No entanto, os resultados
principais destes ensaios escondem um número de ressalvas, nota Tracy Swan do
Grupo de Acção e Tratamentos de Nova Iorque.
No Relatório
da Pipeline do Tratamento da Hepatite
C publicado no mês passado, Tracy Swan sublinhou que existem uma série de
perguntas sem resposta que deveriam fazer parar para pensar como tratar os
doentes portadores de hepatite C utilizando os novos medicamentos. Estes
assuntos têm a probabilidade de serem tão relevantes para os doentes
co-infectados pelo VIH/VHC como para a, muito maior, população de doentes
mono-infectados pela hepatite C.
Em particular, Tracy aponta para a
taxa mais baixa de resposta em doentes que falharam à primeira linha de
tratamento com interferão peguilado. Estes doentes tinham menos probabilidades
de adquirir uma resposta virológica sustentada em ensaios clínicos de
telaprevir e boceprevir, apesar das respostas serem melhores do que aquelas
observadas nos grupos de controlo que recebem tratamento padrão.
No caso do estudo REALIZE do telaprevir,
por exemplo, apenas 31% dos respondedores nulos anteriores obtiveram uma
resposta bem sucedida ao telaprevir, comparados com 83% dos doentes que apresentaram,
uma recidiva virológica após completar o tratamento de forma bem sucedida.
Entre estes respondedores nulos portadores de cirrose – os doentes com uma
necessidade mais urgente de tratamento – a taxa de cura era de apenas 14% no
grupo do telaprevir.
As taxas de cura eram igualmente
mais baixas entre os doentes portadores de cirrose que tinham uma resposta à
terapêutica anterior (definida como uma redução na carga viral do VHC de pelo
menos 2 log na semana 12 sem alcançar a carga viral indetectável antes que a
terapêutica fosse completada). 34% deste grupo alcançou uma resposta virológica
sustentada em comparação com 59% do total de não respondedores.
Estas conclusões sugerem que os
doentes portadores de uma doença hepática avançada irão necessitar de pesar
cuidadosamente os riscos e benefícios de tentarem outro curso de interferão peguilado
e de ribavirina, em combinação com um novo inibidor da protease do VHC. Seria
melhor esperar por mais medicamentos ou a severidade da doença hepática aconselha
a fazer de imediato uma nova tentativa para atingir a cura?
Estas questões podem causar mais
pressão a doentes portadores da co-infecção pelo VIH/VHC, uma vez que a doença
do fígado pode ter uma progressão mais rápida, particularmente se o VIH não estiver
controlado pelo tratamento.
Existe também a incerteza sobre
quanto tempo os doentes necessitam de tomar novos medicamentos, uma questão que
é crucial devido ao custo dos novos tratamentos para a hepatite C – e a
conveniência e tolerabilidade destes medicamentos.
Pelo lado positivo, os ensaios
clínicos de ambos os inibidores da protease reforçaram o conceito de
“terapêutica guiada pela resposta” ao tratamento da hepatite C, ao estabelecer
uma série de metas temporais nas quais o tratamento com inibidores da protease
ou os outros medicamentos poderiam ser interrompidos se o VHC fosse
indetectável.
No caso do telaprevir, existe
evidência que sugere que o tratamento com um interferão peguilado e ribavirina
possa ser encurtado para 24 semanas, se o VHC for indetectável após 12 semanas
de tratamento. Com o boceprevir, o tratamento deveria continuar até à semana
24, mas o tratamento da hepatite C pode parar completamente neste ponto se o
ARN do VHC for indetectável entre as semana 8 à 24.
No entanto, a maior complexidade
do tratamento com o boceprevir é a fase de indução de quatro semanas com
interferão peguilado e ribavirina desenhada para reduzir a carga viral e assim
minimizar o risco de resistência do boceprevir. O que deverá acontecer se um
doente não mostrar sinais de resposta virológica após esta fase de quatro
semanas? Será que o doente basicamente não responde ao interferão, e assim
possivelmente irá falhar o tratamento por completo?
O estudo REALIZE do telaprevir em
doentes com experiência em tratamento demonstrou que uma fase de indução de 4
semanas não melhorou as taxas de resposta.
Numa possível repetição da
história na área do VIH, alguns especialistas estão preocupados que o uso
prematuro dos novos agentes em doentes com fraca possibilidade de resposta
possa deixá-los com resistência a novos agentes, o que poderá afectar a sua
resposta a inovações subsequentes no tratamento para a hepatite C.
O Professor Heiner Wedemeyer, Secretário-geral
da Associação Europeia para o Estudo do Fígado, afirmou numa conferência de
imprensa no congresso da semana passada que: “Estudos demonstram que cuidados
devem ser tomados na prescrição e uso de novos componentes. O que queremos
evitar é a rápida disseminação da resistência ao VHC dentro da população de
doentes, o que poderá baixar drasticamente a eficácia de novos medicamentos.”
Provas do estudo SPRINT-2 do
boceprevir demonstram que os doentes na categoria de fraca resposta tinham um
risco elevado de desenvolverem resistência aos medicamentos. Este facto, por
sua vez, poderia comprometer a sua resposta a um tratamento experimental
futuro.
(Ver o sumário
deste estudo feito pela Clinical Care
Options – é necessário registar-se)
No entanto também existem provas
de que as mutações de resistência ao telaprevir podem desvanecer-se com tempo,
possivelmente permitindo que o medicamento ou outro inibidor da protease do VHC
sejam utilizados de novo. Serão necessárias muitas mais provas nesta questão
para convencer os especialistas do fígado de que reutilizar ou sequenciar os
inibidores da protease do VHC será possível caso o tratamento falhe.
Estão a ser desenvolvidos outros
inibidores da protease. A Tibotec apresentou
resultados preliminares de um estudo fase IIb do TMC-435, estudado em
combinação com interferão peguilado e ribavirina. Dados à semana 24 de resposta
virológica mostraram uma falência muito menos marcada nas taxas de resposta entre
os doentes que recidivaram, respondedores parciais anteriores e respondedores
nulos. Na semana 24, 92-96% dos doentes medicados com o inibidor de protease no
anterior grupo de recidivantes tinha o ARN do VHC indetectável, tal como tinham
70-87% dos respondedores nulos, de acordo com as doses e horário do tratamento.
Para fazer uma comparação significativa
com o boceprevir ou o telaprevir serão necessárias mais 24 semanas de
seguimento de modo a avaliar se estes doentes alcançam uma resposta virológica
sustentada.
O inibidor da protease do VHC da
Roche também demonstrou resultados preliminares fortes num estudo em anteriores
respondedores nulos, pelo menos em doentes infectados com o genótipo 1b do VHC.
O danopevir é potenciado com ritonavir do mesmo modo que os inibidores da
protease do VIH e administrado em conjunto com o interferão peguilado e
ribavirina. À semana 12, 88% dos doentes portadores do genótipo 1b que fizeram
danoprevir alcançaram uma resposta virológica rápida (ARN do VHC indetectável à
4ª semana). Em comparação, uma recidiva viral de taxa elevada ocorreu semanas
após a supressão viral no grupo do genótipo 1a. (Ver o sumário
deste estudo feito pela Clinical Care
Options – É necessário registar-se).