Um método comum de avaliar esta situação consiste na medição através de ultra-sons (ecografia) da espessura das paredes arteriais – conhecida como intima-media thickness (IMT) ou, em português, espessura da íntima-média (íntima e média são duas das camadas das paredes arteriais). Em particular, é usada a medição deste índice nas artérias carótidas, as importantes artérias que fornecem sangue ao cérebro. Contudo, os resultados podem variar, consoante a avaliação é feita na artéria carótida principal, na sua bifurcação ou num dos seus dois ramos (a artéria carótida interna e a externa).
Priscilla Hsue e colegas, da Universidade da Califórnia, em S. Francisco, foram assim comparar a progressão da IMT na artéria carótida comum, na sua bifuração e na carótida interna em indivíduos com e sem VIH. A Dra. Hsue explicou que devido à dinâmica do fluxo sanguíneo, a região da bifuração pode ser mais susceptível à inflamação e ao desenvolvimento de aterosclerose do que as outras duas regiões.
Assim, uma lesão mais precoce pode ser detectada mais cedo nesta região, antes pois de aparecer noutro local daquelas artérias.
Como, porém, a região da bifurcação coloca mais obstáculos à medição, muitos investigadores têm favorecido a avaliação nos outros locais.
O estudo agora em questão incluiu 285 participantes seropositivos oriundos sobretudo da coorte SCOPE, do San Francisco General Hospital. A maioria (72%) encontrava-se a fazer tratamento ARV e 47% apresentava carga viral (CV) suprimida, sob tratamento. Adicionalmente, 22 participantes vinham de uma coorte de “controladores de elite” (ou seja, que mantinham uma CV indetectável mesmo sem tratamento) e 40 eram pessoas seronegativas que serviram de controlos.
Cerca de 85% dos participantes eram homens, cerca de 70% de brancos, e a idade média dos participantes era de 45 anos. As pessoas com VIH estavam infectadas há cerca de 13 anos em média, encontrando-se a fazer ARVs há quase 4 anos. A contagem média actual de CD4s era de 433 células/mm3, mas o nadir (valor mais baixo alguma vez atingido nessas pessoas) havia sido de 150 células/mm3.
No que respeita aos factores de risco tradicionais para doença cardiovascular, os participantes seropositivos apresentavam um valor significativamente mais baixo de colesterol-LDL (o “mau” colesterol), mas níveis mais altos de triglicéridos e PCR (Proteína C reactiva de elevada sensibilidade, um importante marcador da inflamação).
As pessoas seropositivas eram também com maior probabilidade do que as seronegativas fumadoras (68% vs 53%) e tinham maior prevalência de pressão arterial elevada (28% vs 13%), diabetes (7% vs 3%) e antecedentes de doença cardíaca ou trombose (8% vs 3%), embora nenhuma destas diferenças atingisse o patamar do significado estatístico.
Os investigadores mediram a IMT em doze segmentos da artéria carótida e calcularam as taxas anualizadas de progressão. À partida, a IMT era maior nas pessoas infectadas pelo VIH do que nos controlos negativos, tanto em termos globais (0.86 vs 0.71 mm) como em cada região das carótidas avaliada.
Depois de um follow-up (acompanhamento) médio de dois anos, a progressão da IMT foi significativamente mais rápida nas pessoas seropositivas, em comparação com os controlos negativos para o VIH (0.046 vs 0.012 por ano), diferença que se manteve significativa depois de feitos os ajustamentos para os factores de risco tradicionais como, por exemplo, o tabagismo.
Contudo, este resultado variou consoante o local de medição. Entre os participantes com VIH, a progressão da IMT foi mais evidente na região da bifurcação, seguida da carótida interna e só depois da carótida comum. A diferença na progressão entre as pessoas com e sem VIH foi maior na região da bifurcação (0.074 vs 0.013 mm/ano), seguida da região da carótida interna (0.046 mm/ano vs nenhuma), não tendo embora sido significativa na carótida comum (0.074 vs 0.013 mm/ano).
Entre as pessoas sob terapêutica supressiva e nos controladores de elite, a progressão da IMT foi significativamente maior do que a verificada nas pessoas não infectadas, na região da bifurcação, mas não na carótida comum.
Os níveis de PCR encontravam-se relacionados de forma mais íntima à progressão da IMT na região da bifurcação. Depois de feito o ajustamento para os factores de risco tradicionais e o estado quanto ao VIH, a PCR mostrou-se associada de forma independente à progressão da IMT na região da bifurcação, enquanto nas outras regiões os factores de risco tradicionais se mostraram mais preditivos. Quando a análise foi ajustada de forma a levar em conta os níveis de PCR o efeito independente do VIH foi reduzido.
Com base nestes achados, os investigadores concluíram que “a inflamação relacionada com o VIH contribui para o aumento do risco de aterosclerose no contexto do VIH”.
Inquirida sobre a relevância clínica destes dados, a Dra. Hsue referiu que embora as alterações da IMT fossem muito pequenas, a progressão da IMT tem sido fortemente correlacionada com o aumento do risco de doença cardiovascular na população seronegativa em geral.