Os homens homossexuais deveriam despistar a infecção a clamídia no recto, como parte dos cuidados de saúde, segundo o recomendado por investigadores num artigo publicado na edição online da Sexually Transmitted Infections. Estes descobriram que existem mais homossexuais com infecção rectal por clamídia do que com infecção na uretra ou gonorreia rectal. Para alem disso, a maioria das infecções rectais por clamídia eram assintomáticas e portanto escapariam sem um teste de rotina.
Outra descoberta revelou que mais de um terço dos homens com clamídia rectal eram seropositivos para o VIH.
A clamídia é a infecção bacteriana sexualmente transmissível mais comum no Reino Unido. O teste para a clamídia uretral é aconselhado como teste de rotina a todos os homens que recorrem a clínicas de saúde sexual, contudo, o teste rectal para a infecção não é disponibilizado aos homossexuais que frequentam estas mesmas clínicas. Este teste nem sequer é recomendado nas linhas de orientação sobre testes de saúde sexual da Associação Britânica para a Saúde Sexual e VIH (BASHH)
Estudos prévios revelaram que 7% - 9% dos homens homossexuais que recorrem a clínicas de saúde sexual têm infecções rectais por clamídia, na maioria das vezes sem sintomas. A clamídia, como todas as infecções sexualmente transmissíveis (IST), pode causar alterações na mucosa genital que aumentam o risco de transmissão de VIH. Assim sendo, os investigadores acreditam que um dos benefícios da detecção e tratamento da clamídia rectal seria a redução da transmissão do VIH.
Recentemente foram observados em homossexuais no Reino Unido e noutros países industrializados, surtos de infecção sexualmente transmissível por linfogranuloma venereo (LGV). Esta infecção é causada por algumas estirpes de clamídia e a maioria dos casos envolvia infecção rectal. Como reacção a esta manifestação de LGV, a equipa da consulta de saúde sexual do Hospital londrino de Chelsea e Westminster começou a testar os homens homossexuais para a infecção rectal por clamídia.
Foi desenhado um estudo pelos investigadores do hospital com três objectivos:
**Determinar a prevalência de clamídia rectal nos homens homossexuais.
**Descobrir quantas destas infecções eram assintomáticas.
**Estabelecer o número de infecções que não seriam diagnosticadas se este teste de rotina não fosse introduzido.
O estudo decorreu entre 2005 e 2006 e incluiu um total de 3076 homens. Todos estes homens fizeram testes para a clamídia uretral e 3017 fizeram o teste para a infecção rectal.
Os resultados demonstraram que 8% dos homens tinham clamídia rectal e 5% uretral. A prevalência da clamídia foi mais alta que a de qualquer outra infecção, tendo os testes mostrado que 4% dos homens tinha gonorreia rectal, 5% tinha gonorreia uretral e 3% sífilis.
Os investigadores debruçaram-se então sobre os casos de clamídia. Dos 397 homens diagnosticados com clamídia, 62% (247) tinham infecção rectal, 42% (164) tinham infecção uretral e 4% (15) tinham a infecção nas duas zonas.
A infecção rectal por clamídia era assintomática em 69% (171) dos homens e, portanto, não teriam sido diagnosticados sem a despistagem de rotina. Só 8% dos homens assintomáticos tinham também infecção uretral.
O LGV rectal foi diagnosticado em 14% (35) dos homens com clamídia rectal. Foi também detectado um caso de LGV uretral. A grande maioria dos casos de LGV rectal (82%) era sintomático.
Houve uma prevalência alta de infecção pelo VIH nos homens com clamídia rectal (38%, 94 indivíduos). Os investigadores constataram também que doze dos homens foram diagnosticados para o VIH e clamídia ao mesmo tempo.
Os factores associados significativamente à infecção rectal por clamídia foram a infecção pelo VIH (p < 0.01), gonorreia rectal (p = 0.0002) e verrugas genitais (p = 0.016). Os investigadores excluíram os homens com LGV da análise estatística, mas detectaram uma associação significativa entre a clamídia rectal e o VIH (p = 0.004) e entre a clamídia rectal e a gonorreia rectal (p = 0.002).
“Os nossos dados indicam uma taxa superior de infecção por clamídia rectal quando comparado com a gonorreia, sendo que uma proporção significativa era assintomática”, declaram os autores do estudo.
Concluíram então que “as linhas orientadoras sobre ISTs no Reino Unido recomendam exclusivamente testes de rotina para a gonorreia rectal, mas não para a clamídia rectal e os nossos dados demonstram a necessidade de rever estas linhas orientadoras. Recomendamos testes de rotina para a clamídia rectal em homens que têm sexo com homens em risco de se infectarem.”