O General Eric Schumaker, Cirurgião-Geral do exército norte-americano, disse hoje que o resultado do ensaio da vacina RV144 “abria novas portas e acendia algumas luzes” no campo da investigação em vacinas do VIH, embora tenha referido também que a “modesta” eficácia observada estava a dar lugar a mais questões do que respostas.
O Dr Anthony Fauci, Director do US National Institute of Allergies and Infectious Diseases (NIAID) – Instituto Nacional para as Doenças Alérgicas e Infecciosas dos EUA -, referiu, por seu lado: “Estamos perante o começo de um novo caminho na investigação de vacinas do VIH, não perante um fim”.
E acrescentou: “Trata-se de um resultado entusiasmante e bem-vindo, numa área caracterizada pelo desapontamento nas últimas duas décadas”.
O ensaio em causa mostrou um resultado inesperadamente positivo quando se verificou existirem 31% menos infecções nas pessoas a quem foi administrada a combinação de vacinas ALVAC/AIDSVAX do que naquelas a quem foi administrado um placebo, apesar dos resultados negativos apresentados pela administração separada das duas, em estudos anteriores.
“O ensaio coloca várias questões fundamentais de difícil resposta”, continuou Fauci. “Quais são os correlatos da imunidade anti-VIH? Poderá este ensaio ter alterado substancialmente a nossa compreensão do que pode constituir uma resposta protectora contra o VIH? Será que poderemos melhorar a eficácia dos resultados apresentados? E será que este resultado significa que nos devemos recentrar mais na investigação clínica do que na ciência básica?”.
A esta última pergunta, o próprio Fauci respondeu: “De maneira nenhuma. [De facto] o compromisso da nossa instituição, o NIAID, de manter um adequado equilíbrio entre a ciência básica e vacinologia versus os ensaios clínicos empíricos não mudou”.
Fauci referia-se à controvérsia que rodeou o ensaio RV 144, na qual um grupo de cientistas criticou o ensaio por alegadamente se tratar de um desperdício de dinheiro (o NIAID financiou o ensaio em cerca de três quartos do seu custo, o que perfez, no total, 105 milhões de dólares). Mas aqueles que defenderam que o ensaio continuasse e que a descoberta de vacinas tem dependido tanto de acasos felizes como do método e rationale científico, parecem hoje ver vingada a sua posição.
O Investigador Principal do ensaio, o Dr Supachai Rerks-Ngam referiu: “Hesitámos em continuar o ensaio devido às críticas do ponto de vista científico. Mas tendo em conta a necessidade de uma vacina do VIH e após consultar diversos peritos internacionais, decidimos continuar. Essa determinação viria a dar bons resultados”.
O Coronel Nelson Michael, director do Military HIV Research Programme dos EUA (MHRP), responsável por 25% de financiamento do Projecto, assinalou que o aspecto mais surpreendente e provavelmente o mais significativo do resultado foi o de que a vacina pareceu produzir um efeito protector ligeiro ao mesmo tempo que não produzia nenhum efeito na carga viral das pessoas infectadas.
“Esta descoberta pode ter alterado algumas das suposições que tínhamos sobre as vacinas do VIH”. E acrescentou que o ensaio mostrou que “ a experiência em humanos ultrapassa tudo o que fazemos em animais ou tubos de ensaio”.
Aquilo a que o Coronel Michael se referia era ao facto de o ensaio RV144 ter consistido no estudo de duas vacinas, com dois modos de acção diferentes. A vacina ‘principal’, a ALVAC, consistia em genes do VIH transportados num vector (um vírus). Este modelo de vacina foi desenhado para estimular uma resposta imunitária celular. Não evita a infecção inicial, mas o modelo científico – suportado por dados provenientes de alguns estudos em macacos – era o de que os linfocitos T citotóxicos (células CTL, ou CD8) assim gerados, iriam posteriormente reduzir a proliferação do VIH, conter a carga viral e desacelerar ou interromper a progressão para SIDA.
A ALVAC parece não ter tido qualquer influência sobre a carga viral, um achado pelo menos em sintonia com a falência do ensaio STEP – de uma vacina de células CD8s – em 2008. Note-se, porém, que no início do estudo RV144, as vacinas de CTLs aparentavam ser promissoras.
A AIDSVAX, por seu lado, foi desenhada de modo a produzir uma resposta de anticorpos contra a proteína gp120 (existente na superfície do VIH), um conceito que se pensava ter ficado desacreditado em 2003, mesmo após o RV 144 ter começado. A suposição era a de que a hipervariabilidade genética do VIH iria significar que toda a resposta dos anticorpos seria irremediavelmente específica; Nessa altura, o pioneiro na investigação do VIH, Dr. Robert Gallo, afirmou: “Isto não é um estudo sobre vacinas baseado na ciência”.
Contudo, o que as vacinas do estudo RV 144 parecem ter feito foi bloquear a infecção sem conter a carga viral nas pessoas infectadas, o que parece uma resposta de anticorpos. Nelson Michael acrescentou, contudo, que um estudo de maior duração (RV 152) se encontra neste momento a fazer o seguimento de uma parte dos participantes no ensaio, para detectar eventuais efeitos a longo prazo sobre a carga viral.
Quando interrogado sobre o que estava a causar a eficácia da vacina, Anthony Fauci comentou: “Simplesmente, não sabemos. Não observámos respostas significativas de anticorpos neutralizadores, embora haja indícios de uma pequena resposta de anticorpos. Também observámos uma resposta linfo-proliferativa, mas não observámos um aumento das CTLs.”
“É possível que ainda não tenhamos começado a medir os parâmetros imunitários correctos, os que de facto indiquem uma protecção contra o VIH”.
Fauci disse haver uma série de perguntas que o ensaio deixou por responder, e que incluem:
**O efeito da vacina é durável ou seriam necessários mais (doses de) reforços?
**Haverá maneiras de melhorar a eficácia deste modelo?
**Será que observaríamos resultados semelhantes em populações de alto risco, como homens que têm sexo com homens (HSH), utilizadores de drogas injectáveis e heterossexuais de alto risco?
No que se refere à última questão, o director do MHRP, Jerome Kim, disse que, ao contrário do que foi referido em certos meios, o RV144 não excluiu pessoas de alto-risco. Quando o estudo começou, veio a verificar-se que um pequeno número de participantes era HSH e trabalhadores do sexo. O ensaio foi desenhado para vacinar uma “amostra da comunidade”, ou seja, por outras palavras, uma amostra representativa da população tailandesa, “indo desde as pessoas com elevado risco, até àquelas sem risco”.
Contudo, especulou ainda Kim, uma razão por detrás do resultado positivo do ensaio pode ter sido a de que “a intensidade média de exposição ao VIH possa ter sido mais baixa do que a de populações de alto-risco… Sabemos que um inoculado suficientemente grande de vírus pode ultrapassar qualquer reposta gerada por uma vacina”.
Quando perguntado sobre que estudos científicos do protocolo RV144 se seguiriam, dado este resultado positivo, Don Francis, director do Global Solutions for Infectious Diseases e o homem que desenvolveu a AIDSVAX, indicou que restavam poucos stocks da vacina, os suficientes apenas para conduzir pequenos ensaios – facto que pode constituir uma indicação de que este era, de facto, um resultado que não se esperava.
Anthony Fauci, por seu turno, referiu que o primeiro passo deveria ser a organização de um encontro com especialistas não pertencentes ao projecto, com o objectivo de se perceber o modo como a vacina funciona.
Em resposta a uma pergunta da imprensa sobre se este resultado iria conduzir à aprovação do protocolo da vacina, Francis e Sanjay Gurunathan, da Sanofi Pasteur (que desenvolveu a ALVAC), enfatizaram que o estudo não tinha força suficiente para ser aprovado pela norte-americana FDA (Food and Drug Administration), e que embora o limiar de eficácia acima do qual se decide se vale ou não a pena aprovar uma vacina seja determinado por cada país individualmente, a eficácia observada neste caso foi apenas modesta. “O que está planeado é uma série de investigações nos próximos anos, com vista a alargar o âmbito dos actuais achados”, comentou Gurunathan.
Nelson Michael acrescentou, por seu lado, que o poder do ensaio para avaliar a eficácia era maior enquanto estava a ser desenhado do que o que depois se veio a verificar, o que pode ser devido às tentativas bem sucedidas da Tailândia para reduzir a incidência do VIH na população do ensaio.
No entanto, concluem os investigadores, os resultados do ensaio marcam um ponto de viragem na história do desenvolvimento de uma vacina para o VIH. O general Schumaker resumiu isto mesmo ao dizer que este é “um grande momento para o mundo da medicina, assim como para a família humana global”.