De acordo com um estudo publicado na edição online da Clinical Infectious
Diseases por investigadores das
forças militares norte-americanas, muitas pessoas com VIH têm insónia ou
sonolência diurna. Contudo, a prevalência das alterações do sono não foi mais
elevada nas pessoas com VIH do que nas pessoas sem VIH que participaram no
estudo como controlos. Os fatores de risco para insónia incluíram depressão e
aumento do tamanho da cintura. Por fim, não se registou evidência de que o
tratamento ARV, qualquer que ele fosse, aumentasse o risco de insónia.
“Descobrimos que as pessoas
com VIH têm uma prevalência elevada de alterações do sono”, comentam os
autores. “Apesar da elevada prevalência de insónia, as pessoas infetadas pelo
VIH não apresentavam uma taxa estatisticamente significativa mais elevada do
que as pessoas não-infectadas que participaram como controlos. Estes dados
sugerem que na era HAART [highly
active antiretroviral therapy], os doentes com um diagnóstico e um início
precoce de tratamento podem apresentar taxas de perturbações do sono
semelhantes às da população em geral”.
Há muito que é sabido que a insónia é frequente nas
pessoas com VIH. Contudo, a maioria dos estudos que avaliam a prevalência das
alterações do sono em pessoas com VIH foram concluídos antes da terapêutica ARV
de combinação ter ficado disponível. A investigação conduzida desde então tem tendido a
focar-se na associação entre tratamento com efavirenze (Stocrin®; também no Atripla®)
e qualidade do sono. Além disso, grande parte da investigação é limitada, uma
vez que não inclui um grupo de “controlo” de pessoas VIH-negativas, com as
quais as seropositivas para o VIH possam ser comparadas.
Foi neste contexto que um grupo de investigadores das
forças armadas dos EUA desenhou um estudo, onde se procurou avaliar a
prevalência e causas da insónia e sonolência diurnas numa coorte de pessoas
VIH-positivas, comparada com um grupo de pessoas sem VIH.
Todas as pessoas tinham entre 18 e 50 anos e todas (as
193 seropositivas para o VIH e as 50 que serviram de “controlo”) completaram
questionários validados sobre insónia e sonolência diurna. A idade média foi de
36 anos, 95% pertenciam ao sexo masculino e 50% eram brancos. Nas pessoas com
VIH, o índice de massa corporal (IMC) médio foi de 27.5 e 25% foram
consideradas obesas. Foi notada a presença de lipodistrofia em 52% das pessoas
deste grupo, que contava ainda com 7% de pessoas com depressão.
Quanto à contagem de células CD4, o seu valor médio no
início do estudo foi de 587/mm3. Dois terços das pessoas com VIH
encontrava-se a fazer tratamento ARV e 55% apresentava uma carga viral indetetável.
Quanto aos sintomas, 46% das pessoas seropositivas referiu
insónia. A quantidade média de horas dormidas à noite foi de 6.5 horas, tendo
46% referido menos de sete horas de sono. Apenas menos de um quarto (23%) das
pessoas deste grupo (seropositivas) classificou a qualidade do seu sono como
“má”. Quanto à disfunção diurna provocada por sonolência, ela foi referida por
53% das pessoas com VIH, grupo que referiu também, em 30% dos casos, sonolência
durante o dia. O uso de medicamentos para o sono pelo menos uma vez por semana
foi referido por 18% das pessoas deste grupo.
Já no que se refere à prevalência da insónia nas
pessoas “controlo” seronegativas para o VIH, ela foi de 38%, valor não
significativamente diferente dos 46% de prevalência verificado entre as pessoas
com VIH. A proporção de pessoas seronegativas para o VIH que referiu sonolência
diurna também não diferiu de forma significativa, o mesmo que sucedeu aliás com
a percentagem de pessoas dos dois grupos que referiu uso regular de medicação
para a insónia (18% versus 16%).
Os investigadores procederam depois a uma série de análises para
estabelecer os fatores associados às perturbações do sono nas pessoas com VIH.
A análise univariada mostrou uma associação significativa com menos anos de educação
(p = 0.005), obesidade (p = 0.04), aumento do perímetro da cintura (p
<0.001), tabagismo (p = 0.01), história de traumatismo importante da cabeça
(p = 0.006), depressão (p = 0.006) e neuropatia periférica (p = 0.02). As
pessoas de patentes superiores (oficiais) apresentaram um risco menor de
insónia que as de patentes inferiores (p = 0.04).
A subsequente análise multivariada, que controlava
para potenciais fatores confundentes, mostrou que apenas a depressão (p =
0.01), tamanho da cintura (p = 0.002) e menos educação (p = 0.006) estavam
associados com risco de insónia.
“O
mais importante fator associado a insónia nas pessoas com VIH do nosso estudo
foi a depressão”, observam os investigadores, “um achado consistente com outros
estudos, e que mostra que a morbilidade de origem psicológica constitui um fator
major de insónia entre as pessoas com
VIH”.
Os
autores acreditam que este achado tem implicações no cuidado prestado aos
doentes: “o tratamento da depressão pode melhorar a qualidade do sono, e o
tratamento dos distúrbios do sono pode diminuir a incidência de depressão”. De
resto, não houve evidência de que a terapêutica ARV ou o uso de qualquer
medicamento ARV individual estivessem associados com insónia.
Entretanto, o follow-up dos doentes mostrou que as pessoas com insónia
apresentavam uma maior probabilidade de referir um declínio nos parâmetros das
funções neurocognitivas do que as pessoas sem insónia (p = 0.01).
“Insónia e sonolência diurna são comuns entre as
pessoas com VIH, mas num contexto de diagnóstico e tratamento precoces da infeção,
a prevalência destas situações não parece ser mais elevada do que a presente
nas pessoas sem VIH”, concluem os autores. “Assim, preconiza-se o diagnóstico
pronto e o tratamento atempado destas situações, que uma vez implementados
podem melhorar a qualidade de vida”.