIDA, de 2008, na Cidade do México.

Os resultados de um estudo de 26 semanas, seguido por 6 meses de análise, mostraram que a terapêutica com o medicamento reduz os níveis da gordura visceral e da circunferência da cintura sem ter efeitos metabólicos prejudiciais.

Demonstrou-se também que o tesamorelin é seguro, embora um pequeno número de doentes descontinuassem a terapêutica por causa de pequenas reacções de hipersensibilidade.

Os investigadores comentam que “com estes dados novos, há agora resultados consistentes de estudos alargados, de Fase III, randomizados e controlados, comparados com placebo para sugerir que [o tesamorelin] é uma estratégia clínica potencialmente eficaz para reduzir selectivamente o tecido visceral adiposo e melhorar a percepção do corpo entre os doentes infectados pelo VIH com acumulação de gordura abdominal no contexto da terapêutica anti-retroviral”.

Alguns doentes seropositivos para o VIH desenvolveram alterações na composição da gordura corporal sob terapêutica anti-retroviral. Isto inclui a acumulação de gordura e a perda de gordura ou ambos.

Em muitos doentes isto envolveu a acumulação da gordura central visceral e a perda da gordura subcutânea.

A acumulação de gordura abdominal visceral está estreitamente associada a um aumento de lípidos no sangue a à insulino-resistência que, tanto um como o outro caso, podem aumentar o risco de doença cardiovascular. Nos doentes seronegativos, um aumento na circunferência da cintura tem sido associado a um acréscimo de risco de morte e a doença cardiovascular é actualmente uma das primeiras causas de morte nos doentes com a infecção pelo VIH.

Portanto, a redução da acumulação da gordura visceral pode ter benefícios metabólicos para os doentes sob terapêutica anti-retroviral.

As mudanças na gordura corporal podem provocar níveis de stress muito elevados e serem estigmatizantes, portanto controlá-los pode ajudar a melhorar a auto-imagem e o bem-estar geral dos doentes com a infecção pelo VIH.

A secreção da hormona de crescimento é reduzida nos doentes seropositivos para o VIH com acumulação de gordura visceral. O tesamorelin é um factor de crescimento que liberta hormonas e os investigadores quiseram verificar se é um tratamento seguro e eficaz para os doentes infectados pelo VIH com acumulação de gordura visceral.

Concepção do estudo

Foi desenhado um estudo de seis meses, controlado por placebo, que envolveu adultos seropositivos com este problema clínico. Foram randomizados numa base de dois a um para receber tesamorelin ou placebo.

As mudanças na composição corporal foram avaliadas usando a TC e o DEXA e foram colhidas, regularmente, amostras de sangue para avaliar os parâmetros metabólicos. Tanto os doentes como os seus médicos preencheram questionários sobre a percepção das mudanças no “tamanho da barriga” e no “stress derivado da imagem da barriga”.

O estudo também envolveu uma fase de continuação de seis meses. Esta foi concebida para obter informações posteriores sobre a segurança do medicamento e para verificar qual a sua eficácia a longo prazo. Os doentes que inicialmente receberam o placebo passaram a tomar tesamorelin. As pessoas que receberam o medicamento na primeira fase do estudo foram randomizadas metade para continuar o medicamento ou para passar a tomar o placebo.

Para o estudo foram recrutados um total de 404 doentes. O tesamorelin foi administrado a 270 doentes e, aos outros 126 doentes, placebo.

A perda de gordura visceral foi em média de 11% no grupo a tomar tesamorelin em comparação com apenas 0,6% no grupo com placebo, uma diferença altamente significativa (p < 0,001).

Houve uma média de perda de gordura no tronco de 1 kg entre as pessoas tratadas com tesamorelin em comparação com uma redução média de 0,2 kg nos doentes que receberam placebo (p < 0,001).

A terapêutica com tesamorelin também produziu melhorias significativamente maiores no rácio anca/cintura (p < 0,001) e nos ganhos na massa corporal magra (p < 0,001) do que o placebo.

O importante é que o tesamorelin não afectou os níveis da gordura sub-cutánea.

Embora o medicamento tenha aumentado a libertação do factor-1 de crescimento semelhante à insulina (p < 0.001), não teve efeitos prejudiciais sobre os níveis dos lípidos ou no metabolismo da glucose.

Tanto a percepção dos doentes como a dos médicos da imagem da barriga melhorou mais no grupo com tesamorelin do que no braço placebo do estudo.

O número das discontinuações foi igual nos dois braços do estudo (25%).

Segurança nos últimos seis meses

No final dos seis meses da fase de extensão do estudo, houve uma redução de 17,5% no tecido visceral abdominal entre os doentes que continuaram a tomar tesamorelin em comparação com uma redução de 1% nas pessoas que passaram para o placebo (p < 0,001). Isto indicou que as melhorias na acumulação da gordura visceral central não eram mantidas após a interrupção da terapêutica com o medicamento, mas a redução da gordura visceral manteve-se quando o tratamento com tesamorelin foi continuado.

Padrões semelhantes também foram observados em noutras medições da composição corporal, com excepção da circunferência da cintura. Esta medida diminuiu de 3,8 cm desde o início do estudo no braço do tratamento e 2,4 cm no braço do placebo.

O tesamorelin não foi associado a nenhuma mudança significativa no metabolismo da glucose. Mas, comparando com o início do estudo, os que receberam o medicamento tinham um colesterol total significativamente mais baixo do que os doentes a tomar placebo (p < 0,05).

O tesamorelin manteve-se associado a uma melhoria da percepção da imagem corporal tanto pelos doentes como pelos médicos. Além disso, os doentes que passaram para o placebo também avaliaram a imagem do seu corpo mais em alta.

Taxas semelhantes de interrupção do tratamento foram observadas nos dois ramos do estudo.

No entanto, cerca de 4% dos doentes a receberem tesamerelin tiveram uma reacção localizada de hipersensibilidade perto do local da injecção do medicamento. “Para estes doentes”, escrevem os investigadores, “a interrupção do tratamento é prudente”.

Concluem que, “ este estudo demonstrou que o tesamorelin melhora significativamente a composição corporal…estes benefícios ocorreram sem qualquer aumento significativo nos níveis de glucose ou insulina.”

O produtor do tesamorelin, a empresa canadiana de biotecnologia Theratechnologies, está actualmente à espera que a Food and Drug Administration dos E.U.A reavalie o produto (para ser comercializado como Egrifta®), esperado antes do fim de Março. O tesamorelin será comercializado nos Estados Unidos pela Serono.

Referências

Falutz J et al. Effects of tesamorelin, a growth hormone-releasing factor, in HIV-infected patients with abdominal fat accumulation: a randomised placebo-controlled trial with a safety extension. J Acquir Immune Defic Syndr, publicado online antes de imprimir, 2010.