O abacavir deteriora a função endotelial, possivelmente explicando o maior risco de ataque cardíaco

Michael Carter
Published: 12 October 2009

De acordo com um grupo de investigadores cujo estudo foi publicado na edição de 24 de Setembro da revista AIDS, o tratamento com abacavir deteriora a função endotelial (endotélio = superfície de revestimento interna dos vasos sanguíneos), facto que poderá explicar a associação deste fármaco com maior risco de ataque cardíaco.

Os investigadores descobriram que as pessoas actualmente a fazer abacavir (assim como as que o tomaram no passado) apresentavam uma deterioração da dilatação fluxo-mediada na artéria braquial, por comparação com as pessoas sem história de tratamento com esta substância.

Como é sabido, as pessoas com VIH apresentam um maior risco de doença cardiovascular, situação para a qual têm sido apresentadas várias razões, entre as quais um possível aumento da inflamação, os efeitos do próprio vírus, ou os efeitos colaterais dos medicamentos ARVs.

Entretanto, mais recentemente, alguns estudos encontraram uma associação entre o tratamento com abacavir (Ziagen®; também presente nos medicamentos de combinação Kivexa® e Trizivir®) e enfarte do miocárdio (ataque cardíaco), cujas razões não são bem conhecidas.

Tem sido, porém, sugerido que o tratamento com esta substância está associado a uma deterioração da função endotelial, um factor preditivo de doença cardiovascular.

A medição da dilatação fluxo-mediada na artéria braquial pode predizer quais as pessoas que têm maior risco futuro de doença cardiovascular. O valor desta medição pode mudar rapidamente em resposta ao uso de fármacos ARVs, e é sensível à inflamação.

Foi então neste contexto que um grupo de investigadores envolvidos na coorte SCOPE (Study of the Consequences of the Protease Inhibitor Era), ou seja, Estudo das Consequências da Era dos Inibidores da Protease) foi procurar perceber se essa dilatação se encontrava alterada nas pessoas seropositivas para o VIH com antecedentes de tratamento com abacavir.

Foram incluídos no estudo 61 indivíduos. Todos tinham estado sob terapêutica ARV estável, pelo menos, nos seis meses anteriores e apresentavam uma carga viral abaixo das 75 cópias/ml.

Tinham sido infectados pelo VIH há 18 anos, em média e apresentavam uma contagem média de CD4s de 369 células/mm3. A sua idade média era de 50 anos e 95% eram homens. O abacavir estava actualmente a ser tomado por 30 doentes, sendo o tempo médio de tratamento com a substância um pouco superior a um ano.

Os resultados mostraram que a função endotelial se encontrava deteriorada no coorte, encontrando-se o valor médio da dilatação fluxo-mediada na artéria braquial nos 3.5%.

Contudo, este parâmetro encontrava-se significativamente mais comprometido nas pessoas a tomar abacavir do que nas restantes (2.8% vs 4.9%, p = 0.01).

Cinco doentes tinham uma história anterior de tratamento com abacavir e apresentavam uma deterioração significativa do parâmetro em análise, por comparação com as pessoas que nunca haviam tomado este medicamento (p = 0.04).

A associação entre o tratamento com abacavir e a deterioração da função endotelial permaneceu estatisticamente significativa, mesmo depois dos investigadores levarem em conta os tradicionais factores de risco para doença cardiovascular como a história familiar, a diabetes, tensão arterial elevada e aumento do nível dos lípidos.

“O nosso estudo pode ajudar a fornecer uma explicação para o mecanismo biológico subjacente à associação entre enfarte do miocárdio e terapêutica recente ou actual com abacavir, observada em estudos observacionais”, referem os investigadores. Que acrescentam: “é preciso que estudos futuros confirmem os nossos achados, e que ajudem a determinar se a deterioração da função endotelial associada ao abacavir contribui para a relação clínica observada entre o abacavir e o enfarte do miocárdio”

Referência

Hsue PY et al. Association of abacavir and impaired endothelial function in treated and suppressed HIV-infected patients. AIDS 23: 2021-2027, 2009.