LGV – está para ficar

Michael Carter
Published: 09 June 2009

De acordo com o editorial da edição de Maio da revista Sexually Transmitted Infections, o linfogranuloma venéreo (LGV), uma infecção sexualmente transmissível está para ficar.

Em 2004, na Holanda, foi relatado um surto de infecção por LGV, entre homossexuais seropositivos para a infecção pelo VIH. Desde então, a infecção espalhou-se por muitos países desenvolvidos, com várias centenas de casos a serem diagnosticados no Reino Unido. É de notar que muitos dos homens que vivem com VIH e com diagnóstico positivo de LGV foram co-infectados com o vírus da hepatite C.

O editorial desta edição é acompanhado por vários artigos que reportam a infecção da epidemia por LGV entre os homossexuais.

Os estudos incluem uma descrição de 13 casos da infecção em Londres que envolvem úlceras genitais e síndrome inguinal.

Também incluído na revista está um artigo que analisa a prevalência do LGV entre os homossexuais no Reino Unido. Foram analisadas 4 800 amostras uretrais e 6 700 amostras rectais. Os resultados indicaram que aproximadamente 1% dos homossexuais tinham infecção rectal por LGV e apenas 0,1% dos homens infecção uretral. Quase todos estes casos eram sintomáticos.

Noutro artigo da mesma edição, investigadores italianos disponibilizaram informações sobre 13 casos de infecção diagnosticados no país, entre 2006 e 2008. À excepção de três casos, todos os outros envolviam infecção rectal. Os três primeiros doentes detectados desenvolveram sintomas após terem tido relações sexuais desprotegidas no estrangeiro, incluindo o Norte da Europa, onde se localiza o foco desta epidemia. No entanto, os investigadores relataram também o alastramento da subsequente transmissão da infecção em Itália. Quase dois terços dos casos de LGV, notificados neste país foram diagnosticados em homossexuais seropositivos para o VIH.

Continuam a existir uma série de perguntas sem resposta sobre a epidemia de LGV nos homossexuais seropositivos para o VIH. Desconhece-se, por exemplo, o modo exacto da transmissão, nem foi firmemente estabelecido porque é que a maioria das infecções são rectais. Uma das possíveis razões poderá ter a ver com o facto de esta transmissão estar relacionada com práticas sexuais, como o fisting ou o uso de brinquedos sexuais, em especial, na prática do sexo em grupo. Os primeiros casos da infecção envolveram um grupo de homens que tinha participado numa festa de Fisting, em Roterdão.

Os casos de LGV têm afectado os homossexuais seropositivos para o VIH de um modo desproporcionado. Por parte dos investigadores são avançadas duas possíveis explicações: o VIH torna os indivíduos mais vulneráveis à infecção; a infecção propagou-se nas redes sexuais de homossexuais seropositivos para a infecção do VIH. A monitorização epidemiológica da infecção realizada em alguns países parece favorecer a última hipótese.

Os autores salientam que os indivíduos com sintomas da infecção, ou aqueles sob suspeita estarem infectados, devem ter acesso aos testes adequados de diagnóstico. Os casos suspeitos e os confirmados devem ser tratados com doxiciclina durante 21 dias.

Os autores concluem ainda que “em função da falta de respostas clínicas e epidemiológicas, parece que o LGV está cá para ficar - pelo menos por agora”.

Referência

Ward H et al. Lymphogranuloma venereum: here to stay? Sex Transm Infect 85: 157, 2009.