Investigadores suíços desenvolveram uma ferramenta ou escala que ajuda a identificar quais os doentes seropositivos com VIH e sarcoma de Kaposi (SK) que estarão mais em risco de progressão desta neoplasia. Segundo um relatório publicado na edição de 31 de Maio da revista AIDS, esta nova ferramenta pode ajudar a decidir quais os doentes que mais beneficiarão com o tratamento do sarcoma de Kaposi, evitando-o nos doentes com pouco risco de progressão.
A terapêutica anti-retroviral altamente eficaz (HAART) reduziu a incidência de sarcoma de Kaposi nas pessoas infectadas pelo VIH, tendo-se observado uma descida dramática no número de novos casos desde a introdução da terapêutica de combinação, a meio da década de 90. No entanto, a resposta aos tratamentos instituídos para o sarcoma de Kaposi é imprevisível; alguns casos regridem, mas muito progridem e neste caso, 30% dos doentes morrem.
Existe pouca informação sobre os factores preditivos de progressão do sarcoma de Kaposi e os médicos têm dificuldade em decidir qual o tratamento mais adequado para os doentes com mais probabilidade de progressão da neoplasia. A existência de uma escala ajudaria a identificar os doentes em alto risco, poupando os doentes com pouco risco de progressão aos efeitos tóxicos associadas à quimioterapia para o tratamento do sarcoma de Kaposi.
Para melhor perceber os factores preditivos de progressão do sarcoma de Kaposi, os investigadores do Swiss HIV Cohort Study analisaram retrospectivamente os casos de sarcoma de Kaposi existentes na base de dados suíça. Os registos dos doentes com diagnóstico de sarcoma de Kaposi confirmado laboratorial ou clinicamente foram avaliados de acordo com um grupo de potenciais factores de prognóstico, que incluiu as características socio-demográficas, o estádio de sarcoma de Kaposi, as características da infecção pelo VIH e o seu tratamento e os marcadores virológicos relacionados com a infecção pelo vírus herpes 8 (VHH8), o vírus associado ao sarcoma de Kaposi.
As lesões de sarcoma de Kaposi foram estadiadas da seguinte maneira: T0 – lesões confinadas à pele, gânglios linfáticos ou com moderado envolvimento oral; T1 – sarcoma de Kaposi em estádio avançado na cavidade oral e na pele, edema associado a sarcoma de Kaposi ou SK envolvendo orgão visceral. Os marcadores virológicos para o vírus herpes 8 incluíam PCR quantitativa (bDNA) e títulos de anticorpos anti-VHH8.
Os investigadores analisaram os factores de prognóstico no momento de diagnóstico (de base) e registaram quais os casos que necessitaram de quimioterapia e as mortes. A quimioterapia foi iniciada em 27% dos casos e a taxa de mortalidade, por qualquer causa, foi de 21%, estando estes números de acordo com as publicações existentes sobre as taxas de sobrevivência de sarcoma de Kaposi.
Na análise multivariável os investigadores identificaram 3 factores de base associados ao aumento de risco de mau prognóstico:
• Os doentes com sarcoma de Kaposi com estadiamento T1 tinham um risco de cerca de 5 vezes superior de necessitar de tratamento com quimioterapia ou de morrer (HR 5.22 p<0.001)
• Contagem de células CD4 inferior a 200/mm3 (HR 2.33 p=0.01)
• PCR positiva para HHV8 (HR 2.12 p=0.01)
Factores como, idade, sexo, orientação sexual, origem geográfica ou terapêutica anti-retroviral, não estavam associados a um pior prognóstico.
Com base neste três factores e no seu risco associado, os investigadores propuseram um escala simples na qual ao estadiamento T1 é atribuída uma pontuação de 2 valores e a uma contagem de células CD4 inferior a 200/mm3 e a um teste PCR DNA VHH8, uma pontuação de 1 valor.
“Esta nossa escala é fácil de usar na prática do dia a dia” escrevem os autores. “Cada ponto a mais na escala está associado a uma risco duas vezes superior de morte ou de necessidade de tratamento com quimioterapia. Sugerimos que os doentes com um índex de 2 ou superior sejam considerados como de maior risco, devendo ser seguidos de forma mais apertada, considerando-se o uso de quimioterapia, enquanto que os doentes com um valor inferior poderão ser tratados apenas com medicação anti-retroviral altamente eficaz (HAART).” Um relatório recente da autoria de investigadores italianos sugere que a terapêutica anti-retroviral pode ser a peça chave no tratamento de SK.
Os autores do artigo publicado na revista AIDS referem que tanto o estádio de SK como a contagem de células CD4 têm sido previamente associados a progressão da doença, mas afirmam que o seu estudo é o primeiro a identificar o teste de quantificação de VHH8 como um factor preditivo. Os resultados de alguns pequenos estudos sugerem que a ausência de VHH8 no sangue é um factor de melhor resposta clínica.
De acordo com os investigadores e em contraste com alguns artigos publicados, as combinações terapêuticas que incluem inibidores da protease não são mais eficazes no controle de sarcoma de Kaposi que as que incluem medicamentos inibidores da transcriptase reversa não nucleósidos, uma vez que os resultados observados foram semelhantes.