Elevada prevalência de anomalias cardíacas assintomáticas em doentes com VIH

Michael Carter
Published: 20 January 2011

Investigadores norte-americanos relatam na edição online da Clinical Infectious Diseases que as anomalias cardíacas assintomáticas são comuns entre doentes seropositivos para a infecção pelo VIH.

Foram detectadas taxas muito mais elevadas do que as esperadas de anomalias cardíacas estruturais e funcionais quando um vasto grupo de doentes foi monitorizado utilizando a ecocardiografia.

As anomalias cardíacas foram geralmente detectadas por ecocardiograma, apesar da idade relativamente jovem e da elevada contagem de células CD4 dos participantes”, comentam os investigadores.

Contudo, muitos dos factores de risco associados às anomalias cardíacas eram potencialmente modificáveis.

Devido à eficácia da terapêutica anti-retroviral, muitos doentes com VIH podem ter esperança de viver com qualidade até uma idade avançada.

Mas existem preocupações que alguns indivíduos tenham um risco acrescido de doença cardiovascular. As investigações apontam para que os doentes infectados pelo VIH tenham maior probabilidade de ter enfarte do que os seus pares seronegativos. As causas deste aumento de risco cardiovascular parecem incluir o próprio VIH, a terapêutica com alguns medicamentos anti-retrovirais e factores tradicionais como a idade, tabagismo e dieta.

A prevenção da doença cardiovascular é uma componente importante nos cuidados relacionados com o VIH. Como muitos dos riscos são potencialmente modificáveis, a detecção precoce dos problemas significa que os doentes podem ser encorajados e incentivados a fazer alterações no estilo de vida que podem reduzir o risco de um episódio cardíaco.

Contudo, pouco se sabe sobre a prevalência e os factores de riscos das disfunções cardíacas assintomáticas estruturais e funcionais. Como tal, os investigadores da US Study to Understand the Natural History of HIV/AIDS (SUN Study) monitorizaram 656 doentes, utilizando a ecocardiografia.

A investigação foi conduzida entre 2004 e 2006. Os doentes tinham uma média de idade de 41 anos. A maioria (76%) era composta por homens, 71% caucasianos e 73% estava sob Terapêutica Anti-retroviral (TAR). Os doentes tinham as funções imunitárias bem preservadas e a contagem média de células CD4 era de 462 células/mm3. Quase todos aqueles (91%) que estavam sob TAR tinham carga viral inferior a 400 cópias/ml.

Verificou-se que apenas um terço dos doentes tinha função cardíaca e estrutural normal.

Os resultados mostraram que 18% dos participantes tinha disfunção sistólica ventricular esquerda; 26% tinha disfunção diastólica; 57% hipertensão pulmonar; a hipertrofia ventricular esquerda estava presente em 7% dos doentes e hipertrofia auricular esquerda em 40%.

Os investigadores referem que estas prevalências são muito mais elevadas do que aquelas observadas na população norte-americana, em geral. Por exemplo, num estudo recente, apenas 5% dos doentes seronegativos para a infecção pelo VIH tinha a auricula esquerda aumentada.

A análise estatística demonstrou que uma variedade de factores de risco estava associada às anomalias observadas nos doentes seropositivos.

Os participantes com disfunção sistólica ventricular esquerda tinham um historial de ataque cardíaco (9 = 0,019), níveis elevados de um marcador de inflamação a proteína C reactiva (p = 0,033) e tabagismo (p = 0,036).

A disfunção diastólica também foi associada a elevados níveis de proteína C reactiva (p = 0,027) e pressão arterial alta (p = 0,003).

Os factores de risco para a hipertensão pulmonar incluíram a utilização corrente do inibidor da protease ritonavir (p = 0,037).

Os investigadores identificaram a pressão arterial alta (p = 0,002), a diabetes (p = 0,003, a etnia negra (p = 0,006), a proteína C reactiva elevada (p = 0,15) e o tratamento usual com abacavir como factores de risco para a hipertrofia ventricular esquerda. As mulheres com índice de massa corporal acima de 25 tinham também um risco acrescido desta anomalia.

Apenas dois factores foram associados ao aumento da aurícula esquerda: pressão arterial alta ( p = 0,008) e utilização recente de cannabis (p = 0,013).

Nenhuns destes factores de risco era “inesperado”, comentam os investigadores e acentuam que muitos destes são potencialmente modificáveis.

Concluem, por isso, que “os nossos resultados apoiam as mudanças no estilo de vida, tais como a interrupção tabágica e a perda de peso, como prioridades continuadas na gestão crónica da infecção pelo VIH.”

Referência

Mondy K et al. High prevalence of echocardiographic abnormalities among HIV-infected persons in the era of highly active antiretroviral therapy. Clin Infect Dis: online edition (DOI: 10. 1093/cid/ciq066), 2011 (para aceder gratuitamente ao  abstract, clique aqui).