Uma investigação europeia publicada em
Fevereiro, na 28ª edição do The Lancet, demonstra a importância de considerar
os resultados do teste de resistência transmitida quando se selecciona a
primeira combinação terapêutica anti-retroviral do doente.
As pessoas tratadas com um regime não
completamente activo, tinham uma probabilidade três vezes maior de falência virológica
durante o primeiro ano de tratamento, em comparação com as pessoas que não
tinham resistência, ou das que tinham mas que foram medicadas com terapêuticas completamente
eficazes para tratar a estirpe do VIH.
Houve, também, alguma evidência de que a
resistência inicial prejudicou a recuperação imunitária.
“A resistência a fármacos foi associada à
falência virológica em doentes que receberam, pelo menos, um medicamento ao qual
o vírus tinha perdido susceptibilidade”, escrevem os investigadores, afirmando
que as suas conclusões sublinham “a necessidade de, pelo menos, três
medicamentos anti-retrovirais activos para optimizar a resposta virológica na
terapêutica de primeira linha”.
Na Europa, o uso da terapêutica
anti-retroviral melhorou drasticamente o prognóstico de muitos doentes com VIH.
Contudo, o alargamento do uso da TARc tem sido acompanhado pelo aumento de transmissões
de estirpes resistentes. Aproximadamente 10% de todas as novas infecções na
Europa envolvem uma estirpe do vírus que é resistente a, pelo menos, um
medicamento anti-retroviral.
A resistência é a principal causa da
ausência de controlo da carga viral. As orientações Inglesas e Europeias
recomendam que todos os doentes façam o teste de resistência logo após o diagnóstico
do VIH e, que o repitam, antes de iniciar a TARc. O tratamento de primeira
linha deve ter em conta os resultados destes dados.
Contudo, há incertezas sobre o impacto das
resistências transmitidas na resposta ao tratamento de primeira linha para o
VIH. Isto especialmente no caso de o doente com resistência tomar uma
combinação completamente activa de medicamentos.
De forma a ter uma melhor compreensão
sobre este assunto, os investigadores europeus examinaram os resultados de 10
000 doentes que iniciaram a TARc depois de 1998. Os doentes foram inseridos em
25 coortes diferentes de adultos e crianças.
Todos os doentes fizeram o teste de
resistência antes de iniciar a TARc. Foram analisadas mudanças na carga viral e
na contagem de células CD4, no primeiro ano de tratamento.
O risco de falência virológica (duas
contagens consecutivas de carga viral acima das 500 cópias/ml, após seis meses
de tratamento) foi comparado entre os doentes que não tinham nenhuma
resistência transmitida; com resistência, mas que tivessem sido tratados com uma
combinação terapêutica que era completamente activa; ou com resistência
transmitida e tratados com uma combinação sub-óptima.
Aproximadamente 10% dos doentes tinham
resistência transmitida. Metade foi tratada com anti-retrovirais para os quais
o VIH era totalmente susceptível. Os outros doentes receberam tratamento para o
qual o VIH era, pelo menos, parcialmente resistente.
Após um ano de tratamento, 4,2% dos
doentes sem resistência transmitida apresentava falência virológica. A taxa foi
marginalmente superior (4,7%) nas pessoas com resistência transmitida que
receberam a terapêutica com três fármacos completamente activos. Contudo, uma
proporção bem maior de doentes (15%) com resistência e susceptibilidade
reduzida a um medicamento teve falência virológica.
Os investigadores calcularam que estes
doentes tinham um aumento três vezes maior no risco de falência virológica (p
< 0,001).
Acrescentam que, os doentes com elevada
resistência ao(s) medicamento(s) que estavam a tomar tinham um aumento de risco
seis vezes superior da carga viral permanecer detectável ou de tornar a subir após
seis meses sob tratamento (p < 0,001).
Houve alguma evidência de que a terapêutica
que incluiu um inibidor da protease potenciado pelo ritonavir foi uma boa opção
para as pessoas com resistência que receberam tratamento completamente activo. Não
tinham maior probabilidade de falência virológica do que as pessoas que não
tinham resistência e que receberam esta classe de medicamento.
Contudo, houve fraca evidência de maior risco
de falência no tratamento em doentes com resistência transmitida que receberam
tratamento completamente activo baseado em ITRNN, comparado com as pessoas sem
nenhuma resistência mas que também foram tratadas com esta classe do
medicamento (hazard ratio = 2,0; 95%
CI; 0,9-4,7, p = 0,093).
Após um ano de tratamento, a média de
aumento na contagem de células CD4 foi de 183/mm3. Houve modestas
evidências de que os doentes com resistência sob terapêutica não completamente
activa tiveram aumentos menores na contagem de células CD4 durante o primeiro
mês de tratamento. Tal foi mais visível entre os doentes que receberam um ITRNNs
(p = 0,0514).
“Estas conclusões são importantes porque
sugerem uma fraca resposta imunitária em doentes com resistência transmitida que
iniciaram um regime sub-óptimo que resultará em resultados mais pobres na
resposta das células CD4 e, por último, no risco de progressão da doença”,
escrevem os investigadores.
Concluem que “este estudo Europeu observacional multi-coorte confirma as
actuais orientações sobre o tratamento, que declaram que a opção do tratamento
inicial em doentes naïve deve ser
baseada no teste de resistência”. Em locais onde o teste não está disponível,
sugerem que o tratamento baseado num inibidor da protease potenciado pelo ritonavir
“deve ser uma opção a considerar”.