Segundo um estudo divulgado na 17a CROI (Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas, realizada em Chicago), a taxa de infecções pelo VIH em S. Francisco parece estar a diminuir. Esta queda é devida a uma redução na carga viral média das pessoas seropositivas, devido ao facto de mais pessoas se encontrarem em tratamento.
A Dra. Moupali Das, do Departamento de Saúde Pública de S. Francisco (DPH) disse na Conferência que, em última análise, a redução das infecções se devia a um aumento da realização de testes do VIH. Estima-se, de facto, que apenas uma em cada sete pessoas infectadas pelo VIH na cidade não esteja consciente da sua infecção, uma das mais baixas taxas de infecções não diagnosticadas no mundo.
Entre 2004 e 2008, referiu a Dra. Das, o número de diagnósticos em S. Francisco caiu cerca de 45%, e a carga viral média da população infectada, cerca de 40%. O DPH também estimou que a verdadeira incidência do VIH – o verdadeiro número de novas infecções VIH, diagnosticadas e não diagnosticadas – caiu cerca de um terço entre 2006 e 2008.
Durante o referido período de 4 anos, a proporção de pessoas despistadas que já tinha feito o teste no ano anterior aumentou de 65% para 72%, e a proporção dos que se haviam testado nos últimos 6 meses subiu de 41% para 53%. Estima-se que, durante este período, a percentagem de pessoas com VIH não cientes da sua infecção tenha caído de 24% para 14.5%.
A percentagem das pessoas com diagnóstico de infecção em contacto com os cuidados de saúde aumentou para cerca de 80%, e, dentro destes, a das que faziam terapêutica com ARVs aumentou de 78% para 90%, apresentado quase três quartos delas uma carga viral indetectável (abaixo das 75 cópias/ml).
O sistema de vigilância da infecção pelo VIH da cidade de S. Francisco inclui a declaração obrigatória das cargas virais. O DPH pôde assim calcular duas medidas diferentes da chamada ‘carga viral da comunidade’ (CVC) na população seropositiva que frequentava as consultas. Para essas medidas usaram tanto a carga viral (CV) média, como a carga viral mais recente de todos os indivíduos das consultas, assim como a soma cumulativa de todas as CVs.
“A carga viral da comunidade actua como um virómetro”, referiu a Dra. Das, “uma medida da temperatura da epidemia”.
Assim, os investigadores descobriram que a CVC média era de 23.000, em cada ano, entre os anos de 2002 e 2005, tendo depois caído, passando para cerca de 15.000 em 2008.
Ao mesmo tempo, o número de novos diagnósticos do VIH caiu de 796 em 2004 para 434 em 2008. A associação entre a redução da carga viral e a dos novos diagnósticos foi considerada estatisticamente significativa (p = 0.019).
Contudo, é importante notar que isto é apenas uma medida da correlação entre a carga viral e os diagnósticos: estes valores não provam que uma causou a outra.
Um algoritmo do CDC norte-americano (Centers for Disease Control), que calcula a provável incidência verdadeira da infecção a partir dos dados do diagnóstico e da frequência de realização do teste, permitiu aos investigadores estimarem que o verdadeiro número de infecções pelo VIH na cidade caiu em dois anos 34%, de aproximadamente 930 em 2006 para 620 em 2008. Contudo, devido à margem de erro deste método de calcular a incidência, este dado não foi estatisticamente significativo (p = 0.3), não se podendo pois afirmar que ele prova estar a ocorrer um declínio real.
O estudo apresenta uma limitação significativa, pois não pode incluir a carga viral das pessoas não diagnosticadas no cálculo da CVC, embora uma redução na percentagem dos não diagnosticados conduza indirectamente a uma redução da CVC, devido ao facto de mais pessoas se encontrarem em tratamento.
É interessante referir que a redução nos novos diagnósticos e na incidência estimada ocorreu num contexto de aumentos significativos das ITSs (infecções de transmissão sexual), incluindo a gonorreia rectal e a sífilis. A Dra. Das referiu que talvez a prática de serosorting (isto é, a escolha do parceiro em função do seu estado serológico para o VIH) seja a responsável pelo facto de o aumento das ITSs não se repercutir no número de novas infecções pelo VIH.
“Os nossos achados apoiam a hipótese de que a instituição precoce e em larga escala do tratamento ARV pode ter um efeito preventivo ao nível da população”, comentou a Dra. Das. Que referiu que a CVC constituía um bom preditor upstream do número provável de novas infecções, podendo dessa forma ser usado para planear recursos futuros e medidas de prevenção.