Em França, os migrantes seropositivos para a infecção pelo VIH são fortemente afectados pela Tuberculose

Michael Carter
Published: 04 February 2010

De acordo com um relatório publicado na edição de 28 de Janeiro da revista AIDS, em França, a incidência de tuberculose (TB) entre doentes seropositivos para o VIH, duplicou entre 1997 e 2008. Durante este período, houve um aumento particularmente elevado da incidência de TB entre migrantes infectados pelo VIH, em especial entre os oriundos da África subsahariana.

Uma contagem baixa de células CD4 e níveis elevados de carga viral são factores de risco para a TB, tendo sido diagnosticados um elevado número de doentes com VIH e TB em simultâneo. O tratamento anti-retroviral (TARV) foi associado a um menor risco de TB. Os investigadores acreditam que estas conclusões justificam a “co-prescrição da terapêutica preventiva da TB e a combinação da TARV para doentes de alto risco severamente imunodeprimidos, tais como os migrantes e os doentes socialmente excluídos”.

A introdução de um tratamento eficaz para o VIH levou a uma diminuição massiva e sustentável do número de casos de doenças definidoras de SIDA diagnosticados em pessoas seropositivas para o VIH em países ricos como a França.

No mundo, a tuberculose é a principal causa de doença e de morte entre as pessoas que vivem com VIH. Mesmo em países industrializados, como a França e o Reino Unido, a TB é uma das doenças definidoras de SIDA mais comum.

Muitos dos casos de TB, diagnosticados em doentes seropositivos para o VIH, em França e países similares, são em migrantes oriundos de países onde a incidência da TB é elevada.

Os investigadores franceses pretendiam ter um melhor conhecimento sobre a incidência e os factores de risco de TB entre pessoas que vivem com VIH, a partir do momento em que uma terapêutica eficaz se tornou disponível.

Assim, desenharam um estudo prospectivo, que envolveu 72 580 adultos seropositivos pata a infecção pelo VIH, que receberam cuidados de saúde entre Janeiro de 1997 e Dezembro de 2008.

A percentagem de doentes migrantes aumentou de 9% em 1997, para 29% em 2008. Nesta altura, 21% de todos os doentes eram da África subsahariana.

Um total de 2 625 doentes foi diagnosticado com TB. Um pouco mais de um terço destes (36%) foi diagnosticado com TB e VIH ao mesmo tempo.

Os doentes contribuíram em mais de 427 000 pessoas/ano de seguimento. A incidência de TB foi de 0,40 per 100 pessoas/ano entre os não-migrantes e de 1,30 per 100 pessoas/ano entre os migrantes.

Durante o período de estudo, a incidência total de TB aumentou dos 0,69 per 100 pessoas/ano em 1997 para 1,39 per 100 pessoas/ano em 2008.

A incidência de TB entre os migrantes foi aproximadamente, o dobro da observada em não-migrantes. Contudo, em ambos os grupos de doentes, a incidência de tuberculose aumentou significativamente – em 85% entre os não-migrantes e em 151% nos migrantes.

O único grupo de doentes não-migrantes onde a incidência de TB não aumentou significativamente (p <0,0001) foi no grupo homossexual.

Quando os investigadores observaram os factores de risco para TB, concluíram que os migrantes da África subsahariana tinham o dobro do risco de contrair tuberculose, quando comparados com as pessoas seropositivas para o VIH nascidas em França (adjusted risk ratio, 2,16; 95% CI, 1,88-2,48). Acrescentam que, o risco de TB era 83% superior entre os migrantes de outras regiões, em comparação com os doentes seropositivos para o VIH nascidos em França.

O diagnóstico tardio para o VIH foi associado com o aumento de risco de TB para ambos, migrantes e não-migrantes. O risco de TB foi mais elevado durante os primeiros seis meses de cuidados de saúde para o VIH, e em doentes com uma baixa contagem de células CD4 e carga viral elevada (p<0,0001 para todos os factores de risco).

Os doentes que estavam a fazer uma terapêutica combinada de medicamentos anti-retrovirais nos últimos seis meses tinham um risco 50% menor de contrair TB quando comparados com aqueles que não tomavam a TARV (p<0,0001).

A área de residência também foi associada ao risco de TB, sendo mais elevada para as pessoas que viviam em Paris ou nas Antilhas Francesas. Ambas as regiões têm uma elevada população migrante.

“Neste estudo, as taxas de incidência de TB entre pessoas seropositivas foram 40 vezes superiores àquelas reportadas entre a população geral em França e 20 vezes superior à reportada na área de Paris…confirmando que o VIH é, por si só, um risco para a TB”, comentam os investigadores.

Num terço dos doentes, o VIH foi diagnosticado ao mesmo tempo que a TB. “A TB continua a revelar o VIH nos países industrializados” escrevem os investigadores. O diagnóstico tardio do VIH é uma preocupação em muitos países da Europa de leste, e é recomendado que, a todos os doentes com TB, seja proposto o teste para o VIH.

Em todos os outros grupos, à excepção do grupo homossexual, a incidência da TB aumentou. Os investigadores sugerem que isto demonstra a associação da TB com a privação social. Os homossexuais, em geral, têm um estatuto sócio-económico mais elevado do que os outros grupos afectados pelo VIH.

Apesar de o risco da TB diminuir com o facto de o doente receber a TARV, os investigadores notam que, no geral, a incidência de TB aumentou. Concluem portanto que “doentes seleccionados, como os migrantes de zonas endémicas e doentes com acesso tardio aos cuidados de saúde…podem, assim, beneficiar da co-prescrição da terapêutica preventiva da TB e da combinação da TARV”.

Referência

Abgrall S et al. HIV-associated tuberculosis and immigration in a high-income country: incidence trends and risk factors in recent years. AIDS 24 (online edition), 2010.