Novo medicamento para a tuberculose multirresistente com bons resultados em ensaio clínico

Michael Carter
Published: 23 June 2009

De acordo com os resultados de um ensaio randomizado e controlado com placebo publicados na edição de 4 de Junho da revista New England Journal of Medicine, o TMC207 é um medicamento seguro e eficaz no tratamento da tuberculose multirresistente (TB-MR).

De facto, os doentes que receberam este tratamento, tinham uma probabilidade significativamente maior de apresentar uma cultura negativa após oito semanas de tratamento, do que os doentes que foram medicados com o tratamento padrão de segunda linha.

O autor do editorial acompanhante descreve o desenvolvimento deste novo fármaco como “um avanço importante na quimioterapia da tuberculose”.

Em 2006, houve mais de 9 milhões de casos de tuberculose diagnosticados em todo o mundo e 1.7 milhões de mortes devido à infecção. Muitos doentes com TB estão também infectados com VIH, constituindo a TB a principal causa de morte entre as pessoas seropositivas em todo o mundo.

O tratamento da TB consiste na administração de múltiplos fármacos, por pelo menos seis meses. Entretanto, têm surgido desde há vários anos algumas estirpes de TB que são resistentes (TB-MR) a dois fármacos cruciais de primeira linha, a rifampicina e a isoniazida. Além destas, outras estirpes apresentam também resistência aos fármacos de segunda-linha – fenómeno denominado por TB extensamente resistente (TB-XR).

O TMC207 é uma substância em investigação pertencente à classe das diarilquinolinas. Os testes realizados in vitro mostraram que a substância apresentava uma actividade considerável contra a TB resistente.

Os investigadores desenharam então a fase II do seu estudo, que consistiu num ensaio controlado com placebo, envolvendo doentes com TB-MR recém-diagnosticada, com exame da expectoração positivo, de forma a avaliar a segurança, efeitos secundários, farmacocinética e acção anti-bacteriana do TMC207.

O estudo envolveu 47 doentes hospitalizados na África do Sul, com idades compreendidas entre os 18 e os 65 anos. Todos os doentes receberam uma combinação de cinco medicamentos para o tratamento da TB-MR.

Os 47 elementos do grupo foram depois distribuídos aleatoriamente (randomizados) em dois sub-grupos, um que foi medicado com TMC207 (400mg/dia durante duas semanas, seguidos de 200mg, três vezes por semana, durante seis semanas), e outro, que recebeu placebo.

A maioria dos doentes (74%) era do sexo masculino, 55% eram negros e 13% eram seropositivos para o VIH. A adesão foi boa, tendo sido tomadas 97% das doses, tanto num como no outro braço do estudo.

Uma proporção semelhante de doentes dos dois braços terminou o estudo (87%).

Não se verificaram interrupções prematuras devido a efeitos secundários. O perfil destes efeitos foi semelhante nos dois braços do estudo, com excepção das náuseas, referidas em maior número pelos doentes do grupo medicado com TMC207 (26% vs. 4%, p = 0.04).

A expectoração tornou-se negativa significativamente mais depressa nos doentes tratados com TMC207, do que nos que receberam placebo. Quarenta e oito por cento dos doentes a receber a nova substância atingiram uma cultura negativa, por oposição a 9% dos do grupo do placebo.

“Os nossos dados mostram evidência de que o TMC207, em combinação com um regime de segunda linha composto por cinco fármacos, apresentou um perfil de efeitos secundários aceitável; reduziu o tempo de conversão da cultura da expectoração em doentes com TB-MR, com esfregaço positivo, recém-diagnosticada; e aumentou significativamente a proporção de doentes com culturas negativas ao fim de oito semanas”, comentam os investigadores.

O autor do editorial acompanhante acredita que tanto a nova substância como o ensaio clínico são “muito encorajadores”. Contudo, o autor pensa que o uso do fármaco será provavelmente restringido à terapêutica de segunda-linha, o que se deve ao facto de os dados sobre segurança disponíveis serem limitados e “estarem a precisar de ser urgentemente ampliados”. Além disso, a substância é metabolizada através da via do citocromo P450, via também utilizada pelo importante fármaco anti-TB, rifampicina, levantando a possibilidade de uma interacção negativa entre as duas substâncias.

As interacções com anti-retrovirais como o efavirenze e a nevirapina – também processados através desta via metabólica – serão investigadas pela empresa que tem desenvolvido o novo fármaco, a Tibotec, uma companhia da Johnson & Johnson.

Referência

Diacon AH et al. The diarylquinoline TMC207 for multidrug-resistant tuberculosis. N Engl J Med 360: 2397-2405, 2009.

Barry CE Unorthodox approach to the development of a new antituberculosis therapy. N Engl J Med 360: 2466-67, 2009.