Segundo comunicação apresentada no dia 5 de Agosto na Conferência Internacional sobre SIDA, há diversos comportamentos de risco que se tornam mais comuns nos homens depois de estes emigrarem. Alguns dos comportamentos identificados como mais prováveis de acontecer incluem relações sexuais com trabalhadoras de sexo comercial, sexo sob a influência de drogas ou álcool, sexo em troca de dinheiro ou com outro homem.
Estes dados foram obtidos através de uma série de estudos feitos nos Estados Unidos com imigrantes do México e, apesar de algumas das descobertas serem específicas desta amostra, permitem igualmente esclarecer alguns temas que podem ser relevantes para o trabalho de prevenção com migrantes em outros países, incluindo gays migrantes.
Mais de onze milhões de mexicanos vivem nos Estados Unidos. Os homens migram mais do que as mulheres, encontrando-se a maioria em idade produtiva. A permanência nos Estados Unidos poderá ser temporária e cerca de metade estão indocumentados. A prevalência do VIH é mais baixa no México do que nos Estados Unidos embora, neste país, esta seja relativamente alta na população hispânica/latina, tendo sido reportado um aumento nos comportamentos de risco. A Conferência Internacional sobre SIDA, realizada na Cidade do México foi o local apropriado para a sessão da tarde de quinta-feira, que explorou a vulnerabilidade ao VIH entre os migrantes mexicanos.
Melissa Sanchez, da University of California, destacou diversos factores sociais susceptíveis de contribuir para a vulnerabilidade entre os migrantes: a pobreza, o subemprego, a má habitação, a mobilidade constante (na sua maioria, na procura de emprego), o isolamento, a depressão e o acesso limitado a cuidados de saúde.
No estudo participaram 364 homens que, ou estavam nos Estados Unidos há menos de cinco anos ou regressavam ao México regularmente. Os participantes foram recrutados em locais de trabalho (quintas, pontos de encontro para recrutamento laboral), bares e discotecas (incluindo os frequentados por homens que têm sexo com homens) e comunidades locais (habitação familiar, mercearias, igrejas, entre outros.)
Vários estudos anteriores já tinham identificado que os migrantes mexicanos nos Estados Unidos têm um nível elevado de comportamentos de risco, mas não tinham sido capazes de medir a alteração de comportamentos a nível individual. Por isso, a investigadora questionou os inquiridos sobre uma série de comportamentos de risco, antes e após a migração.
Descobriu que, embora 18% dos inquiridos tivessem tido sexo com uma trabalhadora de sexo antes da migração, 29% tinham-no efectuado depois (p = <0,0001). Do mesmo modo, a percentagem daqueles que tiveram relações sexuais enquanto estavam sob a influência de drogas ou álcool passou de 25% para 41% (p = <0.0001) e a dos que relataram ter tido sexo com outro homem subiu de 4% para 7%. No que diz respeito às relações sexuais que envolveram algum tipo de transação (sexo em troca de dinheiro, comida, abrigo, medicamentos ou protecção), a percentagem aumentou de 1,4% para 2,7%.
Sanchez concluiu que os comportamentos de risco eram mais comuns em homens recrutados nos locais de trabalho e em bares/clubes, locais onde era mais provável encontrar homens mais isolados das suas famílias.
No entanto, a conclusão mais optimista da investigadora foi que, após a migração, havia uma maior utilização do preservativo. A percentagem daqueles que reportaram utilização inconsistente do preservativo (só às vezes, raramente ou nunca) desceu de 81% para 65% (p = <0,0001).
Conclusões similares sobre a utilização do preservativo foram apresentadas por Rene Leyva-Flores na mesma sessão. Os imigrantes mexicanos entrevistados por ele consideravam, mais frequentemente, a Califórnia como um lugar onde a SIDA existe e onde é necessário usar preservativos. No entanto, no regresso ao México e ao convívio com as suas esposas a SIDA não era considerada relevante e os preservativos não eram utilizados.
O estudo de Pilar Torres consistiu num inquérito qualitativo sobre atitudes face à migração entre os jovens mexicanos, com idades compreendidas entre os 15 e 24 anos. Pilar Torres entrevistou emigrantes que regressaram dos Estados Unidos e aqueles que permaneceram no México.
Aqueles que se mudam para os Estados Unidos fazem-no para resolver dificuldades financeiras, ir para junto de familiares previamente emigrados e escapar a uma variedade de problemas no México. Por outro lado, aqueles que não migram tinham, frequentemente, menos problemas financeiros e pretendiam permanecer no México para cuidar de parentes ou prosseguir a sua educação.
Surgiu outra diferença de atitude que pode ser relevante para a propagação da epidemia. Aqueles que migraram foram caracterizados como aventureiros e com mais probabilidade de correr riscos, enquanto que aqueles que não saíram do país, eram mais receosos e avessos a situações arriscadas. O acto de migrar é, por si só, cheio de perigos que podem variar entre a situação de se encontrar sozinho num ambiente desconhecido e hostil até ao risco de perder a própria vida durante a travessia da fronteira. Torres sugeriu que estas atitudes frente às situações de risco e às incertezas influenciam os comportamentos relacionados com o sexo/as práticas sexuais e o consumo de drogas.