Não se deve tomar Ginkgo biloba em conjunto com efavirenze

Michael Carter
Published: 29 May 2009

O medicamento à base da planta Ginkgo biloba não deve ser tomado quando se está medicado com efavirenze, de acordo com um alerta de investigadores holandeses publicado na edição de Junho da revista AIDS. Nesse artigo, os autores relatam um caso em que se verificou carga viral detectável, com desenvolvimento de resistências, devido à interacção entre Ginkgo biloba e efavirenze.

O efavirenze (Stocrin®), que também faz parte da combinação Atripla®) é um dos medicamentos mais usados no tratamento antti-retroviral de primeira linha. Tem um efeito anti-VIH potente, é fácil de tomar, tem uma semi-vida longa e geralmente provoca apenas ligeiros efeitos secundários.

O organismo metaboliza este medicamento através da via P450 no fígado.

Esta via de metabolização é também utilizada por vários medicamentos, remédios à base de plantas e drogas recreativas, o que significa que podem interagir com o efavirenze.

Este tipo de interacção medicamentosa ocorreu num doente seropositivo de 47 anos de idade em Amesterdão e provocou a falência virológica do seu tratamento anti-retroviral.

O doente apresentava uma adesão completa ao tratamento e referiu nunca ter falhado qualquer toma. A combinação terapêutica era constituída por efavirenze, FTC (emtricitabina) e tenofovir (Viread®). O doente iniciou esta medicação em 2005.

Nos finais de 2007, verificou-se falência virológica e a emergência das mutações de resistência K103N e M184V.

No sentido de identificar a causa da falência ao tratamento os seus médicos questionaram-no sobre o uso de outros fármacos ou drogas. Ficou esclarecido que o único produto que tinha sido tomado em conjunto era Ginkgo biloba.

As concentrações de efavirenze nas amostras de sangue do doente guardadas durante os dois anos de tratamento com efavirenze foram estudadas pelos investigadores.

As concentrações de efavirenze no sangue diminuíram a partir de um pico máximo de 1,26 mg/dl (bem acima do nível terapêutico deste medicamento) no final de 2006, quando o doente apresentava carga viral de VIH indetectável, para um valor não terapêutico de 0,48 mg/dl em Fevereiro de 2008. Nesta altura a carga viral do doente era de 1 780 cópias/ml.

O Ginkgo biloba é um medicamento à base de plantas muito usado e que se pensa ter efeitos benéficos sobre a concentração, a memória, a demência e a depressão. É de referir que o efavirenze pode provocar efeitos secundários, tais como, dificuldade de concentração e depressão. A composição química do Ginkgo biloba, tal como a do efavirenze, significa que é metabolizado pela mesma via hepática, o citocromo P450. Sabe-se aliás que o Ginkgo biloba interage com outros medicamentos que são metabolizados pela mesma via hepática, tais como, a varfarina, a aspirina e o ibuprofeno.

“Concluímos”, escrevem os autores, “que a toma de Ginkgo biloba pode diminuir os níveis de efavirenze no plasma, o que pode resultar em falência virológica e deve ser desencorajado nas pessoas medicadas com este anrti-retroviral.

Referência

Wiegman D-J et al. Interaction of Ginkgo biloba with efavirenz. AIDS 23: 1184-85, 2009.