Estigma contra o VIH divide e fragmenta as comunidades gay

Roger Pebody
Published: 30 January 2012

Segundo os autores de um artigo publicado na edição online da AIDS Care que faz uma revisão de estudos de investigação identificou -se uma crescente divisão dentro das comunidades gay, onde os homens seronegativos para o VIH se associam maioritariamente com outros homens seronegativos e os homens seropositivos para o VIH misturam-se maioritariamente entre si. Além disso o estigma tem impactos negativos na saúde tanto dos homens seropositivos para o VIH como dos seronegativos para o VIH.

O estigma foi definido como “um processo de desvalorização das pessoas que vivam ou que sejam associadas ao VIH e à SIDA”. A maioria da literatura da investigação sobre o estigma lida com as atitudes da população em geral, mas os autores desejaram chamar a atenção e juntaram relatórios relacionados com a estigmatização dos homens seropositivos para o VIH dentro das comunidades de homens gay.

Eles descrevem esta literatura como “fragmentada e constituída por relatos de casos isolados” – e apelam a uma investigação mais empírica – mas têm identificado múltiplas referências ao estigma que afecta homens gay e homens bissexuais:

  • Sete em cada dez homens gays que responderam a um inquérito Holandês já foram alvo de estigma num ambiente gay;
  • Os homens seropositivos para o VIH apercebem-se de uma “fenda” baseada no estatuto de VIH dentro da sua comunidade gay.
  • O medo da rejeição por parte de potenciais parceiros sexuais é reportada com frequência e causa danos de longa duração na auto confiança e auto estima de homens infectados pelo VIH.
  • Os homens mais velhos infetados pelo VIH sentem-se particularmente desvalorizados, acreditando que se encontram no fundo da hierarquia social gay, e ressentem-se por supostamente serem dependentes de benefícios sociais que já não se encontram disponíveis para os homens mais jovens também infetados pelo VIH.
  • As mudanças da gordura corporal e outras manifestações físicas relacionadas com o VIH e o seu tratamento são tidas como não atraentes. Homens que apresentem tais sintomas reportam uma perda de intimidade e evitam certos espaços sociais porque se sentem conscientes da sua aparência e temem a rejeição.
  • Nos Estados Unidos, homens negros gay são julgados por terem um risco mais elevado de infecção pelo VIH em comparação com homens de outras etnias e são muitas vezes evitados como parceiros sexuais por esse motivo.
  • O estigma tem um impacto de considerável dimensão entre o bem-estar mental e emocional, levando a ansiedade, solidão, depressão, pensamentos suicidas e estratégias para evitar situações tal como retirarem-se da vida social.
  • Os homens que revelam o seu estatuto de VIH a uma rede de apoio limitada muitas vezes sentem-se socialmente isolados.
  • Alguns homossexuais portadores de VIH reportam manter uma distância social e sexual de outros homens seropositivos, sentindo que ao serem associados a espaços de seropositivos para o VIH (quer online ou offline) constituiria estigma direccionado contra eles.
  • Os homens portadores de VIH que são identificados como “barebackers” tendem a reportar um estigma maior, stress relacionada com a situação gay, culpabilização e abuso de substâncias para ajudar a lidar com a questão.
  • Os homens que reportam discriminação por parte de parceiros sexuais e falhas na confidencialidade têm menos probabilidade de aderir à medicação.

Os autores referem que o estigma também tem efeitos negativos na saúde dos homens seronegativos para o VIH. Os homens seronegativos que evitam contacto sexual com homens seropositivos para o VIH como um meio para evitar a infecção pelo VIH colocam-se a eles próprios em risco – devido a testes não frequentes ao VIH, infeções por diagnosticar e por não revelarem o seu estatuto de VIH. Além disso as crenças estigmatizantes são associadas com taxas mais baixas de realização de teste de rastreio de VIH e um conhecimento mais fraco sobre a transmissão do VIH.

Afirmam que são necessárias com urgência estratégias eficazes validadas pela investigação, para reduzir o estigma. “Tais iniciativas deveriam adotar um diálogo renovado sobre viver com o VIH como um homem gay, criar oportunidades para partilhar a compreensão e a experiência entre homens seropositivos e seronegativos para o VIH, e ter como objectivo a reunião das comunidades gay ao reduzirem o estigma e oferecerem um apoio médico e social integrado”.

Referência

Smit PJ et al. HIV-related stigma within communities of gay men: a literature review. AIDS Care, published online ahead of print, 2011. (Texto na íntegra disponível online).